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“Não existe receita de sucesso em sucessão familiar”, ensina Manuella Curti, CEO do grupo Europa

Aos 26 anos, após a perda abrupta do pai e do irmão, ela assumiu o comando da empresa e mudou a cultura semeada desde 1984

Tássia Almeida, Agência Indusnet Fiesp

Franja curta, sorriso largo e uma fala carismática e envolvente. Manuella Curti, à frente do Grupo Europa, emocionou o público da reunião ordinária do Comitê de Jovens Empreendedores (CJE) da Fiesp na terça-feira (5/11), e ensinou que pequenos detalhes possuem uma dimensão além do que se vê. Com 26 anos, em 2011, ela assumiu a presidência da maior empresa do segmento de purificadores de água na América Latina, após perdas familiares abruptas. Em 2009, perdeu o irmão, Dácio Múcio de Souza Jr., assassinado em frente a uma padaria paulistana e, seis meses depois, o pai Dácio Múcio de Souza, morreu de câncer.

“Esses traumas ficam marcados na nossa vida pra sempre. Nunca mais fomos os mesmos, nem as nossas relações familiares foram as mesmas. E aí a gente se depara com uma coisa que é a fragilidade da vida, a vulnerabilidade da vida, qualquer um, a qualquer momento, por qualquer motivo, pode ir embora. Até a gente passar por isso a gente não se dá conta disso”, destacou Manuella, que enfrentou a dor ao lado da mãe e da irmã caçula.

A partida precoce do fundador e do sucessor da Europa foi um grande ponto de virada.

Pós-graduada pelo Insper em Administração de Empresas e formada em Direito pela PUC-SP, Manuella desistiu do plano de ser juíza, no Guarujá, e surfar todos os dias para assumir a empresa e enfrentar o momento de ruptura e crise, mesmo sem a menor experiência. “Eu nem sabia, mas quando eu nasci já estava sendo treinada para tudo o que ia acontecer depois”, disse a empresária. “O meu papel naquele momento era não deixar tudo o que foi construído se perder”, lembrou.

Referência no mercado brasileiro de purificadores de água há mais de 30 anos, a Europa, na época, tinha 600 pontos de venda, 300 distribuidores pelo Brasil e 400 funcionários. O primeiro passo no comando da empresa foi ‘arrumar a casa’. “Em uma empresa familiar, tudo o que passa na vida da família, a empresa sente. Meu pai tinha uma gestão centralizadora, ele aprovava tudo, ele era a alma da empresa, a cultura. Quando ele desaparece, todo mundo fica órfão, perdido”, revelou Curti.

Foram 9 meses entre a morte do fundador e a formalização de Manuella como presidente. Daí em diante, entendeu que a empresa nunca mais poderia depender de uma pessoa e que mudanças e transições precisam ser bem desenhadas. “A maior lição foi nunca deixar a empresa sem uma ‘cara’. Nunca façam isso, escolham alguém ainda que interinamente”, garantiu. Aos poucos, com uma rede de apoio e consultoria, ela transformou a rotina da empresa e foi muito além de números.

“É importante a empresa crescer, vender mais, faturar mais. Mas tenho muita clareza também que é importante a forma como a gente vende mais. Porque se você cuida da qualidade, você está cuidando da perpetuidade, da sustentação. Pra mim, que passei por um momento crítico, de ‘perder tudo’, foi essa a prioridade. A empresa cresce, mas cresce muito menos do que poderia porque eu falei ‘não quero crescer errado, nós vamos arrumar o que tem que arrumar para crescer certo’”, ensinou.

A partir desse ponto Manuella traçou para a Europa o objetivo de ser uma empresa que aprende, que se adapta, mais rápida, mais enxuta, mais participativa, um lugar onde as pessoas gostam de trabalhar – o que para muitos parece uma fantasia. “Utopias servem para dar um norte pra gente, pra não esquecer pra onde estamos indo. Porque tudo à nossa volta estimula a gente a ir para o mesmo lugar que todo mundo está indo e não necessariamente é o lugar que a gente quer ir. É preciso discernimento e senso crítico para fazer escolhas”, afirmou.

As mudanças

Quando assumiu a cadeira de presidente, apesar da pressão para investir no marketing, Manuella começou transformando a cultura da empresa ao fazer mudanças de dentro para fora: começou a incentivar a autonomia dos colaboradores; deu um novo norte para a área jurídica, estimulando a ideia de que o cliente sempre tem razão e gerando mais valor para a marca.

Mesmo com a pressão pelos números, ela seguiu em busca de um propósito, investindo em uma reformulação lenta, ousada e difícil, que custou alguns talentos. Mexeu nos processos industriais e provocou o diálogo. “A pessoa que não é ouvida não existe”, disse. Neste cenário, trocou a persona do pai para a da marca, treinou os líderes de todas as áreas juntos, investiu em técnicas sistêmicas para conseguir emergir nas coisas implícitas e problemas da empresa, focou em desenvolvimento de habilidades socioemocionais como a escuta ativa, comunicação não violenta e em oficinas com base antroposófica e arte, nas quais os colaboradores desenvolviam trabalhos com argila e aquarela. E também ‘foi na ponta’ conversar com os vendedores para entender os desafios e as necessidades.

“Toda empresa precisa de propósito além do resultado. Quando a gente tem trabalho como valor, ele não é um problema. Ele não pesa. Você nem sente que está trabalhando. Faz uma coisa que é relevante, que faz sentido. Tem mil coisas que hoje, quando eu olho pra trás, eu faria diferente, tá? Mas a gente faz como dá, com os instrumentos que a gente tem na hora”, comentou Manuella.

As mudanças na Europa foram acontecendo junto com as transformações pessoais que Manuella passava desde que a vida mudou de rumo. Nesse processo todo, ela teve aliados como a constelação familiar e um curso de mediação de conflitos. “Se eu tivesse dinheiro para fazer só um curso na minha vida seria mediação de conflitos, eu uso todo dia e toda hora”, garantiu a CEO.

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“Toda empresa precisa de propósito além do resultado”, aconselhou Manuella Curti, CEO do Grupo Europa, durante reunião ordinária do Comitê de Jovens Empreendedores (CJE) da Fiesp. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Água: a alma do negócio

Durante décadas, a Europa liderou o segmento. Hoje conta com concorrentes de peso como a Electrolux e Whirlpool que disputam a atenção do consumidor. Mas a entrada de novos players nunca foi um problema. “Estamos vivendo um momento muito especial que nos permite pensar em modelos de negócios diferentes, porque não posso cooperar com um concorrente meu? Em algumas situações eu posso, meu concorrente não é um inimigo. É um potencial parceiro, é só a gente ser criativo. Gosto de concorrente que eleva a régua. Água é uma coisa muito importante pra gente ficar brincando”, afirmou a empresária.

Para ela, há espaço para todos. “Temos 64 milhões de domicílios no Brasil e a Europa já fabricou 7 milhões de purificadores. Tem muita gente para comprar purificador. 60% das pessoas consomem água mineral ou de torneira”, pontuou, e disse que esse cenário preocupa. “A água mineral gera um dos maiores impactos ambientais que existem. Desertos já foram formados por conta da exploração de minas de água mineral”, completou.

Atenta à disponibilidade da água, no mundo, Manuella compartilhou algumas aflições: “Água é uma coisa que todo mundo precisa para sempre. Não só os seres humanos, mas todos os seres vivos do planeta. A gente tem um cenário de água global muito preocupante em termos de disponibilidade, de acesso e de contaminação. Isso está se acelerando com velocidade”, afirmou.

De acordo com a CEO, no Brasil, dos 210 milhões de habitantes, 35 milhões não têm acesso à água potável. “É bastante gente. Estamos em 2019 e metade do país não tem coleta de esgoto. Estamos discutindo robôs, automação de um monte de coisa e a gente não está olhando para coisas muito básicas. O que mais mata no mundo, mata mais que guerra, que tráfico de drogas, são doenças relacionadas à água. São 2,5 milhões de pessoas que morrem por ano”, comentou. “Isso é sério, é grave. E não é uma empresa que vai resolver, é um coletivo de empresas, o Poder Público. Uma articulação de uma rede muito maior. E eu enxergo a nossa empresa como uma articuladora para fazer a diferença”, acrescentou Manuella Curti, presidente do Grupo Europa.

Em 2017, seis anos após assumir a presidência da empresa, Manuella foi eleita uma das 56 mulheres mais influentes do Brasil pela Revista Forbes. De lá para cá, já impactou milhares de pessoas pelo país em palestras sobre sucessão em empresas familiares, liderança feminina e inovação. A Europa é 100% brasileira e tem mais de 20 prêmios Top Of Mind. “Não existe receita de sucesso em sucessão familiar. Cada família se organiza de um jeito. É preciso disciplina, diálogo, querer fazer dar certo e engolir muito sapo”, finalizou. Depois de retirar a Europa do lugar comum, ela mostrou que é muito mais do que ‘a filha do dono’.