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Mudanças em cadeias globais de valor como oportunidade para o Brasil  

Após globalização, fragmentação no cenário internacional pede adaptação, resiliência e atuação clara, na análise de Roberto Azevêdo

Solange Sólon Borges, Agência Indusnet Fiesp

Nesta segunda-feira (25/7), o embaixador Roberto Azevêdo tratou de mudanças nas cadeias globais de valor, pontuando as tensões existentes no cenário internacional de disrupções de ordem global mais as oportunidades possíveis para o país e os pontos de atenção.  

Na abertura, Josué Gomes da Silva, presidente da Fiesp, enfatizou a relevância do tema e as janelas de oportunidade. Com a pandemia de Covid 19 e a guerra estabelecida entre Rússia e Ucrânia, estabeleceu-se forte discussão sobre as cadeias globais de valor e o protagonismo que se pode ter na economia verde com a mudança da matriz energética mundial.

O Brasil também poderá ser protagonista nesse processo e em diversos setores, como já ocorre no agronegócio, alertou o presidente da Fiesp. Por isso, a opinião do embaixador Roberto Azevêdo, que tem conhecimento dos vários blocos e dos organismos multilaterais existentes é muito importante, reforçou, além da avaliação de riscos e dos efeitos que podem ocorrer na gestão empresarial. “É preciso nos desenvolvermos para termos uma sociedade mais próspera”, concluiu.

Para o embaixador Roberto Azevêdo, o debate é necessário diante da falta de liderança global não só nos países, mas igualmente nos mecanismos multilaterais, quando há uma fragmentação, uma inflação recorde em diversos países, apesar da recente redução do preço das commodities. O aumento da taxa de juros determinado por vários bancos centrais de maneira mais incisiva poderá ter impacto no crescimento da economia global e na geração de empregos. 

Para Azevêdo, o comércio internacional deverá contribuir pouco no crescimento em função da tendência dos países centrais fecharem suas fronteiras e há desafios no plano econômico com muitas incertezas, inclusive em função das tensões geopolíticas entre Estados Unidos e China. Também a guerra na Ucrânia agrega rupturas como nas cadeias  energética e alimentar. 

“É preciso entender as questões que estão presentes nessa nova realidade estrutural”, alertou. O avanço tecnológico igualmente pressiona o mercado de trabalho, o setor de serviços e de logística, por exemplo, e muitos não estão prontos para empregos gerados por essas novas tecnologia, o que pode provocar desemprego estrutural.

Outros pontos de atenção são o fato de as mídias sociais contarem com arquitetura favorecedora da polarização, cada vez mais difícil de se conter, além do populismo. O mundo digital também é afetado devido à localização e ao controle de servidores, programas e transmissão de dados, e o que seria para aproximar povos e culturas não vem ocorrendo, na prática, e não deve se alterar em um futuro imediato.

O que chamou de desglobalização ou desacoplamento entre o Leste e o Oeste, uma globalização fragmentada ou neoglobalização, em espaços geográficos bem delimitados é outro aspecto. Ao comparar o atual cenário e o da época da Guerra Fria, agora há rivalidade no plano político e econômico entre os EUA e a China, diferente da rivalidade ideológica anterior, mas que não se dava no plano econômico. 

Ao apontar que a guerra da Rússia contra a Ucrânia promove consequências importantes, como em torno da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), Azevêdo observou maior coesão entre os países ocidentais que se incrementou com o conflito. “Essa coesão também se dará no outro bloco? Isso não está claro”, questionou, ao lembrar que a fragmentação, no campo econômico, não interessa atualmente à China.

A Organização Mundial do Comércio (OMC) não está alheia a essa nova realidade estrutural que irá gerar tensão em todas as áreas, um fenômeno que não é transitório, mas perene, de acordo com o ex-embaixador. Por isso, é importante que faça parte do cálculo dos países, como o Brasil, que tem papel a desempenhar. Assim, nessa nova ordem econômica internacional, o papel de organismos como OMC e Organização das Nações Unidas (ONU) e suas funções irão mudar e serão diversas das atuais e os países precisarão se adaptar.

O evento Mudanças em cadeias globais de valor - Oportunidades para o Brasil reuniu o presidente da Fiesp, Josué Gomes da Silva, e o ex-diretor geral da OMC, embaixador Roberto Azevêdo. Fotos: Ayrton Vignola/Fiesp

O evento Mudanças em cadeias globais de valor – Oportunidades para o Brasil reuniu o presidente da Fiesp, Josué Gomes da Silva, e o ex-diretor geral da OMC, embaixador Roberto Azevêdo. Fotos: Ayrton Vignola/Fiesp


Mudança climática e impactos comerciais

O meio ambiente foi outro tema relevante. Azevêdo apontou os custos na mitigação da conta das mudanças climáticas nos países desenvolvidos. Nos EUA, as empresas estão sujeitas a regras de notificação, por exemplo, e haverá a tendência de nivelamento com os países que não têm esse mecanismo ainda, o que significará impostos na fronteira.

“O Brasil é um alvo e dizer que temos matriz limpa não vai se sustentar”, alertou, indicando que o país precisa evoluir para a cultura regenerativa que sequestra carbono e gera créditos ao explicar que, apesar de ser considerado um celeiro mundial, a agricultura representa 1/3 das emissões de gases de efeito estufa (GEE). Assim, haverá maior escrutínio em relação ao Brasil e suas emissões, mas a agricultura pode transformar isso em ativo. Essa é uma janela de oportunidade. Esse debate deve evoluir e trazer desafios para o Brasil e barreiras para o mercado.

Azevêdo chamou a atenção para dois pontos cruciais: estar alerta às medidas protecionistas disfarçadas de ‘cuidado ambiental’, que podem gerar impacto em nossas exportações, e a correção do hiato existente entre a imagem do Brasil no exterior e a realidade existente aqui. “É necessário [adotar] políticas críveis e uma diplomacia propositiva e criativa e que ajude na transição da imagem nacional no campo ambiental”, aconselhou. Igualmente o setor privado deve ser propositivo e executor, mas, otimista, pois enxerga o Brasil pensando de forma moderna e retomando seu lugar no âmbito internacional.  

No momento dos debates, Jackson Schneider, presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior (Coscex) da Fiesp, frente a esse painel de um mundo nervoso e moderno, crê que hoje temos mais perguntas do que respostas e precisamos lidar com as imprevisibilidades. 

Fernando Galletti de Queiroz, vice-presidente da Fiesp e CEO da Minerva Foods, trouxe alguns pontos para a discussão: a agenda dos países, a inflação e a segurança alimentar. “O Brasil é um grande player e tem oportunidades, mas é preciso refletir sobre o quanto os países privilegiam as cadeias locais. Com a inflação, os países precisam se adaptar a preços mais competitivos e as negociações em blocos estão cada vez mais complicadas, pois eles estão cada vez mais heterogêneos, mas há janela de oportunidade, sim, acredita ele.

Ainda segundo Queiroz, sobre a questão da sustentabilidade, toda restrição gera oportunidade, mas se deve escolher as bandeiras e a descarbonização deve ser uma delas pelo fato de o Brasil ser um player no mercado voluntário, apesar do mercado mandatório ser muito maior. “O Brasil pode ser gerador de crédito. É preciso fazer o dever de casa”, salientou.

Essa busca de produtores competitivos mundo afora coloca o Brasil em uma posição especial para ele se posicionar. O mercado de carbono crescerá de maneira exponencial e é preciso discutir o tema e não apenas reagir a ele. “Precisamos de políticas claras, ambientais, agrícolas, industriais, no campo climático, respondeu Azevêdo às questões propostas por Queiroz.

Para Tatiana Prazeres, diretora titular do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Derex) da Fiesp, a globalização tem peso na política comercial e precisa ser levada em conta. A mesma avaliação fez Marcos Oliveira, presidente e CEO da Ioschpe Maxion.

Para ele, a maior parte dos negócios no exterior e em outros países sentirá a mudança dessa nova globalização. O modelo de negócio que adota produzir onde se vende sofre menos com a fragmentação das cadeias. O Brasil tem oportunidades na produção de minérios, no âmbito agrícola e ambiental. Quanto à produção industrial, que perdeu espaço no mercado internacional, é grande a responsabilidade de se adotar uma política nesse sentido e considerar o aspecto tecnológico em todos os setores onde podemos ser ‘jogadores’, afirmou Oliveira.

Questionado sobre os tratados de comércio, Azevêdo respondeu que o quadro de fragmentação leva à necessidade de dar maior resiliência às cadeias de suprimento em um momento de retração.

Em sua conclusão, disse que o mundo evolui de forma imprevisível, mas com oportunidade para o Brasil participar dessa nova conformação da economia internacional, o que também é um chamado para a indústria e o setor privado por apresentar desafios, mas também possibilidades. É preciso atuar internamente, com o estabelecimento de políticas e objetivos, estar à frente da curva e não reagindo à curva, resumiu Azevêdo.

Roberto Azevêdo – vice-presidente executivo, diretor de Assuntos Corporativos da PepsiCo e presidente do Conselho de Administração da Fundação PepsiCo. Diplomata de carreira, atuou como diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), de 2013 a 2020, e em sua gestão se deu o Acordo de Facilitação do Comércio, a expansão do Acordo de Tecnologia da Informação e decisões sobre segurança alimentar, além de eliminar os subsídios à exportação agrícola e permitir mais exportações de bens e serviços dos países menos desenvolvidos. Sob sua gestão, novas plataformas permitiram o lançamento de negociações sobre e-commerce, facilitação de investimentos e regulação nacional de serviços.