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Hugo Bethlem, em webinar, enfatiza sustentabilidade na mineração e necessidade de redefinir o capitalismo

O cofundador e presidente do Conselho do Instituto Capitalismo Consciente Brasil defende novo contrato social, centrado na dignidade humana, e a prática do capitalismo consciente. Nesse cenário, a educação é fundamental

Alex de Souza, Agência Indusnet Fiesp

Em contraponto ao capitalismo selvagem, apregoado na década de 1970 por Milton Friedman, webinar organizado pelo Comitê da Cadeia Produtiva da Mineração (Comin) da Fiesp contou com o cofundador e presidente do Conselho do Instituto Capitalismo Consciente Brasil, Hugo Bethlem, para apresentar o conceito e abordar essa nova forma de gerir os negócios. A reunião também teve a participação do diretor do Comin, Antero Saraiva Junior.

Ao contrário de outros setores, o da mineração não tem a mesma percepção do público quando o assunto é sustentabilidade, de acordo com o palestrante. Contudo, é possível reverter essa imagem com trabalho sério e tomada de consciência de seus líderes. “Não estou dizendo que todas as empresas do segmento são ruins, mas qual a imagem que elas transmitem? As pessoas não costumam enxergar a beleza que existe por trás da atividade mineradora, nem conseguem perceber seus benefícios para a sociedade. Mas, quando se trabalha com foco para minimizar os impactos e garantir que o negócio gere riqueza para todos, isso pode, sim, melhorar a imagem”, disse o especialista, que já atuou como executivo de várias grandes empresas varejistas.

Para Bethlem, trata-se de questão primordial a qualquer empresa, não apenas às mineradoras, garantir o bem-estar econômico e social no presente e mostrar para a geração atual que o negócio pode ser sustentável no longo prazo. “Precisamos de ações para eliminar a pobreza extrema, promover prosperidade e bem-estar para todos, proteger o meio ambiente de verdade e enfrentar as mudanças climáticas”, afirmou.

O capitalismo consciente

A discussão sobre sustentabilidade não é nova. Verdade. Remonta à década de 1970 e, desde 1994, se discutem os benefícios e ganhos das atividades sustentáveis. Porém, o tripé Pessoas, Planeta e Lucro evoluiu e deu lugar a um novo tripé, o do capitalismo consciente, formado pela tríade Pessoas, Planeta e Propósito, sendo o lucro uma consequência, esclareceu o expositor.

Bethlem explicou que do lado social (Pessoas) a relação da empresa com seus públicos diversos, desde o colaborador, fornecedores, comunidade onde está inserida até os seus clientes, precisa estar pautada pelo respeito, inclusão e diversidade. Na dimensão ambiental (Planeta), se faz necessário esforço para minimizar o seu impacto ambiental e o uso adequado dos recursos.

Quanto ao propósito, o convidado lembrou que a maioria das empresas não nasceu com objetivos sofisticados: “A maior parte delas nasceu com propósito muito simples: o de sair da pobreza e garantir o sustento da família”. E citou o case da Magazine Luiza, que começou suas atividades há mais de 60 anos, por uma necessidade familiar, mas que evoluiu e descobriu seu propósito ao longo do caminho. “E hoje é uma das empresas mais conscientes que eu conheço”, elogiou.

“Milton Friedman, considerado autoridade da economia nos anos 1970, afirmava que o único propósito de uma empresa deveria ser a maximização do lucro para o seu acionista. Mas isso não pode ser feito às custas do sofrimento e da miséria dos outros stakeholders”, advertiu. Para Bethlem, o conceito do capitalismo consciente quebra esse paradigma, ao focar em um propósito que vai curar a dor da sociedade e levar essa visão adiante. E observou: “Ao gerar e distribuir riqueza ao longo do processo, todos ganham. E o acionista terá mais retorno do que de outra forma. Basta comparar os resultados para verificar”.

O que é gerar mais riqueza?

Segundo o consultor, é pagar uma remuneração justa, não um salário miserável, e realizar negócios que beneficiem a todos os públicos que se relacionam com a empresa. “Tudo precisa ter como base o mérito. A atividade precisa ser pautada pela transparência, pela ética com todos, beneficiar a todos, inclusive ao município onde a empresa está inserida, toda aquela sociedade”, enfatizou.

No caso de uma empresa mineradora, Bethlem sugere que, antes ou mesmo depois de iniciar suas atividades em algum lugar, seus representantes se reúnam com os públicos locais para explicar sua atividade, os danos inerentes e quais soluções podem ser propostas. “Não existe mineração que não agrida o meio ambiente, pois faz parte do seu business, mas dá para fazer essa atividade de forma sustentável. A empresa responsável deve mostrar como esses danos serão compensados, contabilizar os empregos que serão gerados, as oportunidades de negócio que surgirão no comércio e no setor de serviços. Isso é cuidar”, disse aos participantes.

Pandemia

Todo mundo está falando sobre o ‘novo normal’, mas, de acordo com Bethlem, ninguém tem ideia do que será esse ‘novo normal’. Contudo, ele destacou algumas lições aprendidas que podem ser válidas para as pessoas físicas e jurídicas. São elas:

  1. A crise reafirmou nossas fraquezas e as nossas fortalezas;
  2. Mostrou que somos absolutamente interdependentes;
  3. Escancarou as mazelas sociais, com destaque para as lutas antirracista, anti-homofóbica e antigênero;
  4. Ressignificou as relações da iniciativa privada com a esfera pública; e
  5. Confirmou a importância da ciência e da tecnologia.

“De repente descobrimos que mais de 12 milhões de pessoas eram invisíveis para os serviços de saúde, e para receber o auxílio emergencial tiveram que criar o seu CPF. Muitos sequer tinham certidão de nascimento. Isso precisa acabar”, disse Bethlem. Ele destacou a necessidade de que as empresas combatam veementemente toda forma de discriminação, seja de cunho étnico, de gênero ou outras formas de preconceito.

Segundo o palestrante, a pandemia mudou as relações entre o público e o privado: “O capitalismo em que somente o acionista importa não fica mais de pé. Muitas das empresas, inclusive algumas que participam desta transmissão, se beneficiaram com as medidas promovidas pelo governo [federal], tais como a redução da folha de pagamento e o adiamento de impostos, por exemplo. Esse dinheiro não saiu do governo, mas dos impostos que nós, pessoas físicas e jurídicas, pagamos para a ele, o que possibilitou salvar muitas vidas e empresas”.

A proposta de Bethlem para esse novo recomeço é reconstruir as fundações do sistema econômico e social, para proporcionar um futuro mais justo, sustentável e mais resiliente. “Precisamos de um novo contrato social, centrado na dignidade humana, justiça social, em que o progresso social não fique atrás do desenvolvimento. Precisamos ‘resetar’ o mundo. O sistema econômico que nós conhecemos ruiu e é hora de redefinir o capitalismo”, foi uma das suas conclusões.

O caminho não é fácil, mas possível

Obviamente, não é fácil realizar as mudanças, segundo o presidente do Instituto Capitalismo Consciente, mas “se o desafio não nos assusta, provavelmente ele não é relevante”. Para ele, as empresas poderiam ir muito além. “Leis e regulamentações dizem que você pode ou não pode fazer algo. Porém, os valores dizem o que você deve fazer. E tem uma diferença entre fazer o que é permitido e fazer o que é certo”, pontuou.

Bethlem apontou a educação como um meio de fazer a diferença. Ele opinou que “é o único jeito de mudar o mundo, e pode mudar o Brasil. Contudo, isso leva uma ou duas gerações, e isso se a gente começar agora. Infelizmente, não é prioridade desse governo, talvez dos governos estaduais e municipais. E quando o aluno chega à faculdade, quando chega, já ficou para trás. A desigualdade na educação é enorme. Mas o capitalismo continua sendo a melhor forma de promover a riqueza e a inclusão social das pessoas, desde que as oportunidades sejam iguais”.

Mais uma vez, citou o caso da Magazine Luiza, que estruturou novo programa de trainee voltado a jovens negros e que causou muito barulho. “Muita gente diz que isso é discriminação. Sim, é uma discriminação de fato, mas para compensar uma falha histórica, uma discriminação velada, pois quando se elaborava um programa de trainee os requisitos eram ter estudado em escola de primeiro nível, ter inglês fluente, e isso só permitia a brancos participar do processo, e esse modelo precisa ser compensado”, desabafou.

E fez nova proposta. “Uma das coisas que a mineração poderia fazer, e seria muito importante para a geração de riqueza, investir em educação fundamental nos locais onde ela atua. Não precisa que esse jovem estude e depois vá trabalhar nessa empresa. Seria bom que ele viesse, mas, se isso não ocorrer, ajudará a formar melhores cidadãos”. E finalizou com a resposta dos médicos chineses aos que perguntaram o motivo de sua ida à Itália, para cuidar dos que padeciam pela Covid-19, ainda no início da pandemia: “Somos ondas do mesmo mar, folhas da mesma árvore e flores do mesmo jardim”, concluiu Hugo Bethlem.

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Foto: Fiesp