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Profissionais negras debatem inclusão nas corporações

Para comemorar Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, debate indica necessidade de incremento da inclusão, ênfase na educação e necessidade de referências

Isabel Cleary, Agência Indusnet Fiesp

Para comemorar o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, em 25/7, o 1º encontro da série Diálogos Conselho Superior Feminino (Confem) da Fiesp, convidou mulheres protagonistas em suas áreas para debater a atual desigualdade racial no Brasil e compartilhar relatos sobre suas trajetórias, desafios na carreira, além de oportunidades que podem ser proporcionadas às mulheres negras no mercado de trabalho. O encontro ocorreu na sede da Fiesp e foi transmitido pelo Youtube da entidade.  

Para Marta Lívia Suplicy, presidente do Confem, a data dedicada às mulheres negras latino-americanas e caribenhas é primordial para incentivar a reflexão sobre a situação delas no país. “Hoje, muito mais do que estarmos comemorando e debatendo, é um dia para refletirmos sobre os índices sociais, políticos e econômicos que estão negativos dentro de cada âmbito da sociedade. Não podemos apenas nos assustar com os números, temos de buscar ferramentas para minimizar e coibir essa lacuna”, disse Marta, na abertura do evento.  

O objetivo do encontro, além de dar voz às mulheres negras presentes, foi também pensar em ações práticas para promover maior inclusão nas corporações e buscar o debate da desigualdade racial entre as pessoas brancas, como afirmou Grácia Fragalá, vice-presidente do Confem e do Conselho Superior de Responsabilidade Social (Consocial) da Fiesp 

“Que a gente aproveite este encontro para sair com uma agenda propositiva. Gostaria de fazer um convite aos homens brancos para que não se conformem com as desigualdades sociais e que se inquietem, pois é importante refletir sobre seu lugar de privilégio. Nós, como mulheres brancas, também temos um lugar de privilégio, e podemos usar este lugar para somarmos a essa luta e sairmos desse lugar de inanição”, completou Fragalá.  

Desafios e oportunidades nas corporações 

Para Aline Silva, mediadora cultural do Sesi-SP, não é possível iniciar um debate sobre desigualdade racial sem colocar contexto histórico. Isso porque, para entender a sociedade atual e suas estruturas, é preciso analisar como elas se desenvolveram ao longo dos anos. “Não podemos deixar de falar sobre herança. Foram 400 anos de escravidão, e a violência e a desigualdade é o que nós herdamos. Hoje estamos aqui não para ensinar, mas para falar sobre estes cenários”, ressaltou Silva.  

Aline Silva compartilhou sua jornada profissional com o grupo. Fotos: Karim Kahn/Fiesp

Aline Silva compartilhou sua jornada profissional com o grupo. Fotos: Karim Kahn/Fiesp


Andrea Cruz, CEO da Serh1 Consultoria, apresentou dados de pesquisa realizada pela consultoria liderada por ela, que levantou hipóteses do porquê da não aceleração [da carreira] de pessoas negras no mercado de trabalho. A primeira é a baixa autoestima: “As pessoas negras vêm de todo um sistema opressor que insiste em ver os negros em posições de não liderança”. O segundo ponto é a falta de networking. “Quando as pessoas negras entram no mercado de trabalho, não têm tempo de criar relações. Estão preocupadas com a sobrevivência, porque em muitos casos têm mais de um emprego”, disse, e, em terceiro lugar, a ausência de referência corporativa. “A curva normal da população negra é que essa pessoa que está entrando no mercado de trabalho é a primeira pessoa da família a entrar em uma grande corporação”, explicou Cruz 

Ainda de acordo com a profissional, o que as pessoas negras precisam é oportunidade. “A gente consegue fazer a diferença, desde que a gente saiba o nosso papel. Quanto maior o nosso privilégio, maior é a nossa responsabilidade. E pequenas atitudes, como uma indicação ou uma revisão de currículo, fazem a diferença”, afirmou Cruz.

Com um exemplo real da baixa autoestima entre as pessoas negras, Lúcia Helena Domingos, diretora jurídica e de propriedade intelectual no Centro de Tecnologia Canavieira, compartilhou que em suas experiências profissionais conheceu pessoas que achavam que não estavam à altura de frequentar um espaço corporativo.  

“A partir disso caiu a minha ficha como profissional negra e a minha responsabilidade como uma representação para essas pessoas. Desde então eu me engajo em programas de representatividade, e hoje, trabalhando como uma mulher negra no agronegócio, eu busco trazer a inclusão para o ambiente que frequento. Óbvio que sozinha eu não vou conseguir, mas eu faço a minha parte. Eu não tive uma representatividade, mas eu quero ser referência para que outras pessoas alcancem postos muitos maiores dos que eu alcancei até hoje. É muito solitário quando você é única, e por isso é muito importante olhar para o lado e ter alguém parecido com você; cria-se uma rede de apoio”, afirmou Domingos.  


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“Eu não tive uma representatividade, mas eu quero ser referência”, disse Lúcia Domingos, e Maria Madalena enfatizou que “Sem educação você não tem fala, você fica invisível”, enquanto Michel Barron afirmou que caminham juntos os temas imigração e racismo 


Para Luciana Gonçalves de Aguiar, gerente de gente & performance da AMBEV, um dos desafios na sua carreira foi não ter referências corporativas; outro foi sempre ter cuidado para não se limitar e não deixar que as pessoas a limitassem nos seus sonhos. “Por isso é muito importante termos um planejamento bem claro da nossa carreira, ou seja, aonde queremos chegar e o que vamos fazer para alcançar este lugar”, recomendou Luciana. Um outro desafio apontado foi a escolha de um mentor que, para ela, faz toda a diferença na carreira.  

Ao final do primeiro painel, a gerente sênior de direitos humanos e gênero da Rede Brasil do Pacto Global das Nações Unidas (ONU), Tayna Leite, trouxe sua visão como mulher branca e aliada do movimento negro e da luta antirracista. “A gente precisa reconhecer os problemas e o quanto o racismo estrutural funda a nossa sociedade de fato, e o quanto as exclusões vêm sendo feitas historicamente nessa abolição inacabada. Este é o passo essencial para de fato repactuarmos uma nova sociedade, em que a gente possa realmente ter igualdade, inclusão, acolhimento e os direitos humanos sendo respeitados”, alertou.   

Desafios e Oportunidades no Empreendedorismo 

De acordo com Bruna Helena Barros, subsecretaria de empreendedorismo e da Micro e Pequena Empresa do governo do Estado de São Paulo, existem muitos desafios dentro do empreendedorismo, em particular para as mulheres negras. E, para ter um círculo virtuoso, é preciso lidar com estes desafios.  

“Quase 60% das mulheres ganham menos do que homens no trabalho. O crescimento passa por fortalecer a educação financeira e empreendedora dessas mulheres, colocá-las nesse lugar de protagonismo, fortalecendo sua renda e espaço, além do dinamismo em que elas, gerando trabalho e sendo líderes das suas empresas, também ganhem e consigam alcançar esse crescimento econômico que é necessário para o Brasil crescer. Outro desafio está no lidar com a digitalização que para as mulheres, principalmente as mães, ter de lidar com tripla jornada”, acrescentou.  

Para Maria Madalena Felipe, empresária e proprietária da Nha Alice Alimentos Saudáveis, a educação abre portas. “Se não fosse a educação, mulheres como nós [negras] não estaríamos aqui. Sem educação você não tem fala, você fica invisível. E muitas vezes é difícil ter educação, quando tem gratuito é ótimo, mas quando não tem, é complicado financeiramente para muitas pessoas”, disse Felipe.  

Eliane Cavalcante Silva, analista de negócios e gestora do Sebrae Delas e Sebrae Aqui Mulher de Barueri e Santana de Parnaíba (SP) contou que o Sebrae trabalha com o acolhimento: “Quando atendemos uma mulher, precisamos que rapidamente ela tome posse de si e que se empodere, seja pelo mercado de trabalho ou pelo empreendedorismo”.

Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha 

No terceiro painel, dedicado à data comemorativa, Michele Barron, responsável sênior do Programa de Integração Social e Económica da OIM (Organização Internacional para as Migrações), afirmou que os temas da imigração e do racismo caminham juntos. “As questões como raça, classe, gênero e outros marcadores da diferença vêm moldar a experiência de vida de cada pessoa de maneira diferente. Desta forma, uma mulher negra migrante em situação de vulnerabilidade social está em cruzamento em diversos desses marcadores”, pontuou Barron.  

Além disso, a especialista explicou que, quando uma migração é realizada de maneira humana, ordenada e digna, ela beneficia não só as migrantes, mas também as sociedades que as acolhem. Yssyssay Rodrigues, coordenadora de gestão de projetos da OIM finalizou o painel destacando que o Brasil é um exemplo mundial de país que acolhe mulheres migrantes da América Latina e da África.  

Assista ao evento completo aqui