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Sistema de gestão de resíduos precisa de transformações na coleta e destinação, afirmam representantes do setor

Realização de parcerias, cobrança de coleta e destinação, criação de órgão regulador, economia circular e logística reversa foram apontadas como ações necessárias para a otimização do setor

Juliana Bannach, Agência Indusnet Fiesp

Sete milhões de toneladas de resíduos sólidos não são coletadas por ano no Brasil, isso equivale a 6.100 piscinas olímpicas de resíduos espalhados em lugares inapropriados. Buscando mudar essa realidade, que prejudica e impacta toda a sociedade, especialistas e representantes do setor de resíduos sólidos debateram a atual situação da produção, consumo e descarte de resíduos sólidos e esse cenário no futuro, durante a 21ª edição da Semana do Meio Ambiente, realizada pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), no dia 4 de junho.

No país, o crescimento de resíduos sólidos é três vezes maior que o número de habitantes. “Em 2016 a população brasileira era de 7,6 bilhões de habitantes que geravam 2 bilhões de toneladas de resíduos sólidos. A previsão para 2050 é que a população seja de 9,5 bilhões de habitantes para 3,4 bilhões de toneladas de resíduos sólidos”, revelou Carlos Roberto Silva Filho, diretor presidente da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). De acordo com ele, 40% desse crescimento de resíduos vai se dar em países em desenvolvimento, com população em crescimento e cidades maiores.

“Os índices de reciclagem estão estagnados há mais de uma década e o grande gargalo é na destinação final”, afirmou Silva. Segundo ele, 30% das cidades não têm iniciativa de coleta seletiva, 42% dos materiais coletados têm destinação inadequada e um em cada onze brasileiros não têm coleta de lixo. “A sensação é de colapso total, não temos como sustentar um modelo desse, é preciso mudar”, ressaltou.

Silva apontou que um dos caminhos para mudar essa realidade é promover ações para alcançar os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) aprovados pelas Nações Unidas, que devem ser implementados por todos os países até 2030. “O setor de resíduos sólidos é o único que pode contribuir com todos os objetivos e o principal deles é o 17, que tem como meta fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável, através de parcerias de cooperação e meios de implantação”, disse. “A Fiesp já pode ser uma parceira, pois tem um Sistema de Logística Reversa de Embalagens”, destacou.

Entre outras soluções propostas por Silva para sanar os problemas de coleta e destinação de resíduos sólidos, estão a universalização da coleta; garantias de destinação adequada com recuperação e reciclagem; proporcionar governança para o setor; garantir a proteção do meio ambiente e dos recursos naturais; implantar padrões de produção e consumo direcionados à economia circular; aumentar os investimentos no setor; fomentar o desenvolvimento tecnológico e promover o uso de energias limpas e renováveis. “Precisamos mudar paradigmas em todos os fluxos da gestão de resíduos sólidos. O objetivo não é salvar o planeta, é construir cidades inteligentes”, concluiu.

Para Márcio Matheus, presidente do Sindicato das Empresas de Limpeza Urbana no Estado de São Paulo (Selur), a solução é cobrar taxa de serviço de coleta e destinação dos resíduos sólidos. “O sistema de gestão de resíduos sólidos precisa ser sustentável. O ideal seria cobrar com o serviço de utility, como é feito com a água, o esgoto e a internet, para viabilizar e dar escala para esse serviço e evoluir no tratamento de resíduo. Enquanto o município tiver dificuldades orçamentárias para a gestão de resíduos, ela não será eficaz e continuaremos com 3352 mil lixões e apenas 600 aterros sanitários, sem evoluir para o uso de tecnologias de aproveitamento de resíduos”, informou.

A criação de uma Agência Reguladora Federal também proporcionaria benefícios para a gestão de resíduos sólidos, segundo Matheus. “Precisamos de um órgão, independente, que entenda nossas necessidades e garanta uma estrutura básica de regulação para os pequenos municípios, promova estudos e orientações técnicas para os municípios e operadores e faça a intermediação de questões entre municípios e estados”, ressaltou. De acordo com Matheus, no Estado de São Paulo, a maioria dos municípios possui condição adequada de coleta, mas com despejo de resíduos nele próprio, em aterros privados ou em outros municípios.

“A economia circular tem sido uma tendência global e uma solução eficaz na destinação de resíduos, além de eliminar o desperdício gera impactos positivos na economia, no meio ambiente e na sociedade”, afirmou Carlos Ohde, diretor da Flex – Ecossistemas de economia circular.

Segundo Ohde, com o uso da tecnologia é possível usar matéria reciclada, que tem qualidade e estética idêntica ao material virgem, como uma impressora por exemplo, e fabricar novas peças para produtos eletrônicos. “Atualmente, extraímos matéria prima do meio ambiente, produzimos a peça, que passa pela manufatura, o consumidor utiliza e posteriormente faz o descarte.   Queremos que no futuro a matéria prima venha do lixo, não do meio ambiente, passe pela produção ou reuso de peças, pela manufatura, pela utilização e volte para a reciclagem, não para o lixo, assim gerando mais empregos e negócios, além de diminuir a quantidade de recursos”, explicou.

Em 2018, a Flex tornou possível que mais de 840 de toneladas de plástico reciclado retornassem para a indústria na forma de peças ou produtos, 4.655 toneladas de resíduos industriais fossem transformadas em matéria prima e 33 mil coletas fossem realizadas com o sistema de logística reversa. “Não existe lixo, o que existe é matéria prima que precisa ser reparada e organizada adequadamente. Os resíduos sólidos fazem parte da vida de todos e todos devem participar da economia circular”, enfatizou.

O debate sobre o descarte de resíduos sólidos foi conduzido pelo presidente do Conselho Superior de Meio Ambiente da Fiesp, Eduardo San Martin e também contou com a participação de Luis Fernando Cabral Barreto, presidente da Associação Brasileira dos Membros do Ministério Público de Meio Ambiente (Abrampa), e do cientista da Computação, Fábio Gandour.

A 21ª edição da Semana do Meio Ambiente é realizada na sede da Fiesp e segue até dia 6 de junho, com programação gratuita.

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Em um dos painéis da Semana de Meio Ambiente, ocorreu debate sobre o sistema de gestão de resíduos sólidos. Foto: Karim Kahn/Fiesp