imagem google

Open Banking, em fase de implementação no Brasil, irá mudar a dinâmica do sistema financeiro

O ecossistema contará com quatro fases de implementação. A primeira já foi concluída e a segunda se inicia em 15 de julho

Solange Sólon Borges, Agência Indusnet Fiesp

O Open Banking desembarcou no Brasil este ano e se encontra, no momento, em sua segunda fase de implementação, agendada a partir do dia 15 de julho. O novo ecossistema, pela sua inovação e uso intensivo de tecnologia, alimenta dúvidas entre os usuários dos bancos, mas sinaliza um cenário de oportunidades para as necessidades da empresa e também para a Pessoa Física (PF). Especialistas do Banco Central e de diversas instituições financeiras se reuniram em live promovida pela Fiesp e pelo Ciesp, nesta quarta-feira (7/7) a fim de detalhar o conceito e o funcionamento do sistema. 

Afinal, o que é Open Banking? O novo sistema financeiro aberto, presente na Inglaterra, em outros países europeus, e na Austrália, reúne um conjunto de regras e tecnologias que permitirão o compartilhamento de dados e serviços de clientes entre instituições financeiras por meio da integração de seus respectivos sistemas. Na prática, o cliente, dono de seus dados financeiros, terá a liberdade de escolher quando e com quais empresas irá compartilhá-los. Um dos seus pilares se baseia no consentimento do usuário.

Atualmente, o Brasil enfrenta grande assimetria de informações, na avaliação dos expositores. Por isso, uma das tarefas do Open Banking é reduzir as barreiras de entrada e democratizar não somente os empréstimos, mas os diversos tipos de produtos financeiros a fim de que bancos, fintechs e instituições de pagamentos possam compartilhar as informações entre eles e o cliente escolha qual instituição oferece as melhores condições para cada serviço que necessite.

Nesse novo cenário, novos produtos e serviços devem surgir, mas atrelados ao conjunto de regras estabelecidas para a criação do conceito, além de prover mais opções, com custos menores, preservando a transparência para que os clientes tenham mais autonomia sobre sua vida financeira.

Um ponto de atenção se refere à segurança das informações, para que se proporcione ambiente seguro aos usuários e, nesse sentido, estão sendo feitos grandes investimentos em tecnologia.  O Open Banking se utiliza da Application Programming Interface (API), que integra um sistema que funciona como área compartilhada para ‘dialogar’ com outros sistemas.

Sylvio Gomide, diretor titular do Departamento da Micro, Pequena, Média Indústria e Acelera Fiesp, na abertura do encontro, frisou o caráter disruptivo da proposta para o mercado de crédito do país, configurando-se em uma agenda positiva para maior concorrência e inovação, pontuando que toda crise traz oportunidade, ao se referir ao cenário pandêmico global.

Imagem relacionada a matéria - Id: 1627184797

Fotos: Everton Amaro/Fiesp

Gomide citou algumas iniciativas por parte da indústria, como a Central de Crédito, além do Feirão de Crédito Digital, com mais de 4 mil atendimentos liderados pela Fiesp e pelo Ciesp, que somaram mais de R$ 104 milhões no caixa das empresas.

“Do ano passado para cá, muitos produtos foram colocados no mercado, na prateleira, e havia dúvidas sobre qual seria a melhor opção para o empreendedor”, disse Gomide, reforçando que a pandemia acelerou ainda mais esse processo que roda agora, o sistema aberto do Open Banking.

Entre as principais dúvidas que elencou, a experiência dos países onde o sistema já foi implementado, o que representou em termos de spread bancário e questões relativas à segurança. Por isso, é preciso manter o diálogo com o Banco Central e as instituições financeiras para entender esse processo e as novidades resultantes dele, conforme pontuou Gomide.

João André Calvino Pereira, chefe do Departamento de Regulação do Sistema Financeiro do Banco Central do Brasil, deu destaque à facilidade que a adoção desse sistema traz à vida das indústrias e das pessoas, de modo geral. Para os clientes, entre os benefícios: acesso rápido a informação diversa, facilidade de comparação, avaliação e recomendação de produtos e a busca de experiência e valor. No âmbito das empresas, maior capacidade de processamento das informações, especialização, facilidade de entrada e ambiente competitivo.

“A tecnologia permite essa transformação digital em função do grande volume de informações e muda a forma de gestão, pois tem dinâmica própria. Dá empoderamento ao consumidor e muda a sua experiência. As empresas estarão focadas em promover uma boa experiência, com reflexo no bom serviço prestado e no valor agregado”, ressaltou Pereira, ao indicar a mudança e quebra da fidelização tradicional, mais a facilidade de se criar uma nova empresa, em função da tecnologia, em uma economia de rede, com expressiva mobilidade digital.

“O que limita essa mobilidade digital plena?”, questionou o representante do BC. “Estamos falando de crédito, de liquidez, da economia das pessoas, e isso depende de um relacionamento de longo prazo para um produto customizado, que traz essa barreira natural do sistema financeiro. Aí é que entra o Open Banking para essa transformação”, respondeu.

O Open Banking conta com padrões de infraestrutura que suportam o compartilhamento de dados e serviços financeiros pelas instituições autorizadas pelo BC, disse o expositor ao tratar da plena digitalização do Sistema Financeiro Nacional (SFN), além do reconhecimento que o consumidor está no controle, é o titular de seus dados pessoais. Outro ponto é a integração dos serviços financeiros à jornada digital do consumidor, com segurança e alinhada à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

Para Pereira, também é um fundamento que permitirá essa mobilidade digital devido à infraestrutura tecnológica existente por trás do sistema, da rede de relacionamento entre as instituições financeiras, que vão falar a mesma língua em função do padrão criado. Os protocolos de segurança envolvem inúmeras camadas (consentimento, autenticação, token, certificação dos participantes etc.).

Em sua análise, haverá mudança nos processos internos das instituições que se moldarão a essa nova dinâmica, o que irá forçar a uma revisão a fim de promover agilidade e facilidade para se criar e alterar modelos de negócio, com eficiência em seus processos rotineiros. Outro ponto abordado, é que o fundamento do Open Banking gera facilidade de entrada de instituições no SF. Aumenta-se a competição, com focos diferentes, com produtos diferentes, portanto, mais inclusivo, e o consumidor será o maior beneficiário dessa transformação, segundo Pereira. Ao comparar o processo com outros países, acredita que o Brasil tem um espaço maior a ser preenchido devido à assimetria das informações, ou seja, potencial imenso a ser desenvolvido.

O representante do Banco Central ainda citou os casos de uso: comparadores de serviços financeiros; localizadores de agências e ATM (Automatic Teller Machine); gestão financeira ativa e aconselhamento financeiro; plataformas de crédito, iniciação de pagamentos em ambiente de terceiros, entre outras possibilidades proporcionadas.

Imagem relacionada a matéria - Id: 1627184797

Para Sylvio Gomide, a pandemia desenhou novo cenário e a Fiesp e o Ciesp contribuíram com o acesso de crédito para as empresas, por meio da sua Central de Crédito e do Feirão de Crédito Digital, e parcerias estabelecidas

Implementação escalonada

Quando estará disponível? Como será feito? Questionou o convidado. “Estamos construindo os fundamentos e a linguagem comum”, disse, pois isso requer implementação tecnológica escalonada em quatro fases “e sua evolução será constante com o desenvolvimento do próprio mercado”. A primeira fase já foi entregue em 1º de fevereiro, com as APIs de informações abertas e dados não sensíveis.

A fase 2 se inicia em 15 de julho com o compartilhamento de dados cadastrais e transacionais de clientes relacionados a serviços bancários tradicionais (contas, cartão de crédito e operações de crédito), o que já envolve dados pessoais e das empresas, de pessoas físicas e jurídicas, em uma entrada gradual. Já a fase 3 está marcada para se iniciar em 30 de agosto com o compartilhamento dos serviços de iniciação de transação de pagamento e de encaminhamento de proposta de operação de crédito. Por fim, a fase 4, com data estabelecida para 15 de dezembro, englobará o compartilhamento de dados de transação e de serviços relacionados a câmbio, credenciamento, seguro,  investimentos, previdência complementar aberta e conta salário.

Arthur Ridolfo, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), pontuou que o sistema financeiro brasileiro não é o pioneiro, mas está sempre à frente e crê que o Brasil será referência em Open Banking. “O sistema financeiro rapidamente se adapta. Os participantes precisarão atuar muito com análise de dados para trabalhar de forma inteligente”, avaliou, mas questionou: e o lado do cliente? Os custos vão diminuir? O cliente precisa ser bem informado, seja ele PF ou PJ.

Em sua opinião, o custo de obtenção de informação será reduzido e haverá impacto na composição de crédito, pois ela será mais assertiva. “O mercado irá aumentar, o volume irá aumentar, e os custos serão diluídos com informação mais qualificada, reduzindo perdas”, concluiu, recomendando a realização de um trabalho ‘forte’ junto ao público.

Na segunda parte do evento, as oportunidades do Open Banking na visão das Instituições Financeiras foram destaque, contando com a participação de Marcelo Gomes (gerente executivo na Unidade de Clientes Micro e Pequena Empresa do Banco do Brasil); Marcos Aragão Correia (superintendente geral de Produtos do Banco Safra) e Rafael Gomes Santin (superintendente de Gestão de Ativos do Banco Safra); Edison Consolin (superintendente de Open Finance do Banco Itaú); Fabio Lins (superintendente executivo de canais do Banco Original); Ana Rachel Carvalho Silva (gerente de Open Finance da Caixa Econômica Federal); e Eduardo Cotta (superintendente de conta digital do Banco Inter).

Também integraram as discussões, as cooperativas de crédito: Valerio Araujo da Silva (gerente de Open Banking e Inovação da Cooperativa Sicredi); Márcio Alexandre de Macedo Rodrigues (superintendente do Centro Cooperativo Sicoob-CCS); e Milton Luiz de Melo Santos (presidente da ACCrédito).

Neste link, você pode assistir à live sobre Open Banking.