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Rede nacional de gerenciamento de órgãos torna Espanha lider mundial de transplantes

País atingiu maior número de doadores por habitantes com criação da ONT, presença de coordenadores nos hospitais e postura ativa do governo

Agência Indusnet Fiesp

A implantação de uma rede de profissionais treinados para identificar a morte encefálica e realizar a captação adequada de órgãos, dentro de todos os hospitais públicos, e nas principais instituições médicas privadas, foi a grande iniciativa tomada pela Espanha para se firmar entre os países que mais realizam transplantes no mundo. Para que a isso fosse possível, foi criada a Organização Nacional de Transplante (ONT), responsável por organizar essa nova estrutura em toda a Espanha.

A constatação é do coordenador de transplantes do Hospital Universitário da La Coruña, Anton Fernandes, que ministrou a palestra “Modelo Espanhol de doação de órgãos e tecidos”, durante o III Simpósio Internacional de doação de órgãos e tecidos, realizado nesta terça-feira (1º) na sede da Fiesp.

De acordo com o médico, a presença constante e ativa dos coordenadores de transplante dentro dos hospitais foi imprescindível para que o projeto desse certo. “Ao participarmos do cotidiano hospitalar, passamos a ser referências na identificação e captação dos órgãos. Portanto, sempre que há um caso de morte encefálica, nossos profissionais são imediatamente acionados para fazer os exames necessários”, explicou.


Reembolso aos hospitais

Uma das políticas públicas fundamentais conquistadas por meio da ONT foi o reembolso aos hospitais do custo de todo o processo donativo, por parte do Estado, informou o especialista. “A presença do governo neste processo foi um importante incentivo à doação”, acrescentou.

Fernandes revelou que em Madri foi fundado, logo no início da Organização em 1989, um braço da ONT, incumbido de regulamentar a distribuição de órgãos por áreas e regiões do país, de acordo com suas defasagens e necessidades estruturais. “Quando demos a dimensão nacional ao projeto, percebemos todos os pontos fracos que precisavam ser melhorados.”

Segundo dados apresentados por ele, nos últimos 20 anos a taxa de doação caiu consideravelmente dentre os países da União Europeia. A Espanha, por sua vez, percorreu o caminho inverso e otimizou as doações.

Logística

“O principal motivo de nos tornamos referência mundial em transplantes foi a estrutura logística tomada em âmbito federal, que possibilitou a organização para colhermos tecidos e órgãos”, revelou.

Dessa forma, o país alcançou, em média, a taxa de 35 doadores por milhão de habitantes, número muito próximo da “cifra mágica” – 40 pontos na mesma escala –, apontou o especialista. Nas regiões mais ricas, como no norte espanhol, tal referência foi até ultrapassada, com 45 por pessoa.

Na União Europeia o número relativo de doadores ainda é pequeno, 17 para cada milhão de habitantes.Nos Estados Unidos a cifra eleva-se para 25 doadores por milhão de pessoas, que, embora mais consistente, ainda está abaixo do ponto ideal. Na Austrália, esta estimativa não supera os dez pontos.

Além da criação da ONT, as melhorias na rede de organização espanhola passaram por inúmeras mudanças, em diversas frentes. Entre elas, Fernandes destaca:

  • Ampla campanha publicitária, que permitiu à população se habituar à prática da doação;
  • Cadastro dos doadores atrelado aos principais documentos legais, como os correspondentes aos nossos RG, Carteira de Habilitação e CPF;
  • Sistematização de uma lei nacional que permitiu desburocratização e agilidade nos processos de captação e transplante dos órgãos;
  • Trabalho junto aos veículos de comunicação, sempre passando com transparência todas as informações levantadas, pois é um meio eficiente de esclarecer a sociedade.