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“Economia verde é um rumo para aumentar o bem-estar e combater a desigualdade”, diz Pavan Sukhdev na Fiesp

Isabela Barros e Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

Uma economia marrom, não verde. Uma prova de que há muito a ser feito em termos de sustentabilidade e visão de futuro. Um debate desenvolvido no seminário Economia Verde – Uma Visão do Brasil 2030, realizado na sede da Fiesp, em São Paulo, nesta sexta-feira (23 de novembro). E que teve como convidado, entre outras autoridades, Pavan Sukhdev, líder da Iniciativa de Economia Verde do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e presidente do Conselho da WWF – Fundo Mundial para a Natureza.

“Vivemos numa economia marrom, não verde”, disse Sukhdev. “Precisamos mudar isso agora: a economia verde é um rumo para aumentar o bem-estar dos homens e combater a desigualdade.”

Sukhdev é um defensor do conceito de economia circular, “com qualidade de vida, de forma regenerativa para evitar o desperdício”. “Temos que investir, colaborar com os processos de mudança.”

Para ele, “sem objetivos sociais, não conseguimos atingir os objetivos econômicos”. “Hoje, 40% do espaço da Terra é dedicado a plantações”, afirmou. “Mas essas áreas estão sendo danificadas: temos que aumentar a produtividade, garantir alimento para a população”, disse. “A forma como produziremos alimentos no futuro tem que ser diferente.”

Entre os problemas nesse ponto, o presidente do Conselho da WWF citou a “crise das pequenas fazendas brasileiras, que estão sendo engolidas pelas maiores”.

Outro item destacado com o objetivo de construir um mundo mais sustentável é o desenvolvimento do chamado capital humano. “Precisamos focar nas cidades, no capital humano, nas competências das pessoas.”

Sukhdev lembrou ainda que os novos consumidores, os mais jovens, estão promovendo uma mudança na indústria. “Os hábitos alimentares estão mudando graças ao comportamento dos millennials, que querem conhecer a origem daquilo que compram”, explicou.

Um processo que já está fazendo a “agricultura deixar de ser química e voltar a ser natural”.


Futuro dos negócios

Também convidada do debate, a presidente da Rede Brasil do Pacto Global, Denise Hills, destacou que “negócio que não é sustentável não é um negócio”. “Mesmo que ainda seja rentável hoje”.

Ao defender a sustentabilidade e o equilíbrio ambiental, ela contou que pegou bronquiolite ao visitar a China, país onde, em algumas cidades, a poluição está 45 vezes acima do máximo recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). “Não podemos mais viver como vivemos”, disse. “Quem for mais corajoso que vire o escapamento do carro para dentro e faça essa reflexão.”

Denise lembrou que o Pacto Global é uma das maiores iniciativas em nome da sustentabilidade do mundo. “Temos mais de 800 empresas associadas no Brasil, país que tem a terceira maior participação na iniciativa no mundo”, disse. “É o capital humano que vai nos permitir existir como empresa, o nosso papel é mudar coletivamente.”

Para o presidente da Fibria, de produção de celulose branqueada, Marcelo Castelli, “a sociedade evolui com a união entre governo e sociedade privada”. “Precisamos ter equilíbrio no manejo florestal.”

Presidente da energética EDP no Brasil, Miguel Setas lembrou que a empresa está entre as quatro maiores em energia eólica no mundo.

“É preciso haver senso de urgência”, disse. “Para que não haja aumento na temperatura do planeta, precisaríamos de mais geração com fonte limpa.”

Ele apontou ainda três tendências para o futuro: “descarbonização, descentralização e digitalização, com o advento da indústria 4.0”.

Roberto Waack, da Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura, foi outro participante do evento. “Vemos a migração de um sentimento de não externalidade para um mundo em que as externalidades positivas serão mais reconhecidas”, disse. “O Brasil é um país onde uso do solo pode trazer mais retorno para o impacto na sustentabilidade global”, afirmou. “Precisamos lutar pelo uso mais esponsável da tecnologia no campo.”.

Médico e pesquisador, Fabio Gandour disse levantar “a bandeira da ciência como negócio”. “A tecnologia tem que substituir átomos por bits”, disse. “Precisamos preservar os átomos.”

Ouça o boletim de áudio dessa notícia:

Na Alemanha

Chefe de Inovação e Novos Negócios da TOTVS, Juliano Seabra reforçou o papel da inovação para a economia verde. “Na Alemanha, entre 15 e 20% das novas empresas têm impacto positivo na economia e no clima.”

Para ele, é preciso unir “empresas, academia, governo e empreendedores” em prol da causa. “O Brasil pode ser uma potência nesse debate, precisamos conduzir essa discussão.”

Sustentabilidade na agenda

Na abertura do seminário Economia Verde – Uma Visão do Brasil 2030, Nelson Pereira dos Reis, diretor titular do Departamento de Desenvolvimento Sustentável da Fiesp e do Ciesp, destacou que “hoje as pessoas e as corporações incluem em suas agendas a sustentabilidade”.

A valoração ecológica, explicou, incluindo a produção de conhecimento sobre temas como produção de energia e resíduos se torna fator de competitividade, não apenas uma questão de obediência a regulações. A indústria brasileira, especialmente a paulista, hoje tem em sua agenda a questão da sustentabilidade ambiental e econômica, disse Reis, lembrando que há anos isso faz parte das discussões da Fiesp.

Reis fez agradecimento especial a Sukhdev por sua participação como coordenador das discussões.

O evento foi organizado para promover debates sobre uma nova economia, verde, inclusiva e produtiva, que representa oportunidade de negócios e crescimento do Brasil de forma sustentável e arrojada, mediante a força dos recursos naturais do país, da indústria e do setor empresarial como um todo.

Também durante a abertura, Walter Lazzarini, presidente do Conselho Superior de Meio Ambiente da Fiesp (Cosema), chamou de absolutamente oportuno o conceito de economia verde, com baixa geração de carbono, com uso adequado e eficiente de recursos naturais e, muito importante, responsabilidade social. Economia verde, afirmou, “é o passaporte para alcançar os exigentes mercados mundiais”.

Igor Calve, secretário do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, afirmou que ainda há longo caminho a seguir em relação à economia verde, tema frequente nas discussões sobre competitividade – e essencial para o Brasil.

Arnaldo Jardim, deputado federal, destacou o papel de vanguarda da Fiesp na discussão do tema. Há uma rediscussão do papel do Estado brasileiro, lembrou, o que afetará políticas públicas e de desenvolvimento. A legislação ambiental está entre as mais completas e detalhadas do mundo. “Uma boa legislação”, disse, que terá pressão contrária, sobre a qual haverá rediscussão. O seminário, em sua opinião, é oportuno para enriquecer o debate. “Enquanto cuidamos da legislação vigente precisamos mostrar que a conta fecha, que ela não é um peso. É preciso conceituar ativos ambientais.”

Luís Fernando Barreto Junior, presidente da Associação Brasileira dos Membros do Ministério Público de Meio Ambiente (Abrampa), disse na abertura do evento que há mais de duas décadas a sociedade brasileira exige a atuação na defesa do meio ambiente. Hoje, afirmou, o Ministério Público caminha na perspectiva da resolução consensual dos conflitos. “O tempo não é aliado na proteção do meio ambiente.” Quanto maior a demora mais os recursos naturais são perdidos, disse. O crescimento sustentável se chama desenvolvimento. “Vemos com muita satisfação a Fiesp fazer o debate da economia verde, da economia circular.” Leva tempo para fazer a implantação, destacou, mas quando estiver completa haverá o suprimento das necessidades da geração presente sem afetar as das gerações futuras.