Falta de confiança, investimento baixo, indústria fraca e comércio de lado atravancam economia brasileira

PIB cresceu 0,4% no segundo trimestre, e afasta temores de recessão técnica.
A economia brasileira cresceu 0,4% de abril a junho, afastando o temor de uma recessão técnica – caracterizada por dois trimestres seguidos de retração.
O resultado, divulgado nesta quinta-feira (29) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), traz alívio, mas ainda não coloca o país em uma trajetória de crescimento robusto e sustentável. Fatores como a falta de confiança, o baixo investimento e fraqueza na indústria e no comércio dificultam um avanço maior.
Segundo dados do Ministério da Economia, se o PIB brasileiro crescer na mesma proporção nos próximos dois trimestres, a economia fechará o ano com alta de 0,6% sobre 2018 – abaixo do resultado obtido nos dois anos anteriores, de 1,1%.
“É um crescimento modesto ainda, o PIB está andando de lado. A gente está retomando a queda do primeiro trimestre”, diz o economista sênior da XP, Marcos Ross. “Ainda que cresça 1% no ano, é um desempenho ridículo”, afirma Claudio Considera, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV/IBRE).
Depois que o PIB avançou 1,1% em 2017, revertendo dois anos de contração, o mercado entrou em 2018 com a esperança de que a economia deslanchasse de vez. À época, a expectativa dos economistas ouvidos no boletim Focus, do Banco Central, era de um crescimento de 2,7% no ano, mas o número ficou bem abaixo: o que veio foi mais um aumento de 1,1%.
E a conjuntura aponta para mais um ano decepcionante. Diante da fraqueza dos indicadores ao longo do primeiro semestre, as estimativas para 2019 também já foram reduzidas gradualmente. Em janeiro, era esperado um crescimento de 2,5% no ano e, agora, um avanço de 0,8%.
Combinação de fatores
A fadiga da economia é resultado de uma combinação de fatores, gerados principalmente por incertezas que predominaram no país desde segundo trimestre de 2018 e abalaram a confiança, adiando os investimentos das empresas e as compras dos consumidores.
Grandes choques contribuíram para esse quadro. Um deles foi a greve dos caminhoneiros, em maio do ano passado, que provocou desabastecimento no comércio, paralisou a indústria, prejudicou as exportações e derrubou a prestação de serviços, problemas que surtem efeitos até hoje. Logo depois, veio a turbulenta campanha eleitoral, que começou com a indefinição sobre a possível candidatura do ex-presidente Lula, foi marcada pela facada no então candidato Jair Bolsonaro, e que terminou com duas propostas de governo muito divergentes em disputa.
“Terminamos 2017 com uma perspectiva de aceleração que vinha se materializando no começo do ano passado, mas veio a greve e, na sequência, o Brasil entrou na fase de preocupação com as eleições. Num contexto político polarizado, isso teve um peso para a postergação das decisões”, avalia Silvio Campos Neto, economista da Tendências.
Em 2017, a atividade teve impulsos pontuais como a “supersafra” de grãos e a liberação dos saques de R$ 44 bilhões de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) inativo para os trabalhadores.
Outro tranco sofrido pela economia brasileira foi o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, em janeiro desde ano. O desastre provocou a paralisação de outras minas e afetou a produção e exportação de minério do país, impacto prolongado até hoje, inclusive sobre outras indústrias. “É algo que pesa diretamente no PIB industrial”, pontua Silvio.
Neste ano, a adaptação do novo governo e o desgaste político para aprovar a reforma da Previdência, considerada essencial para que as finanças públicas saiam do vermelho, também contribuíram para o adiamento das decisões econômicas, segundo os especialistas. Com o sinal verde para o texto na Câmara, a expectativa é de que o cenário melhore neste segundo semestre, após a análise do Senado.
Problemas estruturais
Mas, para além dos efeitos pontuais, a economia brasileira enfrenta problemas estruturais. O mau desempenho do setor industrial é um deles. “A indústria não vem performando há muito tempo. Isso tem efeitos em toda a cadeia”, pontua Marcos Ross, economista sênior da XP.
Apesar da expansão de 0,7% em valor adicionado do setor no segundo trimestre, registrada nos dados do PIB, a produção industrial no primeiro semestre deste ano só cresceu (e pouco) em dois meses: fevereiro e abril. Em todo o período, acumula queda de 1,6%, conforme dados da pesquisa mensal do IBGE.
A crise na Argentina, relevante mercado importador de manufaturados brasileiros, como automóveis e calçados, e a guerra comercial entre Estados Unidos e China também contribuem para o marasmo no segmento.
O investimento, peça chave para fazer a engrenagem girar, cresceu 3,2% no segundo trimestre segundo os dados do PIB, mas está em nível crítico. No primeiro semestre, ficou em 15,5% do PIB, o menor patamar em mais de 50 anos, conforme levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV). Com a crise nos estados, o rombo nas contas federais e o consequente teto imposto para os gastos, a parcela de aportes correspondente ao setor público vem diminuindo e o indicador está mais dependente do setor privado.
“O Brasil ainda vive uma grande ressaca do momento econômico de muita presença estatal na economia, de alta participação dos bancos públicos no crédito concedido”, diz Campos Neto, da Tendências, em referência não só ao teto de gastos, mas também à mudança na política de concessão de crédito do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que reduziu os subsídios.
Além disso, o agronegócio, que foi um dos motores de crescimento em 2017, vem perdendo força. “O setor não cresce mais como vinha crescendo e aí também temos influência da desaceleração do comércio global”, aponta Ross.
O comércio é outro segmento que anda de lado. No segundo trimestre, o setor encolheu e, nos seis primeiros meses do ano, acumula alta modesta de 0,6% em relação a igual período de 2018, segundo dados do IBGE. “Ainda temos um longo caminho para que essa variável consiga contribuir mais para o crescimento da economia”, diz Campos Neto, da Tendências.
Diante dessa conjuntura, o desemprego vem caindo lentamente desde janeiro e, em junho, atingia 12,7 milhões de trabalhadores. A queda se dá, sobretudo, por meio do trabalho informal, o que acaba limitando o avanço da produtividade, essencial para acelerar o crescimento do país.
Fonte: https://g1.globo.com/economia/