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Temos potencial para ser o grande supermercado do mundo, diz presidente da ABIA, na Fiesp, em encontro do Cosag

João Dornellas e consultores adiantaram e debateram as tendências para o setor de alimentos 

Mayara Moraes, Agência Indusnet Fiesp

Nesta segunda-feira (4/10), membros do Conselho do Agronegócio (Cosag) da Fiesp tiveram a oportunidade de participar de reunião virtual com João Dornellas, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (ABIA), e os consultores Felipe Boaretto e Mikael Djanian, da McKinsey & Company, para discutir um tema que vem chamando cada vez mais a atenção da indústria, de especialistas e da própria população: os desafios da indústria de alimentos e as tendências mundiais de alimentação. 

Basta olhar para trás para notar o desenvolvimento extraordinário que a indústria de alimentos sofreu nos últimos cinquenta anos. Graças à tecnologia, à ciência e às necessidades dos consumidores, hoje temos vasta variedade nos supermercados, entre eles, alimentos orgânicos, light, com redução do teor de açúcar e plant based, para citar apenas algumas das novidades mais recentes.  

Os números da indústria de alimentos e bebidas são expressivos: quase 60% de toda a produção agropecuária é processada por ela que também é a maior geradora de empregos no país. No total, existem 37,7 mil empresas do setor, responsáveis por 1,68 milhão de postos de trabalho diretos e formais, isto é, 24,2% dos empregos da indústria de transformação brasileira.  

“Nosso potencial é enorme”, disse João Dornellas. “Acreditamos que além de celeiro do mundo, podemos ser o grande supermercado do mundo, e isso significa fabricar e processar aqui, para gerar renda, emprego e impostos localmente”, acrescentou. 

Atualmente, exportamos para 190 países, com destaque especial para as nações asiáticas, árabes e europeias, responsáveis por 45,7%, 16,2% e 13,8%, respectivamente. O setor é responsável por 18,2% das exportações totais brasileiras e 10,6% do PIB.  

O que querem os consumidores 

Segurança, praticidade e conveniência são alguns dos valores que os brasileiros mais buscam quando a questão é alimentação. O mais relevante deles, transparência, tem pautado indústria e órgãos especializados em todo o mundo. Como diz o próprio João Donellas, “não basta contar, tem que mostrar”. 

Mobilizados por este mote, mais de quarenta países do mundo já usam a rotulagem nutricional frontal em seus alimentos. Mais de 20 associações, que representam mais de 2 mil indústrias, vêm trabalhando para aplicar algo semelhante no Brasil. A expectativa é que a partir de 2022 os consumidores encontrem um novo modelo de rotulagem nutricional de alimentos e bebidas nos produtos vendidos nas gôndolas dos supermercados. Ganharão destaque informações sobre três macronutrientes que precisam ser consumidos com moderação e equilíbrio: sódio, açúcar e gorduras saturadas. 

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Fotos: Everton Amaro/Fiesp

Para Dornellas, tão importante quanto esclarecer as informações nutricionais dos alimentos é desmistificar os supostos danos provocados pelo consumo dos alimentados processados. A indústria costuma ser vilanizada pelo processamento dos alimentos, mas poucos sabem que o grau de processamento dos alimentos não define qualidade nutricional, conforme explicou.  

“O Comitê Científico da Agência Española de Seguridad Alimentaria e Nutricion (AESAN) também já comprovou que o grau e o tipo de processamento e o número de ingredientes presentes em alimentos definidos como ‘ultraprocessados’ não estão relacionados com sua qualidade nutricional”, alertou Dornellas.  

Algo semelhante ocorre com os aditivos usados na indústria, segundo o expositor, ao informar que os aditivos alimentares passam por análise minuciosa do Joint FAO/WHO Expert Committee on Food Additives (JECFA), comitê científico internacional de especialistas administrado conjuntamente pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e a Organização Mundial da Saúde (OMS).  

“É o JECFA que estabelece os limites de ingestão diária para cada aditivo em cada alimento processado”, disse Dornellas. “A Agência Nacional de Vigilância Sanitária segue as recomendações do JECFA e possui critérios ainda mais rigorosos, assegurando que a utilização dos aditivos alimentares está dentro de condições e limites estritos considerados seguros”, sublinhou. 

O futuro já chegou: cinco tendências no setor de alimentos 

Algumas tendências mundiais vêm sendo observadas pelos consultores Felipe Boaretto e Mikael Djanian, da McKinsey & Company. O ciclo da proteína e o consumo de proteínas alternativas, por exemplo, são a nova onda. “Observamos que a renda tem influência sobre o consumo per capita de proteína, assim como o crescimento da população está relacionado ao consumo de açúcar”, disse Boaretto. 

Nos últimos anos, observamos também aumento da variedade de alimentos ricos em proteína. Desde 2018, houve crescimento de 76% no volume de iogurtes ricos em proteínas disponíveis nas prateleiras e de 88% nos valores arrecadados. Com a evolução no número de flexiterianos [semivegetarianos] e vegetarianos e o desenvolvimento de novas tecnologias, proteínas alternativas, com sabor e textura mais sofisticados, se difundiram largamente e podem levar a uma disrupção no mercado. 

Além de práticas ambientais, sociais e de governança (ESG), a preocupação com a rastreabilidade dos alimentos também tem estado em voga. Com consumidores cada vez mais exigentes e engajados, diferentes canais de varejo estão se estruturando para exigir a rastreabilidade dos produtos desenvolvidos por seus fornecedores.  

“Os clientes de hoje querem saber a origem dos produtos que estão consumindo, conhecer as condições de trabalho da mão de obra por trás daquela mercadoria e se assegurar de que ela não foi testada em animais”, explicou Boaretto. Além de empresas inovadoras em rastreabilidade, qualidade e certificação, grandes cadeias como IBM Food Trust, Walmart, Starbucks e Alibab já adotaram essa conduta. 

Nesse meio tempo, novos produtos e serviços alinhados a diferentes segmentos da indústria vêm se destacando. O mercado de biológicos e a evolução das chamadas AgTechs, empresas que promovem inovações no setor do agronegócio, por meio de novas tecnologias aplicadas ao campo, merecem especial atenção. O mercado de biológicos ainda é pequeno no Brasil, mas está em forte expansão. A expectativa é que ele atinja entre US$ 1,3 e US$ 2,1 bilhões até 2025. Já as AgTechs brasileiras cresceram 7 vezes nos últimos cinco anos e estão ajudando o agronegócio a resolver problemas importantes referentes à fertilização, agricultura de precisão, crédito e produção de alimentos. 

“Por último, destacamos o ciclo das commodities e a alta dos processos e a explosão digital”, disse Mikael Djanian“Vários choques podem suportar o boom de preços de hoje, mas um choque de curto prazo pode se tornar um choque de longo prazo se a demanda for significativa, e um cenário como este vai demandar um preparo das empresas”, advertiu Djanian. 

No campo digital, os brasileiros estão à frente de seus pares americanos e europeus, sobretudo na preferência por canais on-line para compras agrícolas. Nossos agricultores aumentaram a participação dos gastos com compras on-line em 8 pontos percentuais desde o início da pandemia, passando de 21% para 29%. O número de empresas que possuem preferência pela comercialização on-line da produção teve um aumento de 50%.