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Pesquisa revela que agenda da equidade de gênero engaja mais da metade das empresas brasileiras

Sondagem realizada com 165 companhias envolveu a elite dos negócios dedicados ao tema; interpretação dos resultados varia entre os mais otimistas e aqueles mais cautelosos em dizer que o cenário do país é positivo

Mayara Moraes, Agência Indusnet Fiesp

Mais de oitenta por cento das empresas brasileiras proíbem a discriminação em razão de gênero e setenta por cento realizam campanhas internas de conscientização sobre a importância da valorização da mulher. Essas são algumas das principais descobertas reveladas pela pesquisa Mulheres na Liderança e repercutidas por especialistas e uma plateia de 150 convidados na sede da Fiesp, na última quinta-feira (14/11).

Desenvolvida pela Women in Leadership in Latin America (WILL), em parceria com o jornal Valor Econômico e a editora Globo, o levantamento também mostrou que 65% das 167 empresas participantes monitoram a proporção de homens e mulheres contratados, 54% contratam mulheres para cargos de maior nível hierárquico, e 51%  contratam pessoas do gênero feminino para cargos tradicionalmente ocupados por homens.

Os números parecem positivos e até sugerem que, de uma forma geral, as empresas têm adotado políticas e ferramentas em prol da equidade de gênero, mas o gap entre a expectativa e a realidade ainda é significativo. É o que pensa Maianí Machado, diretora da área de reputação corporativa do Instituto Ipsos, apoiador da pesquisa da qual participaram empresas de grande porte da indústria e do comércio, de mais de dez setores diferentes do setor produtivo. De acordo com a especialista, temos colecionado vitórias, mas o caminho a ser percorrido ainda é longo.

“Temos a sensação de que o tema [da equidade de gênero] é importante e está na pauta, porém ainda está muito da porta para fora do que da porta para dentro”, avaliou Machado. “Precisamos de uma adesão maior, e a gente vê o reflexo real disso na proporção entre homens e mulheres por cargo, quanto maior o nível hierárquico, menor é a proporção de homens e mulheres”, acrescentou a pesquisadora.

As mais de cem empresas consultadas representam a elite das empresas dedicadas ao tema, ou seja, as companhias que realmente se preocupam com a pauta e vêm pondo em prática ações condizentes com essa agenda. Apesar de os dados não parecerem tão insatisfatórios, é preciso ponderar: se a realidade brasileira fosse analisada como um todo, os números seriam substancialmente inferiores.

Mas nem a inexpressividade das estatísticas, nem o perfil dos empreendimentos avaliados, parece ter abalado a editora do jornal Valor Econômico e membro da mesa de discussão, Stela Campos, que vê com bons olhos a mudança de mindset das empresas.  “Eu sou da turma do meio copo cheio”, brincou a jornalista. “Eu acho que é muito bacana ver que metade dessas empresas tem uma área específica para cuidar desse assunto”, refletiu a editora. Segundo ela, “esse é o começo de uma grande mudança”.

Independentemente da interpretação dos dados revelados pela pesquisa, alguns fatos parecem ser incontestáveis: as mulheres são maioria e um impulso importante para a economia.

“Somos a maior parte da população brasileira – 6 milhões a mais que os homens -, somos 9,3 milhões à frente de alguma empresa no país e participamos de 42% da renda total dos trabalhos”, sublinhou Grácia Fragalá, diretora titular do Comitê de Responsabilidade Social (Cores) da Fiesp. “Ainda assim, vemos que a desigualdade tem aumentado nos últimos anos”, advertiu a especialista, referindo-se a 95ª posição ocupada pelo Brasil no relatório do Fórum Econômico Mundial sobre desigualdade de gênero, divulgado em 2018. Na edição anterior, o Brasil havia ficado na 71ª posição, entre os 142 países consultados.

Estimativas apontadas pela presidente do Conselho da Rede Brasil do Pacto Global das Nações Unidas, Sonia Favaretto, mostram que a igualdade entre homens e mulheres poderia acrescentar US$ 28 trilhões ao PIB global até 2025. “As mulheres são as principais influenciadoras das decisões das famílias, incluindo as de consumo, e são as que mais investem na educação das crianças e na comunidade”, ressaltou a ativista.

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A igualdade entre homens e mulheres poderia acrescentar trilhões ao PIB global até 2025, uma vez que elas influenciam as decisões de consumo das famílias. Foto: Karim Kahn/Fiesp

Para Fragalá, fortalecer a presença da mulher em todos os setores da sociedade contribui não apenas para a economia, mas também para a promoção da qualidade de vida da comunidade e do desenvolvimento sustentável do país. Entretanto, para ser bem sucedida, a agenda depende do empenho de todos os brasileiros.

“Sozinhas podemos ir mais rápido, mas juntas e juntos somos mais fortes e podemos ir mais longe”, refletiu a diretora. “Estamos falando de uma luta de toda a sociedade, homens e mulheres”, salientou.

Theo van der Loo, fundador e CEO da NatuScience S.A e único representante do gênero masculino no conselho da WILL, provocou a plateia e os homens que assistiam à transmissão ao vivo do evento pelos sites da Fiesp e do Valor Econômico. “Mandamos o convite deste seminário para homens e mulheres, mas a gente nota que, aparentemente, os homens pensam que essa tema não lhes diz respeito. Esse é o primeiro problema, os homens e os CEOs acham que não fazem parte da solução.”

De acordo com o empresário, a falta de envolvimento dos homens está estritamente relacionada à cultura da sociedade brasileira, que cerceia e julga a manifestação das emoções masculinas. “Tenho certeza que tem muitos homens CEOs que se sentem muito sozinhos e gostariam de mostrar mais o sentimento e a paixão pelas pessoas, mas ficam preocupados com o que os presidentes, os vice-presidentes e as matrizes vão pensar, então acabam se comportando de acordo com a expectativa da maioria das pessoas”, comentou.

Se a discussão em torno da equidade de gênero precisa ser protagonizada por homens e mulheres, as empresas também precisam assumir sua parcela de responsabilidade. É sob essa ótica que as empresas são incentivadas, e suas boas práticas laureadas pela pesquisa Mulheres na Liderança.

“Essa não é uma premiação de mulheres, é uma premiação das empresas e das pessoas que estão nessas empresas e das iniciativas que elas promovem a fim de promover a equidade salarial, a presença das mulheres na liderança e a equidade de gênero”, frizou Silvia Fazio, presidente e fundadora da WILL.

A Schneider Electric, líder do ranking total top 10 empresas da WILL, foi mais uma vez premiada por suas políticas de incentivo à equidade. A empresa possui um programa de atração, retenção e desenvolvimento de talentos femininos, e aplica treinamentos de combate aos vieses inconscientes em todas as faixas hierárquicas da empresa, inclusive, nas lideranças.

“Na nossa empresa, os CEOs também estão comprometidos com a agenda da igualdade de gênero”, disse Magda Beffa, líder de diversidade e inclusão da Schneider Electric. “Eles são avaliados, e o bônus deles é atrelado ao parâmetro de sustentabilidade e equidade”, acrescentou a especialista.

A Rumo Logística, empresa do Grupo Cosan, possui políticas de mentoria e desenvolvimento de lideranças voltadas para as mulheres. A companhia não se limita a difundir a mensagem de que as mulheres podem alcançar cargos de liderança, mas demonstra como elas podem chegar nessa colocação tão almejada.

“Não basta dizer ‘você pode chegar lá’”, disse Andrea Ramos, diretora comercial da Rumo Logística. “Entendemos que é importante avaliar como é ‘chegar lá’ e como podemos abrir portas para que esse caminho aconteça da maneira mais confortável possível”, explicou.

Guilherme Martins, diretor da unidade de negócios da Diageo, será o primeiro homem em cargo de liderança da empresa a tirar a licença parental. “Acho bacana dar esse exemplo e promover essa política, que não só beneficia as pessoas, mas também propõe um novo diálogo”, observou o empresário. “Cada vez que a gente fala da licença parental, a gente vê outras empresas pensando em assumir esse compromisso”, refletiu.

O Brasil ainda patina na agenda da equidade de gênero, mas vem dando bons exemplos. Proporcionar oportunidades iguais às pessoas, independentemente de seu gênero, é assegurar a reputação das marcas no mercado, impulsionar a economia e tornar a sociedade mais justa e igualitária. Para Favaretto, há apenas três caminhos para a concretização dessa agenda na vida das pessoas e das empresas: o do amor, o da dor e o da inteligência. A circunstância desse processo só pode ser definida pelo próprio sujeito.

“Quando a gente fala de amor, a gente fala de líderes envolvidos e dedicados por essência, que entendem essa agenda. A gente fala de dor quando uma empresa perde reputação e recurso financeiro e, para não passar por isso de novo, aciona alguém para resolver esse problema para ela. E a gente fala de inteligência, quando entende que é para lá que a gente vai. Quanto mais rápido avançar, mais cedo a gente chega, e 2030 [prazo final para o cumprimento dos objetivos do desenvolvimento sustentável, incluindo o da igualdade de gênero] está logo aí.”

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Pesquisa Mulheres na Liderança revelou que mais de oitenta por cento das empresas brasileiras proíbem a discriminação em razão de gênero. Foto: Karim Kahn/Fiesp