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Veículo individual vem por último, diz secretário municipal de Transportes

No Workshop Soluções para Mobilidade Urbana, promovido pela Fiesp, Jilmar Tatto afirmou que é preciso “democratizar o espaço viário”

Katya Manira, Agência Indusnet Fiesp

“Quando se fala em mobilidade pública é preciso hierarquizar o sistema: primeiro lugar, pedestres; segundo lugar, veículos não motorizados (como as bicicletas); terceiro lugar, transportes de carga e, por último, o veículo individual”, declarou, na tarde desta quinta-feira (17), o secretário municipal de Transportes, Jilmar Tatto, durante o Workshop Logística – Soluções para a Mobilidade Urbana, promovido pelo Departamento de Infraestrutura (Deinfra) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na sede da entidade.

Segundo o secretário, a alta intensidade de trânsito na capital paulista é causada pela falta de “democratização do viário”. Ou seja, a ocupação de muito espaço público por poucos cidadãos. Isso acontece, segundo ele, porque durante o planejamento de desenvolvimento urbano nem sempre se levou em conta que o pedestre deve ser o personagem principal.

“80% do viário é ocupado por carros individuais e continua-se incentivando as pessoas a usarem o carro. Construir pontes, viadutos, não resolve. Não adianta gastar R$ 1,5 bilhão para ampliar as marginais. Três anos depois continuamos com o mesmo problema”, exemplifica. “Mas quando você tenta democratizar, aqueles [que ocupam] 80% reclamam que você está usando o espaço deles. A cidade nem sempre está preparada para aceitar esse debate e essas mudanças.”

Entre as mudanças discutidas durante o workshop estão a criação de ciclofaixas e faixas exclusivas para ônibus, redução de velocidades em vias importantes, com o objetivo de reduzir acidentes, e novas formas de investimentos para o transporte coletivo, como o direcionamento total da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) para o setor.

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Workshop Logística - Soluções para Mobilidade Urbana, na Fiesp. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp


Exemplos da China

Por muitos anos correspondente do jornal Folha de S.Paulo em Pequim, Raul Juste Lores contou sobre os problemas de mobilidade enfrentados pela China na década de 80, quando o êxodo rural levou mais de 550 mil pessoas para os centros urbanos. Ele utilizou os exemplos de duas grandes e ricas cidades – Pequim e Xangai – que tomaram decisões diferentes das brasileiras frente ao aumento exponencial da utilização de carros particulares.

Nas cidades chinesas o uso de veículos individuais foi coibido desde o início. Para circular nas ruas os motoristas precisavam de placas e licenças leiloadas pelo governo, que aumentava os preços cada vez que a demanda subia.  “Porém, todo o dinheiro arrecadado com isso ia para a construção de novas linhas do metrô. Então, de alguma maneira as classes mais altas acabaram financiando o transporte público”, conta Lores.

Pequim e Xangai seguem exemplos de outras cidades ricas, como Nova York e Paris. Todas têm em comum a diminuição do espaço para carros e o incentivo à utilização dos meios de transportes coletivos. Isso cria um lobby para a melhoria dos serviços, e essa melhoria, por sua vez, atrai mais usuários.

“As cidades ricas, ao contrário de São Paulo e outras cidades em desenvolvimento, optaram por uma grande malha de transporte público. Nós optamos por degradar milhões de metros quadrados, para criar espaços para carros, em áreas fabulosas que podiam ter comércios e residências”, lamenta Lores.

Transporte sobre trilhos

Também presente no evento, o coordenador de planejamento e gestão da Secretaria dos Transportes Metropolitanos de São Paulo (STM), Saulo Pereira Vieira, falou sobre os investimentos que o governo tem feito e irá fazer nos próximos 15 anos para melhorar a mobilidade na Grande São Paulo.

Segundo Vieira, até 2030 São Paulo terá 261 km de linhas de metrô, 347 km de linhas da CPTM e 238 km de monotrilhos. Para isso, os investimentos totais na rede sobre trilhos, entre 2010 e 2030, atingirão a marca de R$ 180 bilhões, disse.

Atualmente, circulam pelas 159 estações da rede metroviária da região mais de 7 milhões de passageiro por dia útil. Nos último quatro anos, a companhia registrou um aumento de 449.854.000 passageiros por ano. A quantia equivale a 38 vezes a população total da capital paulista.

Edson Perin, editor do RFID Journal Brasil, falou sobre aplicações da Internet das Coisas (IoT) no transporte. Em sua definição, a IoT é a comunicação de objetos diretamente com os sistemas de informação, pela Internet, sem que haja interação humana. A tecnologia, explicou, permite maior eficiência e redução de custos. Deu como exemplos desse tipo de automação o Bilhete Único paulistano, o pagamento de transporte urbano via smartphone no Rio e os sistemas de cobrança de pedágio e estacionamento, como o Sem Parar. Também falou sobre perspectivas futuras para a tecnologia.

Também participante, o diretor de políticas públicas do aplicativo Uber, Daniel Mangabeira, reafirmou que não vê ilegalidade nos serviços da empresa e lembrou que no dia 4 de setembro o Conselho Administrativo de Direito Econômico (Cade) lançou estudo que conclui que não há motivos econômicos para proibir novos prestadores de serviços individuais de passageiros – caso do Uber. Segundo Mangabeira, em outros países, como o México, por exemplo, o aplicativo foi regulamentado sob a condição de criar com os recursos arrecadados um fundo de desenvolvimento do transporte público. Mangabeira afirmou que o Uber pode gerar nos próximos anos oportunidade de geração de renda para 30 mil pessoas. O diretor também divulgou novo serviço da empresa, o Uber Bike, de carros adequados ao transporte de bicicletas.

O workshop foi moderado por José Ricardo Marar, diretor do Deinfra, que na abertura do evento destacou os impactos da falta de mobilidade e acessibilidade no consumo da e na cidade, afetando todas as pessoas. “Antes do Custo Brasil, há o custo cidade”, lembrou. As soluções, para um problema cada vez mais complexo, precisam ser originais, afirmou, dependendo da articulação entre setor público e privado, sociedade civil organizada e de toda a academia, com articulação de ideias, serviços e negócios.

Clique aqui para assistir na íntegra ao workshop.