Indústrias no Brasil já sentem o reflexo da retomada dos serviços e operam no limite da produção

A retomada do setor de serviços – seguimento responsável pela maior fatia do Produto Interno Bruto (PIB) do país – com a flexibilização das medidas de isolamento social já se reflete sobre outras áreas da economia. Na indústria, os efeitos da crescente normalização de bares e restaurantes, além da recuperação da malha turística e hoteleira, levam as linhas de produção a operar no limite. O otimismo é ainda maior para 2022, quando se espera a liberação total das atividades econômicas e o retorno de aglomerações em eventos, shows, festivais, estádios e feiras empresariais. A recuperação da prestação de serviços é a grande aposta do mercado para a retomada da economia em 2021, e é vista pelo governo federal como uma das bases de sustentação da expansão da economia em 2022. O setor, o mais impactado pelas restrições de mobilidade adotadas para frear a disseminação do novo coronavírus, alcançou, em julho, o maior patamar em cinco anos ao crescer 1,1% — o quarto mês consecutivo de avanço—, e ficou 3,9% acima do nível pré-pandemia.

Um dos termômetros dessa recuperação no setor industrial está a Marcopolo. Referência nacional na fabricação de ônibus, a companhia está em expansão com a expectativa de retomada do turismo com o fim das restrições sanitárias. A produção da empresa cresceu 21,6% no terceiro trimestre deste ano, na comparação com o mesmo período do ano passado, somando 2.438 unidades. Segundo a montadora, o resultado é quatro vezes maior o aumento de 4,7% registrado pela produção total de carrocerias de ônibus no país, no mesmo período comparativo. “Conseguimos mensurar o otimismo com a retomada econômica, por meio da procura por veículos que atendam as demandas de aumento do turismo rodoviário e do fretamento em áreas urbanas”, afirma o diretor de operações comerciais e marketing da montadora, Ricardo Portolan. O otimismo é impulsionado pelo investimento com o desenvolvimento de novos modelos de ônibus rodoviários. Entre maio e julho deste ano, a Marcopolo lançou três modelos voltados ao turismo e fretamento. A resposta do mercado indicou o aquecimento da demanda. Em menos de quatro meses, um dos modelos fabricados esgotou na fábrica e postergou a entrega de novas unidades apenas para o ano que vem. “Os lançamentos deverão contribuir e estimular as vendas já a partir do fim do terceiro trimestre, em um momento de retomada do segmento”, diz Portolan.

A situação é semelhante no complexo fabril da Owens Illinois (O-I), líder do mercado de embalagens de vidros no Brasil. Mesmo operando com 100% da sua capacidade, a multinacional precisa importar parte da produção para dar conta de atender à alta demanda doméstica. “Isso vale para todas as categorias. Hoje, não conseguimos identificar um setor que não esteja sendo beneficiado pela abertura e tudo que está por vir. A expectativa é extremamente positiva e vamos continuar operando full, praticamente sem inventário”, diz o gerente de marketing para a América do Sul, Daniel Jekl. A produção de diferentes tamanhos de garrafas de cerveja consome mais de 50% da capacidade da empresa. O restante é divido entre outras bebidas e alimentos. Apesar de não ver o movimento cair durante a pandemia — pelo contrário, a demanda por embalagens aumentou —, a projeção para 2022 é de expansão ainda mais aguda com a volta de aglomerações, como festivais e shows. “Se antes da retomada desses grandes eventos nós já percebemos a melhora, ela deve se acentuar bastante. Temos uma visão positiva do mercado e as perspectivas são as melhores possíveis”, diz Jekl.

A estimativa de recuperação também move os gigantes do setor de serviços. As viagens domésticas de avião cresceram, em setembro, pelo quinto mês seguido, segundo a Associação Brasileira de Empresas Aéreas (Abear), e registraram o equivalente a 74,6% da oferta de voos do período pré-pandemia. Atenta a esse movimento de alta, a Latam anunciou uma série de investimentos para os próximos meses. Atualmente, a companhia atua com 82% da sua capacidade de oferta de assento no mercado doméstico, na comparação com o mesmo período de 2019 — a queda de 2020 foi tão brusca que a empresa não usa os números como base de comparação —, e prevê alcançar 100% já no início do próximo ano. “O otimismo vem do avanço da vacinação e o aumento da confiança das pessoas em viajar”, diz o diretor de vendas e marketing da companhia, Diogo Elias. Até o primeiro trimestre de 2022, a companhia deve aumentar em 30% a quantidade de aeroportos atendidos no país na comparação com 2019, passando de 44 para 56. A expectativa com a escalada da demanda fez a empresa reverter o processo de demissões e abrir 2.000 vagas de emprego, a maioria para pilotos e tripulantes. “Olhando para recortes de destinos, alguns estão com a demanda maior do que o período pré-pandemia. Essa retomada e a abertura de novas bases de operação também significam mais contratação de pessoal”, completa Elias.

Fonte: Jovem Pan