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Vantagem do Brasil reside em ter biodiversidade diferente de todo o planeta e agricultura de base ecológica em evolução

Inovações tecnológicas e bioinsumos ganham foco em debate, na Fiesp. Empresas devem entender a importância da conectividade com parceiros e as exigências atuais do consumidor

Alex de Souza, Agência Indusnet Fiesp

O encontro por videoconferência do Conselho Superior do Agronegócio (Cosag) da Fiesp, organizado na segunda-feira (7/6), reuniu especialistas setoriais a fim de avaliar os avanços tecnológicos e o uso de bioinsumos. A reunião foi dirigida pelo presidente do Cosag, Jacyr Costa.

O secretário adjunto de Inovação, Desenvolvimento Rural e Irrigação do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), Cléber Oliveira Soares, apresentou dados sobre o Programa Nacional de Bioinsumos, que completou um ano de lançamento, e reforçou a importância de que a bioeconomia avance com a agricultura.

“Saímos da revolução verde para uma segunda onda, de integração de sistemas, marcada pela eficiência e pesquisa sistêmica, mas agora começamos a terceira onda, que é a da agricultura de base biológica. Os sistemas estão e estarão cada vez mais complexos, com modelos multifuncionais de agricultura e insumos biológicos que envolvem pesquisa avançada”, disse Soares.

A vantagem do Brasil reside no fato de ter biodiversidade diferente de todo o planeta e agricultura de base ecológica em evolução, de acordo com o secretário, que conceituou como bioinsumo todo produto, processo, tecnologia de origem animal ou microbiano destinado ao uso nos diversos sistemas de produção agrícolas, florestais e de outras aplicações. “A proposta do programa é ampliar e fortalecer a utilização de bioinsumos para a produção e promoção do desenvolvimento sustentável da agropecuária brasileira, divididos em três grandes escopos: produção vegetal, produção manual animal e pós-colheita e processamento”, explicou o convidado.

Quando de seu lançamento, o ministério anunciou duas linhas de crédito para fomentar a ciência e tecnologia, além do desenvolvimento de novas tecnologias, produtos e serviços. “Queremos difundir o conhecimento, informações qualificadas, estimular a capacitação e formação de competência técnica, bem como a promoção de construção de políticas, programas e planos nos estados e municípios”, afirmou o secretário.

Em relação ao uso de biofertilizantes na agricultura brasileira, o chefe da Embrapa Meio Ambiente, Marcelo Morandi, ressaltou a dependência da importação de matéria-prima e afirmou que essa tendência deve não apenas prevalecer, mas aumentar em 2021. “Fatores como a baixa disponibilidade de matérias-primas, além de questões logísticas, tributárias e ambientais, constituem importante gargalo para novos investimentos na indústria química de fertilizantes”, pontuou ele.

Morandi explicou que além de trabalhar com organominerais e fertilizantes orgânicos, a empresa pública ligada ao MAPA também vem atuando com o conceito de economia circular para a agricultura, tendo por objetivo reduzir a dependência de importação de produtos químicos. “Esse mercado de biofertilizantes mostra que, na América do Sul, a estimativa de crescimento gira em torno de US$ 240 milhões, e as cadeias emergentes são as que mais necessitam de investimento em pesquisa e desenvolvimento”, avaliou Morandi.

Um dado preocupante é que de 2015 para cá o investimento direto da indústria de biofertilizantes vem diminuindo. E, para reduzir a dependência de produtos com base fóssil para produtos com base biológica, é essencial contar com a indústria.  “A produção de resíduos dos setores sucroalcooleiro, bovino, suíno e de aves poderia suprir aproximadamente metade da demanda de micronutrientes brasileira, em um mercado potencial superior a um bilhão de dólares anuais”, conforme explicou.

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A vantagem do Brasil reside no fato de ter biodiversidade diferente de todo o planeta. Fotos: Karim Kahn/Fiesp

O potencial de crescimento do setor industrial e urbano para produção de produtos de biofertilizantes também foi abordado por Morandi. “Embora a utilização de resíduos na agricultura represente a forma mais adequada de reaproveitamento, é muito grande o número de aterros sanitários que recebem essa demanda, o que está muito relacionado com a política ambiental nacional e com a falta de incentivos fiscais e financeiros. O Plano Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) recomenda, mas não proíbe, que resíduos com potencial de reúso sejam aterrados”, explicou o representante da Embrapa.

Exemplos de bioinsumos apresentados pelo pesquisador incluem um produto originário das raízes do mandacaru, que aumenta a tolerância das plantas à falta d’água. Utilizado na plantação de milho, observou-se aumento do nível de hidratação das espigas. Morandi entende que o estímulo a esse segmento estratégico provocará a diminuição da dependência e trará ganhos não somente comerciais, mas ambientais.

O Brasil tem sido pioneiro em diversas áreas. E para o executivo-chefe da Biotrop, Antonio Carlos Zem, o país pode ser o líder mundial no uso de bioinsumo, com a vantagem de que são produtos não dolarizados, ao contrário dos produtos químicos. Outro fator importante de competitividade é o tempo: “Além da economia, que pode chegar a 10 ou até 20 vezes, é possível desenvolver soluções em tempo muito menor e com resultados mais consistentes”.

A expectativa é de aumento de 33% em 2021, superando R$ 1,7 bilhão de faturamento: foram 433 produtos registrados nos últimos três anos. “O crescimento desse setor se deve também ao desejo do produtor rural em ter mais qualidade e preços competitivos”, afirmou Zem.

O diretor comercial da Koppert do Brasil, Gustavo Herrmann, diz ser fundamental trabalhar a questão de pesquisa e desenvolvimento na indústria. “Inovação é a palavra-chave para um programa eficiente de controle biológico”, lembrou o representante da empresa, que tem um centro tecnológico focado para o controle biológico.

Herrmann propôs a inversão da lógica e atuar na prevenção para depois entrar com o uso químico, assim como na saúde dos humanos. “Deveríamos empregar o biológico para prevenir e, na eventual explosão de pragas, somente depois usar o defensivo químico”, disse o diretor, que elogiou a atitude do governo em criar um programa de bioinsumos, classificando-a como corajosa.

Por fim, o executivo da Nutron Cargill, Celso do Amaral Mello Júnior, lembrou que existe uma forte pressão por margens, nos diversos elos da cadeia do agronegócio, mas que a busca pelo lucro não pode ser desenfreada, que é possível aliar lucratividade com sustentabilidade, mas para isso é preciso inovar. “Os negócios morrem porque eles fazem muito bem a mesma coisa por muito tempo. O que deu certo há cinco anos não serve mais para o dia de hoje. Temos de inovar. Esse é o grande desafio e deve ser o direcionador”, opinou.

Outro aspecto importante é entender que as empresas que não se conectarem aos parceiros perderão sua relevância. “Precisamos buscar aqueles que complementam as nossas competências. E o mercado é soberano. Ele dita as mudanças, que são definidas pelo consumidor, muito mais exigente e preocupado com a sustentabilidade, qualidade, segurança dos alimentos e o bem-estar animal”, concluiu.