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‘O desafio é desenvolver o mercado’, diz presidente de consultoria em seminário na Fiesp

Principal executivo da Inter B. Consultoria Internacional de Negócios, Cláudio Frischtak explicou que a busca pela estabilidade econômica é um caminho para o desenvolvimento do mercado de capitais durante debate no encontro “Reindustrialização do Brasil”, na sede da entidade, nesta segunda-feira (26/08)

Guilherme Abati e Isabela Barros, Agência Indusnet Fiesp

As medidas necessárias para consolidar a oferta de crédito e o mercado de capitais no país estiveram no centro do debate do quarto painel do seminário “Reindustrialização do Brasil”, realizado nesta segunda-feira (26/08), na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). A discussão reuniu especialistas de diferentes áreas sobre os dois assuntos.

Antônio Corrêa de Lacerda, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), onde é  pesquisador do Departamento de Economia e Coordenador do Programa de Estudos Pós-Graduados em Economia Política, iniciou os debates falando sobre a questão do financiamento de investimentos. “Temos boa estrutura de financiamento no âmbito federal, estadual e municipal”, disse.

Lacerda: “Temos boa estrutura de financiamento no âmbito federal, estadual e municipal”. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Lacerda, da PUC-SP: boa estrutura de financiamento no âmbito federal, estadual e municipal. Foto: Everton Amaro/Fiesp


De acordo com Lacerda, desde 2011 o país atravessa uma fase de queda das taxas de juros reais. “Nos últimos meses, a taxa vem subindo, mas ainda é muito menor que nossa média histórica”, disse.

Isso representa, de acordo com Lacerda, um avanço em alguns segmentos, como o financiamento habitacional, que “hoje representa 6% do PIB, ainda aquém dos países em desenvolvimento”. “Ainda há amplo espaço para crédito habitacional e para a ampliação do mercado de capitais, que é um instrumento de financiamento e que pode evitar pressão sobre o financiamento publico”, disse.

O pesquisador afirmou que, no atual cenário econômico brasileiro, o capital externo é “complementar”. “A melhor alternativa para o país é se manter atrativo para o capital externo, mas desenvolver o mercado de financiamento a longo prazo, com taxas de juros competitivas”.

Antipatia pela especulação

Carlos Antonio Rocca, membro do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Instituto Ibmec), falou em seguida. “Vários fatores, além do câmbio, prejudicam a competitividade brasileira”, disse. “Além disso, os investimentos são limitados pelas taxas de poupança”.

Para Rocca, o grande desafio é “recuperar a poupança do setor público e ampliar as margens para investimentos”.

Os debatedores do painel sobre investimento e mercado de capitais. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Os debatedores do painel sobre investimento e mercado de capitais. Foto: Everton Amaro/Fiesp


Ele ressaltou a questão do que considera antipatia pela especulação. “Só teremos um mercado que financie investimento se houver liquidez. Isso é qualificado como especulação. Uma baixa taxa básica de juros nós só conseguimos com disciplina em longo prazo, que traga segurança e baixe o peso na dívida publica”, concluiu.

Carlos Umberto Martins, da Central dos Trabalhadores do Brasil, também participou do painel. “A politica macroeconômica é o maior obstáculo ao desenvolvimento nacional, a começar pela politica de juros”, disse. “É essencial diminuir a taxa de juros, para melhor financiamento e desenvolvimento”.

Segundo Martins, a política de câmbio flutuante torna o Brasil refém da política internacional norte-americana.  “É essencial controlar o fluxo de capitais e a crescente desnacionalização da economia brasileira, através de uma forte taxação para remessas ao exterior”, afirmou.

Estabilidade macroeconômica

Presidente da Inter B. Consultoria Internacional de Negócios, Cláudio Frischtak destacou pontos importantes para a estabilidade macroeconômica, fatores de estímulo aos financiamentos de longo prazo e ao mercado de capitais. “Não podemos nos acomodar com uma inflação de 6% ou 7% ao ano”, disse. “E também investir na consolidação fiscal sem truques ou maquiagem, mirando a redução da dívida bruta”, explicou.

Frischtak: Não podemos nos acomodar com uma inflação de 6% ou 7% ao ano”. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Frischtak, da Inter B. Consultoria: “não podemos nos acomodar com uma inflação de 6% ou 7% ao ano”. Foto: Everton Amaro/Fiesp


Para Frischtak, juros reais “consistentes, de 2,5% a 3% ao ano”, com potencial de estimular o crescimento econômico, também são importantes. “É uma das bases da estabilidade macroeconômica”, afirmou. “O desafio é desenvolver o mercado”, disse.

Professor do Instituto de Economia da  Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Ernani Torres Filho explicou que o problema do crédito escasso no Brasil é discutido desde que ele estava na faculdade. “Sempre disseram que aqui o crédito era volátil, limitado, de curto prazo”, disse. “E isso pelo subdesenvolvimento, mas é importante destacar que as coisas não são mais assim: esse parto já aconteceu e as crianças passam bem”, brincou.

Torres Filho: mercado de financiamento de longo prazo tem tudo para crescer no país. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Torres Filho, da UFRJ: mercado de longo prazo tem tudo para crescer no país. Foto: Everton Amaro/Fiesp


Segundo Torres Filho, o mercado de longo prazo “está aí”. E tem tudo para crescer no Brasil, ainda que o país tenha avançado menos que outras nações nesse campo. “O crédito cresceu principalmente depois de 2003 aqui, pelo fim da fragilidade externa”, disse. “A queda na taxa de juros também estimulou a demanda por títulos privados.”

Trabalhadores e empresários unidos

Presidente da Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB), Ubiraci Dantas de Oliveira destacou a importância da parceria entre trabalhadores e empresários para o desenvolvimento da indústria e do mercado como um todo. “Temos as nossas contradições e divergências”, disse. “Mas estamos unidos pelo fortalecimento da indústria. O desenvolvimento do Brasil nos une”, afirmou. “Não estamos fadados a crescer somente 0,9% ao ano”.