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Política monetária é samba de uma nota só, diz Luís Eduardo Assis

Ex-diretor de Política Monetária do Banco Central prevê taxa de juros alta por longo tempo e aponta alternativas ao principal instrumento de controle da inflação

Alex de Souza, Agência Indusnet Fiesp

Diante do momento ímpar que o Brasil e o mundo enfrentam, a única certeza que existe é de que o atual ciclo de taxa de juros se estenderá por mais tempo e terá duros efeitos para toda a sociedade. A conclusão é do economista Luís Eduardo Assis, que participou de reunião do Conselho Superior de Economia (Cosec) da Fiesp, na sexta-feira (20/5).

“É certo também que a inflação futura deverá cair, mas isso se dará a um custo altíssimo”, afirmou o ex-diretor de Política Monetária do Banco Central durante a reunião do Cosec, mediada por seu presidente, José Roberto Ermírio de Moraes, e da qual também participou o economista-chefe da Fiesp, Igor Rocha.

Na avaliação de Assis, teremos a maior pressão inflacionária desde 2002, que também foi ano eleitoral. Na ocasião, o medo de uma política econômica não amigável ao mercado provocou forte desvalorização cambial, que por sua vez pressionou a inflação. “A inflação oficial, medida pelo IPCA, bateu 17,2%, com IGP-M de 33%, e tudo por conta de uma desvalorização cambial que foi superior a 50% naquele ano”, explicou Assis.

Depois que o mercado percebeu que o plano econômico do novo governo não traria nenhum choque heterodoxo, os resultados foram positivos. “Ao contrário do que se imaginava, o governo seguiu a ortodoxia econômica”, lembrou o economista. “Muito se falou sobre contenção fiscal e usaram a linguagem que o mercado financeiro gosta de ouvir. Por conta disso e das condições internacionais favoráveis, houve a valorização cambial e isso abriu espaço para que a inflação caísse ao mesmo tempo em que a economia crescia”.

As semelhanças com 2002, entretanto, param no fato de ter sido ano eleitoral. O choque inflacionário daquele período “foi resolvido com final feliz”, segundo Assis. Normalmente, há correlação negativa entre a variação do preço internacional das commodities e a valorização cambial. Quando o preço internacional das commodities sobe, ao mesmo tempo ocorre uma tendência a valorização do real. “Mas desta vez é diferente. Em 2020 e 2021 as commodities subiram 40,4%, ao passo que o dólar se valorizou 38,5%. Se considerarmos esse aumento em reais, o percentual é de quase 100%”, apontou o economista.

Condições desfavoráveis

“Esse choque inflacionário nos pega com o desemprego historicamente muito alto, por conta da estagnação da economia, resultante de dois anos de pandemia, além da massa de rendimentos reais, que caiu 5,8% entre 2019 e 2021. Ou seja, não somente tivemos um choque historicamente muito potente, que afetou a economia brasileira, como esse choque nos atingiu no momento de enorme fragilidade”, disse.

O maior problema, segundo ele, é continuar com o mesmo receituário do passado. “Fazemos há muitos anos o ‘samba de uma nota só’. Se existe expectativa de aumento da inflação, a taxa Selic sobe. Mas quando tivemos outro ciclo de alta, iniciado em 2013, a taxa de desemprego era de 7,9%, e desta vez o ciclo começou com uma 14,9% de pessoas sem emprego. Trata-se da mesma terapia, mas em momento de economia muito mais fragilizada”.

Qual a solução para conter a pressão inflacionária?

Economistas não ortodoxos entendem que subir os juros nem sempre é um mal necessário. Uma das justificativas é o preço do repolho, por exemplo, que aumentou 54,7% nos últimos 12 meses. “De fato, o repolho não prestou atenção às decisões do COPOM. Nem a alface, que está 45% mais caro”, diz Assis.

“Que é mal todo mundo concorda. A questão é ser ou não necessário. Preços dos produtos agrícolas ou de energia não respondem à elevação dos juros. Por outro lado, a entrada do capital estrangeiro acaba valorizando a moeda brasileira e atrai mais investidores, a exemplo do que aconteceu entre 2002 e 2004, com forte valorização do real”. Já o time da ortodoxia acredita ser necessário elevar a Selic porque, ao subir a taxa, o BC sinaliza a expectativa, além de entender que não se pode brincar com a inflação, sob o risco de descontrole generalizado.

Para Assis, a solução para este impasse passa por vários instrumentos que devem trabalhar de modo a aliviar as pressões, tais como a desindexação da economia; mais controle da volatilidade do câmbio; uso de reservas bancárias para potencializar a administração da taxa de juros e o emprego de estoques reguladores de alimentos, mecanismo abandonado pelo governo passado.

“Provavelmente esse será o maior choque de juros dos últimos anos”, afirmou o economista. “O que se sabe sobre os juros elevados é que, cada vez mais, eles são menos eficazes para tratar choques inflacionários, além de ter efeito devastador sobre a dívida pública e sobre a distribuição de renda, que se concentra entre os mais ricos”.

As projeções do boletim Focus do Banco Central apontam para mais elevações da Selic e, em 2023, a taxa de juros real pode ser superior a 8%. Assis entende que uma política de combate à inflação baseada apenas na elevação da taxa Selic é pouco eficaz. “A inflação atual não vem do excesso de demanda”, afirmou. “Essa agenda precisa ser discutida. Este fórum é importantíssimo para buscar respostas que tornam menos necessários esse choque de juros”.

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Para Assis, o combate à inflação deve ir além da elevação da taxa de juros. Foto: Ayrton Vignola/Fiesp