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Passado, presente e futuro do Afeganistão foram analisados por conselheiros da Fiesp e convidados 

Entenda em cinco pontos como os talibãs retomaram o poder no Afeganistão e por que o mundo deve permanecer vigilante 

Mayara Moraes, Agência Indusnet Fiesp

Nesta segunda-feira (20/9), membros do Conselho Superior de Estudos Avançados (Consea) e do Conselho Superior de Comércio Exterior (Coscex) da Fiesp reuniram-se virtualmente para discutir a retomada do Afeganistão pelo grupo talibã e as suas implicações para o povo afegão, a geopolítica local e o impacto para a comunidade internacional.

Conduzido pelo presidente do Consea, Ruy Martins Altenfelder Silva, e pelo presidente do Coscex, o embaixador Rubens Barbosa, o encontro teve as participações especiais do analista internacional da CNN e colunista do jornal O Estado de S. Paulo Lourival Sant’Anna, do diplomata e embaixador do Brasil junto aos governos do Paquistão e Afeganistão, em 2004, Fausto Godoy, e do ex-diretor do Estadão, Antonio Carlos Pereira.  

Confira os principais pontos da discussão e entenda os motivos que provocaram a crise política e social no Afeganistão. 

Quem são os talibãs 

Os talibãs ascenderam após a guerra civil causada pela retirada da União Soviética do Afeganistão. Apesar de o grupo ter se formado oficialmente depois do fim da Guerra Fria, em 1994, muitos de seus membros haviam combatido o exército soviético, com a assistência dos serviços secretos dos Estados Unidos e do Paquistão. 

Os talibãs assumiram o poder em 1996, com grande apoio da população, então traumatizada pelas atrocidades ocorridas durante a guerra civil,  e permaneceram no comando do país até 2001, quando Hamid Karzai foi eleito presidente. Vinte anos mais tarde, com a saída das tropas americanas do Afeganistão, os talibãs voltaram a controlar o país. Embora muitas vezes seja comparado a grupos terroristas internacionais, diferentemente da Al-Qaeda e do ISIS, o movimento afegão não usa táticas de terror para simplesmente derrotar seus inimigos. 

“Os talibãs não são terroristas”, afirma o jornalista Lourival Sant’Anna, que já esteve quatro vezes no Afeganistão. “Eles são um movimento guerrilheiro e um grupo não hierárquico que usam táticas terroristas como maneira de chegar ao poder”, explica. 

Ele conta que os jovens talibãs responsáveis pela retomada do país, no início de setembro, são rapazes de 18 a 20 anos, moradores da zona rural empobrecidos e sem perspectivas. “São jovens que não têm dinheiro para pagar um dote e sustentar uma família, possuem estatuto social nulo por não casarem e enxergam o ingresso no talibã como uma prova de virilidade”, aponta Sant’Anna. 

Como os talibãs retomaram o poder após a retirada das tropa americanas  

Nos últimos vinte anos, os Estados Unidos acreditaram que se investissem no Afeganistão eles seriam capazes de parar a volta do Talibã ao poder. A grande questão é que o grupo guerrilheiro sempre contou com enorme capilaridade social.  

“Três em cada quatro cidadãos afegãos vivem na zona rural, e a vida deles não mudou com o Talibã no poder”, argumenta o jornalista. “Além disso, o espaço criado para mulheres nos últimos vinte anos é algo dedicado à elite de pequenas cidades afegãs, apenas uma minoria viveu essa diferença”, acrescenta o jornalista.

Segundo o especialista, recém-chegado de uma viagem ao Afeganistão, o ressurgimento dos talibãs não apenas representa o fim da guerra para essas pessoas, mas também beneficia aqueles que residem nas áreas rurais. Antes da retomada do Afeganistão pelos talibãs, as Forças Armadas estavam com moral baixa, faltava comida para os mais pobres e a cultura de corrupção era generalizada.  

Além de contar com ajuda externa, garantida por apoiadores interessados em garantir um lugar no paraíso, os talibãs se fortaleceram graças à cobrança de impostos de produtores de ópio e heroína em cada uma das províncias sob as quais ganhou controle nos últimos anos. 

“No Afeganistão existe ainda uma tradição de os povos não lutarem entre si”, destaca Sant’Anna. “Os afegãos têm a capacidade de ver quem está mais forte e fazer um acordo para evitar derramamento de sangue”, analisa.  

Como o regresso do talibã afeta o resto do mundo 

Quase todo mundo concorda que o Afeganistão é feudo existente e um Estado falido do ponto de vista geopolítico. Apenas uma questão pode colocá-lo novamente no mapa da discussão: o terrorismo. Existe um grande temor de que grupos terroristas como a Al-Qaeda e o ISIS-K se instalem no Afeganistão e voltem a se tornar um problema para a comunidade internacional. 

“Os talibãs não usam uniformes, distintivos ou identificação”, diz Sant’Anna. “Redes terroristas que agem no Afeganistão têm as mesmas características, o que gera um grande risco de infiltrações e atentados”, explica.  

Outro ponto que gera temor na comunidade internacional: o impacto do retorno do talibã nos movimentos jihadistas de todo o mundo. “Essa volta é considerada um sinal de que Deus está do lado da Jihad”, alerta o jornalista. “O que explica um movimento tão inferior do ponto de vista militar como o talibã derrotar uma potência como o exército norte-americano? Trata-se de um símbolo de força que pode estar no limiar da radicalização, um exemplo de que é possível vencer por meio da Jihad”. 

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No debate, o analista internacional da CNN e colunista do jornal O Estado de S. Paulo Lourival Sant’Anna, o diplomata e embaixador do Brasil junto aos governos do Paquistão e Afeganistão, Fausto Godoy, e o ex-diretor do Estadão, Antonio Carlos Pereira. Fotos: Karim Kahn/Fiesp


O Talibã vai conseguir se manter no poder por quanto tempo? 

O Afeganistão é constituído por inúmeras etnias e populações isoladas com lideranças próprias, lideranças tribais que compõem a malha política e religiosa do país. O grande desafio do talibã vai ser harmonizar os interesses e os desejos de todas esses representantes, argumenta Fausto Godoy.  

“Essa dificuldade existe desde sempre, e para ela a única solução existente é o conselho de líderes globais, que é convocado quando há um problema a ser resolvido”, explica Godoy.  Segundo o diplomata, é por causa da existência desse conselho que nenhuma tribo aceita a preponderância de outras sobre ela.  

“Será que o Talibã vai ter domínio sobre essa situação e vai conseguir dominar este cenário? Essa é uma grande questão”, adverte o diplomata. 

O reconhecimento e apoio da comunidade internacional 

Os uigures são etnia majoritariamente muçulmana que chega a 11 milhões em Xinjiang, no noroeste da China, e que se vê culturalmente e etnicamente mais ligados à Ásia Central do que ao resto da China.  

Existem rumores de que ainda durante o mandato do presidente Ashraf Ghanios talibãs se encontraram com o ministro de Relações Exteriores chinês, Wang Yi, e de que, durante este compromisso, ambas as partes concordaram com um pacto de não agressão. De um lado, os talibãs impediriam o ingresso do radicalismo muçulmano na China e, por outro, a China daria todo o apoio necessário aos talibãs. 

Para Antonio Carlos Pereira, a China figura em um plano ainda mais complexo. Segundo ele, o abandono do Afeganistão pelos Estados Unidos foi o primeiro grande passo para a nova estratégia de enfrentamento ao gigante asiático. 

Lourival Sant’Anna, por outro lado, crê que o tiro pode ter saído pela culatra e que a maior beneficiada desse imbróglio político pode ser a própria China. 

“O crescimento do papel e da influência da China na região traz uma lição para eventuais aliados locais que podem ficar reticentes de fazer aliança com os EUA”, argumenta. “Isso sem dizer que, paradoxalmente, o simbolismo da derrota dos EUA para um exército islâmico radical tem um significado simbólico muito grande, que é a perda de influência dos EUA e o ganho de prestígio da China”, conclui o expositor.