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‘Precisaria mais 100 anos para mergulhar em toda a obra de Nelson Rodrigues’, diz Ruy Castro

Mesa redonda promovida pelo Sesi-SP durante a Bienal do Livro aborda a vida e a obra do grande dramaturgo

Dulce Moraes, Agência Indusnet Fiesp

As comemorações aos 100 anos de Nelson Rodrigues — promovidas pelo Sesi-SP, por meio de montagens teatrais, debates e leituras dramáticas de obras do dramaturgo — também tiveram lugar na 22ª Bienal Internacional do Livro, no estande das editoras do Sesi-SP e Senai-SP.

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Marco Antonio Braz, Ruy Castro e Nelson Rodrigues Filho durante mesa redonda promovida no estande das editoras do Sesi-SP e do Senai-SP, na 22ª Bienal Internacional do Livro


Na noite desta terça-feira (14/08), três especialistas no tema — o biógrafo Ruy Castro e os diretores teatrais Marco Antônio Braz e Nelson Rodrigues Filho – propiciaram ao público  um breve mergulho na vida e obra do mais polêmico e respeitado dramaturgo brasileiro.

No próximo dia 23, Nelson completaria 100 anos de vida. Ruy Castro, autor da biografia Anjo Pornográfico,  elogiou as homenagens que estão sendo realizadas pelo centenário de escritores como Nelson Rodrigues e Jorge Amado. “Isso é de grande importância para que as pessoas tenham acesso às obras desses autores”, diz. Para o jornalista e escritor, os brasileiros têm o privilégio de serem os “detentores exclusivos” da obra rodriguiana,  mas acha que “o mundo inteiro teria o direito de conhecer Nelson Rodrigues.”

Segundo o biógrafo, Nelson era um figura popular que, carinhosamente, era abordado pelos “desconhecidos íntimos” nas ruas, os representantes do povo brasileiro, da qual ele era o grande cronista. Polêmico para os padrões sociais das décadas de 1940 a 1960, o dramaturgo, que foi o primeiro autor de telenovela no Brasil, foi o mais perseguido pela censura. Um fato curioso é que suas novelas,  rigidamente acompanhadas pela censura eram aprovadas com a condição de serem exibidas no último horário da programação. “Se houve um escritor maldito em horário nobre esse era o Nelson Rodrigues”, ironizou Castro.

O diretor teatral Nelsinho, filho de Nelson Rodrigues, agradeceu as homenagens aos seu pai, com as montagens Boca de Ouro e A Falecida que estão em cartaz no Teatro do Sesi-SP. Ele enfatizou  que essas e outras iniciativas são uma oportunidade para as novas gerações conhecerem parte da extensa obra de seu pai e adintou: “Em dezembro a peça Vestido de Noiva será encenada no Teatro Municipal para relembrar a primeira montagem realizada em 1943, um grande marco para o teatro brasileiro.”

Genialidade rodriguiana

A primeira  mostra da genialidade literária de Nelson Rodrigues, segundo o seu filho, aconteceu aos 7 anos de idade. Na escola, ele tirou a nota máxima em redação ao escrever a história de um marido que surpreendia a mulher e o amante e os matavam em seguida.

Outro episódio que fez com que o diretor teatral percebesse que seu pai tinha uma visão especial sobre as coisas foi quando ele se negou a assinar um baixo-assinado promovido pelos vizinhos. O objetivo era denegrir a imagem de uma moça que, supostamente, estaria tendo um romance com seu professor de música, um homem casado e muito mais velho do que ela. Nelsinho, que na época era um adolescente, lembra  das palavras que seu pai disse aos  vizinhos: “Não vou assinar. Parem. Vocês estão matando essa menina!”.  E, de fato, a moça e o professor se suicidaram dois dias depois.

Morte,  amor e traição são temas recorrentes na obra de Nelson Rodrigues. “O velho [Nelson Rodrigues] era fissurado no lance da morte, da finitude, no aniquilamento”, afirma Nelsinho que acredita que o assassinato de seu tio também marcou profundamente o autor.

Na opinião de Marco Antônio Braz, a presença da morte na obra de Rodrigues não tem a ver com um gosto mórbido, mas a intenção do autor de retratar a realidade nua e crua e até de maneira didática. “Nelson costumava dizer que sua obra deveria ser lida por adolescentes”.

“O universo da obra de Nelson fala do amor e morte, mas entre esses dois pontos você pode colocar uma série de coisas. E há muito humor na obra de Nelson”, afirma Ruy Castro.

Inspiração

A obra de Nelson Rodrigues foi o primeiro contato de Ruy Castro com o universo das letras. “Aos 4 anos de idade, eu via minha mãe se deliciar lendo, diariamente, A vida como ela em uma coluna no jornal. Eu, que já estava me alfabetizando, me sentava no colo dela e riamos juntos sobre o texto de Nelson Rodrigues. Em geral eram sempre histórias de adultério. Na época, eu era a criança que mais entendia de adultério”.

Na adolescência, Castro passou a ler as crônicas esportivas de Nelson no jornal Primeira Hora. Acompanhou, capítulo a capitulo, a novela-folhetim Asfalto Selvagem (a história da Engraçadinha). E muitos anos depois viria descobrir a produção de Nelson para o teatro. “Mal consegui, até hoje, roçar à superfície de Nelson. Precisaria de mais 100 anos para conseguir absorver tudo”, afirmou Castro.

Já Marco Antônio Braz teve o seu primeiro contato, aos 14 anos de idade, ao ler Beijo no Asfalto. “Aquele final escandalosamente surpreendente me tocou muito e fez com que a obra dele não saísse mais da minha vida.” Braz sugeriu a plateia que se exercitassem em ler os textos de Nelson Rodrigues em voz alta para conseguir imaginar a grandeza da visão do autor.

As frases de Nelson

“O velho era um frasista genial”, define Nelson Rodrigues Filho, destacando o livro Flor de obsessão. As 1000 melhores frases, de autoria de Ruy Castro. “Mas poderia ter mais mil”, completou.

A ironia e o sarcasmo faziam parte de bordões de Rodrigues. Vejam algumas de suasfrases célebres:

“Amar é ser fiel a quem nos trai.”

“Toda mulher bonita é namorada lésbica de si mesma.”

“As mulheres gostam de apanhar. Mas só as normais. As neuróticas reagem.”

“Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar.”

Certa vez, ao ser indagado pelo seu amigo e poeta Manuel Bandeira sobre por que ele não escrevia sobre “gente normal”, Nelson Rodrigues respondeu:

“Mas eu só escrevo sobre gente normal, como eu e você”.