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No Dia Mundial de Conscientização Sobre o Alzheimer, mitos sobre a doença são esclarecidos em live da Fiesp

Especialistas convidados também tiraram as dúvidas dos internautas sobre prevenção, diagnóstico e tratamento

Mayara Moraes, Agência Indusnet Fiesp

Em 21 de setembro, comemora-se mundialmente o Dia de Conscientização sobre a Doença de Alzheimer. A data faz parte de uma campanha da Alzheimer’s Disease International (ADI) que tem como propósito desafiar o estigma que cerca este transtorno.

Nos Estados Unidos, país que melhor acompanha e estuda o surgimento de casos de Alzheimer na população, uma pessoa é diagnosticada com a doença a cada 66 segundos. O Alzheimer já é considerada a 6ª causa de morte no país. No Brasil, estima-se que 2 milhões de indivíduos sejam acometidos pela doença. Metade desses brasileiros não sabem que possuem a doença.

A fim de desmistificar a Doença de Alzheimer e conscientizar os brasileiros em relação à importância do diagnóstico precoce e tratamento da doença, Fiesp, Sesi e Senai realizaram uma live nesta terça-feira (21/9) com Celene Pinheiro, presidente da Associação Brasileira de Alzheimer (Abraz), e Gustavo Alves, farmacêutico bioquímico e pesquisador.

Conduzidos pela coordenadora de Saúde e Bem-Estar do Sesi-SP e Senai-SP, Debora Cristina Iglesi, os especialistas compartilharam seu conhecimento sobre a doença com os internautas. Confira as principais questões levantadas e conheça um pouco mais sobre essa enfermidade.

O que acontece no cérebro de uma pessoa que tem Alzheimer?

Gustavo Alves: No Alzheimer, o processo neurodegenerativo, ou a perda de neurônios, acontece na região hipercampal do cérebro, responsável por converter a memória de curto e longo prazo. O processo fisiopatólógico da doença de Alzheimer cursa com basicamente com o que a gente conhece hoje como depósito de proteínas que vão comprometer as sinapses, que são as transmissões nervosas. Todos nós temos essas proteínas, mas em quem tem Alzheimer, as proteínas Beta-amilóides sofrem quebras em tamanhos inadequados, se acumulando na superfície dos neurônios, e as proteínas da tau sofre um processo de hiperfosforilação. Isso quer dizer que essas proteínas vão sofrer processos de degradação inadequados, formar placas e emaranhados no cérebro, e aí todo o comprometimento que a doença vai trazer ao longo de toda a vida.

Alzheimer e demência são a mesma coisa?

Celene Pinheiro: Quando falamos em demência, nos referimos de uma maneira abrangente à perda de habilidades cognitivas e habilidades cerebrais, ou seja, habilidades que você não tem mais e que impactam seu dia a dia. Existem vários tipos de demência, como a demência frontotemporal e a demência vascular, esta última causada por lesões nos vasos do cérebro. A doença de Alzheimer não é a única causadora de demência, mas é a maior delas.

Quando a demência causada por Alzheimer ocorre, os primeiros sinais que se manifestam no paciente são o esquecimento de fatos recentes e a repetição – a pessoa fica repetitiva. Conforme a doença vai evoluindo, outras alterações vão ocorrendo, como dificuldade na linguagem e de compreender o que é dito, dificuldade de cálculo e de se orientar no espaço.

Quando a demência é causada por outros motivos, as alterações de linguagem e comportamento são imediatas. Ao contrário do Alzheimer, não ocorrem na fase moderada da doença.

Outros sintomas como tristeza e isolamento social (na fase inicial da doença) e transtornos do sono (já na fase moderada ou avançada) também são sinais de alerta. Muitas vezes, as famílias não dão importância a esses sinais, mas é importante que a gente tenha a percepção de que tudo isso está acontecendo para fazer um diagnóstico rapidamente. De acordo com a Associação Mundial da Doença de Alzheimer, apenas 10% dos casos da doença são diagnosticados nos países subdesenvolvidos.

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É errado se referir à doença como Mal de Alzheimer?

Celene Pinheiro: Esse termo caiu em desuso por causa da conotação negativa que ele carrega. É importante combatermos o estigma e a visão negativa que a sociedade tem das demências de uma forma geral. Este estigma faz com que as pessoas tenham vergonha e medo de procurar um diagnóstico. Precisamos falar claramente sobre demência para que os pacientes tenham chance de procurar diagnóstico e tratamento e possam ter qualidade de vida.

Como é feito o diagnóstico da Doença de Alzheimer?

Celene Pinheiro: Na fase um, os familiares costumam relatar mudança de comportamento, desorganização e confusão mental. Na fase dois, começamos a investigar a saúde dessa pessoa, sintomas neurológicos associados a estes quadros, problemas de sono e depressão e doenças clínicas não equilibradas. Fazemos um exame laboratorial geral para checar colesterol, diabetes, problemas tiroidianos, deficiência vitamina B12, ácido fólico etc.

Em seguida, avançamos para os exames de imagem, como ressonância magnética de crânio, cintilografia e exames neuropsicológicos. Nesta etapa final, a participação de um psicólogo é fundamental para que se possa fazer testes mais aprofundados e ter mais detalhes.

Gustavo Alves: Hoje, com maior conhecimento dos biomarcadores, conseguimos ter respostas mais efetivas. Com uma coleta de sangue conseguimos fazer uma associação com algoritmos e estabelecer um diagnóstico. Também estamos avançando no desenvolvimento de exames que estabelecem níveis das proteínas no cérebro com a doença.

Podemos nos prevenir contra a doença de Alzheimer?

Celene Pinheiro: Existem fatores de risco que podem ser modificados, sobretudo com mudanças no estilo de vida. Fazer atividades físicas, controlar a hipertensão, o colesterol e o diabetes, diminuir o consumo de álcool, não fumar, manter um peso e uma rotina de sono saudáveis, evitar dietas com alto consumo de açúcares e gorduras e desafiar o cérebro, por meio da realização de atividades cognitivas diversas, podem ajudar a prevenir a doença.

Quais foram os impactos da pandemia na qualidade de vida de quem tem Alzheimer?

Celene Pinheiro: A pandemia mostrou de formal cabal que o ser humano precisa de interação social e estimulação. A socialização e a estimulação física e cognitiva são de fundamental importância. Pessoas com Alzheimer, que antes eram ativas e com vivência social exuberante, tiveram sintomas cognitivos deflagrados durante a pandemia por causa do baixo convívio com outros indivíduos. Além disso, sequelas neurológicas causadas pela Covid também vêm acontecendo.

Existe cura para a doença de Alzheimer?

Gustavo Alves: Embora hoje a Doença de Alzheimer seja popularizada, demoramos muito para investigá-la desde que ela foi identificada, no início do século. O primeiro medicamento para o tratamento do Alzheimer surgiu apenas nos anos 1990. Remédios surgiram com o propósito de melhorar a acetilcolina no cérebro, por meio da inibição de enzimas que destroem esses neurotransmissores. Novas drogas vem sendo estudadas e devem chegar ao mercado em três ou quatro anos.

Muito se fala sobre o uso do canabidiol, mas não temos resultados clínicos satisfatórios para regressão da doença.

A doença de Alzheimer não tem cura, mas tem tratamento, e ele é muito importante. Cada fase da doença responde a um tratamento diferente.

Celene Pinheiro: Quanto antes começar o tratamento medicamentoso, melhor. A pessoa que tem um diagnóstico bem feito e um tratamento instituído logo no começo vive melhor, com mais autonomia e menos alterações comportamentais, e tem suas funções mais bem preservadas. A doença não tem cura, mas pode progredir de maneira mais suave.

Além disso, existem fármacos que vão modificar a doença. Nos EUA, foi aprovada a primeira medicação que diminui o depósito das proteínas no cérebro. Isso é uma luz para quem trabalha com a doença há anos sem novidade. Tem muita coisa acontecendo. Estamos otimistas, mas temos de esperar.