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‘O que choca é o fato de as manifestações não terem acontecido antes’, diz Renato Janine Ribeiro em reunião do Consea na Fiesp

Professor de Ética e Filosofia Política da USP falou nesta segunda-feira (19/08) sobre os recentes movimentos que ganharam as ruas do país e disse que eles podem representar uma nova conquista democrática

Isabela Barros, Agência Indusnet Fiesp

“O que choca é o fato de as manifestações não terem acontecido antes”, disse o professor de Ética e Filosofia Política da Universidade de São Paulo (USP) Renato Janine Ribeiro. O pesquisador foi o convidado da reunião do Conselho Superior de Estudos Avançados (Consea) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), nesta segunda-feira (19/08), na sede da entidade. Ribeiro apresentou uma análise dos recentes movimentos sociais e suas implicações para o país. A reunião foi conduzida pelo presidente do Consea, Ruy Martins Altenfelder Silva.

De acordo com Ribeiro, as manifestações que tomaram as ruas, principalmente em junho, representam uma “tomada do espaço público por quem nunca ocupou esse espaço”. Para o professor da USP, esse momento de luta por mais qualidade dos serviços públicos pode representar a quarta grande conquista democrática da sociedade brasileira nas últimas três décadas depois da queda da ditadura militar, do controle da inflação com o Plano Real e da luta contra a miséria, principalmente a partir de 2003. “Espero que o quarto salto que o Brasil vai ter seja o da maior qualidade dos serviços públicos”, afirmou.

Ribeiro: salto democrático a partir da luta pela qualidade dos serviços públicos. Fotos: Helcio Nagamine/Fiesp

Ribeiro: salto democrático a partir da luta pela qualidade dos serviços públicos. Fotos: Helcio Nagamine/Fiesp


Segundo o pesquisador, esses movimentos começaram sob a bandeira dos transportes, mas se estenderam por outras áreas, como saúde e educação. “Há apoio social para isso”, explicou. “Estamos diante de tendências de longo prazo, isso não vai se resolver em 2014”, disse. “Pelo contrário: tudo isso deixou o quadro eleitoral turvo para as eleições do ano que vem”.

Efeito surpresa

O caráter de surpresa foi, segundo Ribeiro, uma marca das manifestações. Mas, no que diz respeito ao transporte público, o primeiro alvo dos protestos, a insatisfação não é nova. “Existem pessoas que perdem de quatro a oito horas diárias em deslocamentos com transporte público, o que equivale de meia a uma jornada de trabalho por dia”, afirmou. “O conforto e a velocidade são muito baixos e isso prejudica principalmente os mais pobres”.

E tudo isso numa sociedade que, conforme Ribeiro, “preza tanto a velocidade”. “O que choca é o fato de as manifestações não terem acontecido antes”, explicou. “O drama é grande”.

Além disso, como observou o professor, a mudança é parte da vida. “O ser humano modifica-se ao longo da história”, disse. “E tudo isso está simbolizado quando alguém fica preso no trânsito, por exemplo”.

Ouvir é preciso

Ruy Martins Altenfelder Silva, à esquerda, e Adhemar Bahadian: reflexões profundas. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Ruy Martins Altenfelder Silva, à esquerda, e Adhemar Bahadian: reflexões. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp


Nesse cenário de imprevisibilidade, aponta Ribeiro, os políticos precisam “ouvir o que as pessoas estão dizendo”. “É preciso identificar o movimento, entrar no registro da utopia e avaliar como isso pode mudar a política”, afirmou. “A gente deve pensar sobre o que vai ficar disso tudo”.

Para o presidente do Consea, a apresentação de Ribeiro trouxe “reflexões profundas”. “Estamos repensando o Brasil”, disse Ruy Martins Altenfelder Silva.