imagem google

‘Debater desindustrialização é falar de leite derramado. Precisamos discutir a reindustrialização do país’, afirma Paulo Skaf na abertura de evento

Paulo Skaf abriu os trabalhos do encontro Reindustrialização do Brasil na manhã desta segunda-feira (26/08), na sede da entidade

Isabela Barros, Agência Indusnet Fiesp

“Não adianta a empresa se modernizar, ter tecnologia e máquinas modernas da porta para dentro  se temos uma situação conjuntural adversa”, afirmou o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, nesta segunda-feira (26/08), durante a abertura do seminário “Reindustrialização do Brasil”, realizado na sede da entidade, na Avenida Paulista, em São Paulo.

Skaf: “A indústria de transformação é de suma importância para qualquer país”. Foto: Ayrton Vignola/Fiesp

Skaf: “A indústria de transformação é de suma importância para qualquer país”. Foto: Ayrton Vignola/Fiesp


De acordo com Skaf, discutir a desindustrialização é falar de “leite derramado”. “Precisamos realmente é discutir a reindustrialização do país”. “Estamos unidos nessa grande missão que é a recuperação da indústria do Brasil”, afirmou. “A indústria de transformação é de suma importância para qualquer país”.

O presidente da Fiesp lembrou ainda que o setor gera 10 milhões de empregos diretos no Brasil. E que tudo começa “na competitividade do país”. “Não adianta a empresa se modernizar, ter tecnologia e máquinas modernas da porta para dentro se temos uma situação conjuntural adversa, que vai contra o interesse e a competitividade de todos”, explicou.

A questão começa pelo custo da matéria-prima, disse Skaf. “A indústria tem que ter acesso a matérias-primas a preços competitivos”, afirmou. “Precisamos de juros isonômicos”, completou. A questão do câmbio também foi citada. “Até pouco tempo o dólar estava uma relação de R$ 1,50 sobre o real. Se aquilo estivesse certo o dólar não estaria hoje a R$ 2,40”, colocou. “Ninguém prega que o dólar suba mais. Isso é ruim para o país, mas também era ruim ter um dólar de R$ 1,50. Hoje, a questão cambial está acertada”.

Para o presidente da Fiesp, “não adianta ter todo tipo de inovação, tecnologia, marca, imagem, mercado, pessoal treinado e um câmbio distorcido em 30%, 40%, que rouba todo tipo de competitividade”. “Os juros ainda são altos, mas em patamar mais baixo do que já foi”, analisou ele, listando outros problemas. “O Brasil tem muito imposto, carga tributária alta, uma burocracia tremenda. E isso tem que mudar. Precisamos de uma reforma que simplifique isso e acabe com a guerra fiscal”.

Além disso, defendeu Skaf, a sociedade quer ter retorno dos impostos pagos. “É difícil pagar imposto e não ter educação, segurança pública, saúde e mobilidade urbana”, disse. “A maior parte do atendimento à população é deficiente. Tudo isso é competitividade do país. E só vamos ter competitividade acertando o câmbio, os juros, tendo menos burocracia, menos impostos, mais infraestrutura”, explicou. “Temos muitas frentes e precisamos trabalhar em todas elas em busca da competitividade do Brasil”.

Educação de qualidade

Imagem relacionada a matéria - Id: 1563503985

Skaf mencionou eficiência na gestão pública como fator importante de competitividade. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp


A busca pela maior eficiência na gestão pública foi citada por um Skaf como um fator importante de competitividade. “Tudo tem custo, a arrecadação deve ficar em torno de R$ 1,6 trilhão. É muito dinheiro”, afirmou. “A única coisa que não se pode falar no Brasil é que falta dinheiro para alguma coisa. Falta gestão em todo canto e com isso eu concordo, mas dinheiro não falta não”.

Nessa linha, o presidente da Fiesp lembrou que o estado de São Paulo tem um orçamento estimado em torno US$ 200 bilhões em 2013, o que “é 20% mais do que a Argentina”. “Como pode faltar dinheiro?”. “A Alemanha gasta 1% do seu PIB [Produto Interno Bruto] em segurança pública e o estado de SP gasta 1,2%. O problema é gestão. A gente gasta mais proporcionalmente em segurança do que a Alemanha”, explicou. “A diferença é que, para cada 100 mil habitantes, temos 11,5 homicídios. Na Alemanha são 0,8. Estão 13, 14 vezes melhor do que a gente gastando menos, proporcionalmente”.

A importância da educação para o desenvolvimento do Brasil também foi destacada. “Não podemos pensar que, mesmo com tudo resolvido, poderíamos passar sem educação de qualidade. Não há crescimento sustentável sem educação de qualidade”, afirmou.

Skaf lembrou o trabalho desenvolvido pelo Serviço Social da Indústria de São Paulo (Sesi-SP) e pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial de São Paulo (Senai-SP). “A indústria investe maciçamente em educação: o Sesi-SP está  construindo 100 novas escolas no estado. Implantamos o ensino em tempo integral e o ensino médio, que não tinha”, disse. “Além das nossas escolas, teremos 330 mil matrículas Sesi-SP em São Paulo esse ano. E 1 milhão de matrículas no Senai-SP”.

Como reconhecimento da qualidade do ensino oferecida pela indústria, algumas prefeituras no estado passaram a adotar o chamado Sistema Sesi-SP de ensino em suas escolas. “Em Araraquara já são 13 escolas municipais usando a nossa metodologia”, disse Skaf.

O presidente da Fiesp encerrou a abertura do seminário pedindo um reforço à educação no Brasil. “Esse esforço deve ser feito para realmente para melhorar a educação. É a forma única de dar oportunidade a alguém”, colocou. “Muitas vezes a gente fala de outras questões, de câmbio, matéria-prima, mas não se pode esquecer de um dos pontos mais importantes, se não o mais, que é a educação”.

Menos participação no PIB

Roriz Coelho: “Precisamos discutir propostas para reindustrializar o Brasil”. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Roriz Coelho: “Precisamos discutir propostas para reindustrializar o Brasil”. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp

Também presente ao evento, o diretor-titular do Departamento de Competitividade e Tecnologia (Decomtec) da Fiesp, José Ricardo Roriz Coelho, lembrou que a indústria de transformação foi o setor que mais perdeu participação no PIB nos últimos 15 anos. “A indústria de transformação é um setor fundamental para o desenvolvimento do país”, explicou. “Precisamos discutir propostas para reindustrializar o Brasil”.


Leia mais

>> Ações para indústria são tomadas de improviso sem pensar no médio e longo prazo, afirma diretor da Fiesp em seminário

>>‘Temos que devolver a competitividade à indústria nacional’, afirma ex-secretário de finanças de São Paulo em seminário na Fiesp

>> Especialistas debatem políticas de inovação e tecnologia para começar processo de reindustrialização

>> ‘O desafio é desenvolver o mercado’, diz presidente de consultoria em seminário na Fiesp

>> Processo de reindustrialização no país deve evitar ‘fórmulas mágicas’, diz economista Mariano Laplane