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Solidariedade: chave para crescimento de doação de órgãos no País

São Paulo realiza metade dos transplantes, mas em 16 estados não há doação de órgãos

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Mapa apresentado durante simpósio mostra que em 16 estados brasileiros não há doação de órgãos por falta de capacitação

Desde o dia 1º de maio, os principais hospitais do estado de São Paulo contam com médicos capacitados para a doação de órgãos, informou o doutor Reginaldo Boni, médico da Central de Transplantes do Estado de São Paulo.

“A Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo investirá um milhão de reais anuais neste projeto”, afirmou Boni durante o Simpósio Doação de órgãos de transplante no Brasil: situação atual e propostas de aprimoramento, realizado na sede da Fiesp, nesta terça-feira (12).

Também coordenador da Organização de Procura de Órgãos (OPO) da Santa Casa de São Paulo, Boni lembrou que o Estado tem 50% dos transplantes do país. Há dois aspectos fundamentais neste processo: a notificação e o suporte devido a quem teve constatada a morte enfecálica para efetivar a doação.

“O maior problema é que não acontece a notificação. A Espanha tem 35 doadores por milhão de habitantes, mas tem projeto para chegar a 50; nos Estados Unidos, são 25 por milhão; no Brasil, a média é de 7, mas no Estado de São Paulo chega a 15 por milhão de habitantes”, questionou o especialista.

O Brasil só perde em número de transplantes para os Estados Unidos, mas precisa aprimorar seus programas a fim de obter maior eficiência na conversão de doadores possíveis em efetivos, hoje na casa dos 50%.

A diferença desta complexa equação representa a esperança de viver para quem está na fila, atualmente priorizada pela emergência do caso e não mais pela ordem de inscrição, pois a mortalidade durante a espera é alta.

O gargalo não está nem em empecilhos familiares e nem em contra-indicações para doação dos órgãos (como tumores, neoplasias, positivações e infecções), mas sim na falta de notificação, capacitação e logística.

É preciso realizar os exames necessários e documentar a morte encefálica para conversar com familiares para a doação e muitas cidades não contam sequer com um neurologista para atestar a morte. O nó da questão está exatamente aí.

“O transplante é o único tratamento médico que depende do envolvimento da sociedade”, disse Valter Duro Garcia, presidente da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO).


Desequilíbrio

Em 16 estados não há doação de órgãos: quadro começa a mudar com projeto do professor Silvano Raia e do Hospital Sírio-Libanês. Pioneiro em transplante de fígado no país, ele prestigiou o evento e lembrou que há a concentração dos centros de transplantes em apenas 9 estados brasileiros. Os 16 que ficam de fora – não realizando nenhum tipo de transplante – concentram 145 milhões de habitantes, praticamente a população da Espanha.

“Essa é uma realidade pública, a maior do mundo, se igualando aos demais órgãos de excelência internacionais”, comparou Raia, ao se referir ao sistema público de saúde do Brasil. Se perdemos apenas para os Estados Unidos em número de transplantes, há grave disparidade de números dentro do nosso território.

Para equilibrar a balança, o projeto “Desenvolvimento de Centros de Captação e Transplante de Órgãos” conta com polo central no Hospital Sírio-Libanês. O primeiro passo é a visita do Dr. Raia aos hospitais, avaliando infraestrutura e entrevistando médicos para encaminhamento de estágio remunerado nos centros de São Paulo. Outra etapa é a realização de teleconferências em todos os polos nas salas de discussão de casos semanais.


Ajustes

O País está preparado, mas faltam ajustes: “o Brasil tem o maior sistema de transplante do mundo”, fez coro o dr. José Medina, da Unifesp e diretor do Hospital do Rim. Hoje 75 mil pessoas dependem de diálise e 9.907 estão na lista de transplante de rim, em São Paulo.

Alguns eventos pontuais trágicos acabam promovendo o crescimento do número de doadores, frisou dr. Jorge Carlos Machado Cury, presidente da Associação Paulista de Medicina (APM), citando o caso da jovem Eloá Cristina Pimentel. A doação de órgãos aumentou 50% no país e 100% em São Paulo, no mês seguinte à tragédia ocorrida em Santo André, em 2008.

“Há a preocupação de diminuir a tensão de quem está na fila do transplante e levar esperança, prolongando a vida de pessoas”, disse Yvonne Capuano, presidente da Academia de Medicina de São Paulo e integrante do Comsaude da Fiesp.