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Inovação e produtividade na gestão da micro, pequena e média indústria: temas avaliados por especialistas

Docentes e representante do Ministério da Economia avaliam cenário atual e o apoio via programa Brasil Mais e Jornada Senai-SP para a transformação digital

Solange Sólon Borges, Agência Indusnet Fiesp

Apesar do apoio financeiro e dos incentivos fiscais, a capacidade de inovação das empresas não melhorou, pois a maior parte dos recursos segue para a compra de máquinas e equipamentos. A produtividade cresce, mas não no patamar desejado, o que limita o desenvolvimento e a competitividade. O diagnóstico foi feito por Milton Antônio Bogus, presidente do Conselho Superior da Micro, Pequena e Média Indústria (Compi), que se reuniu no último dia 26/8, e que teve como foco a inovação e a produtividade na gestão industrial. Para Bogus, o aumentos da produção sempre ocorreu atrelado ao aumento na mão de obra ocupada. Isso resume que é preciso investir mais em pesquisa e novas tecnologias. Para esmiuçar o tema, quatro especialistas integraram o debate promovido pelo Conselho.

O primeiro participante, Osvaldo Lahoz Maia, gerente de Inovação e de Tecnologia do Senai-SP, tratou de quatro pontos dessa agenda: o cenário mundial, o momento de reboot das empresas, o cenário mundial das MPEs versus o cenário brasileiro das MPEs e, por fim, a jornada Senai-SP para a transformação digital. “O momento pandêmico provocou grandes reações no mundo produtivo. Na Europa e nos EUA, há um movimento de reboot com a retomada e em função do momento econômico”, frisou, ao dar início à sua análise.

Para ele, o mundo produtivo não deve olhar apenas para o horizonte competitivo, mas sim para a competitividade com responsabilidade ambiental, social e governança corporativa, o ESG [Environmental, social and corporate governance, na sigla, em inglês], conceito tão debatido hoje em dia.

Nesse sentido, é preciso perguntar como a organização impacta na conservação do meio ambiente, como lida com os colaboradores e a comunidade à sua volta e se a empresa adota conduta confiável e transparente. E frisou que são elementos que norteiam a conjuntura atual, a nível global.

Ao tratar do reboot, a reinicialização necessária às empresas, citou pesquisa da KPGM que concluiu o seguinte: para 57% das empresas pesquisadas, as prioridades nos negócios mudaram do dia para a noite; para 59%, a pandemia acelerou a necessidade de transformação digital; 56% investiram em tecnologia e migrar para a nuvem se tornou uma necessidade absoluta; 64% se referiram ao poder do E, ou seja, combinar tecnologias emergentes é melhor do que usá-las isoladamente. [Fonte: KPMG, março 2020, com 900 executivos da Austrália, Canadá, França, Alemanha, Índia, Japão, Holanda, Reino Unido e EUA].

Maia conclui que as tecnologias não são apenas necessárias, mas o vetor de sobrevivência e crescimento do negócio em uma nova realidade, que recebeu um ‘empurrãozinho’ da pandemia de Covid-19 que afetou todo o planeta.

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O prof. Maia também apresentou números de outra pesquisa [Fonte: IDC/Cisco, junho 2020] sobre Transformação digital dos pequenos negócios 2020: um retrato dos oito mercados líderes mundiais, incluindo o Brasil, posicionado ainda no extrato de ‘indiferente digital’, enquanto outros países avançam e ganham maturidade. Um item importante apontado pela pesquisa se refere à segurança digital.

Especificamente, em relação ao cenário nacional, trouxe pesquisa da Associação Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) que indica que a transformação digital das MPEs se encontra ainda em estágio inicial. A maioria se concentra em patamares, em termos de maturidade, bem parecidos ao de outros países. Mas, “não é uma verdade integral em relação à pesquisa anterior apresentada, mas em posição mediana”, criticou ele.

Apesar de uma série de contraditórios, não falta no universo das empresas a compreensão da necessidade de transformação digital.  Ele citou os três eixos do Senai-SP nessa frente: tecnologia, capital humano e modelos de negócios e plataformas, que compõem a Jornada Senai de transformação digital. Existem diversas aplicações da indústria 4.0 para pequenas e médias empresas possibilitando melhor gestão da produção, aumento da produtividade e melhoria nos aspectos da manutenção industrial, conforme pontuou, e tratou dos oito passos de maneira organizada e customizada.

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Para ter acesso à apresentação de Osvaldo Lahoz Maia, gerente de Inovação e de Tecnologia do Senai-SP, clique aqui

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Fotos: Ayrton Vignola/Fiesp

João Amato Neto, professor titular do Departamento de Engenharia de Produção da Poli-USP, e presidente da diretoria executiva da Fundação Vanzolini, destacou a participação da indústria de transformação no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, que havia atingido mais de 20% em meados de 1980, e se reduziu para um patamar próximo a 11%, em função não só das mudanças na estrutura produtiva do país, mas também por conta dos novos modelos de negócios devido à disrupção tecnológica.

A estimativa atual de custos industriais no Brasil (Fonte: ABDI) a partir da migração da indústria para o conceito 4.0 será de, no mínimo, R$ 73 bilhões/ano; 31 bi/ano com redução de custos de manutenção de máquinas e equipamentos; 7 bi/ano com economia de energia.

Entre os principais desafios apontados pelo docente, encontram-se os níveis de automação e sensorização na indústria de transformação brasileira, ainda longe de operar sob o conceito de indústria 4.0, pois apenas 5% alcançaram esse nível (pesquisa com 214 empresas de diversos portes entre março de 2018 e maio de 2019), na opinião do expositor.

Ele apontou a reconversão da indústria brasileira na pandemia da Covid-19: o complexo da indústria de saúde (CIS), entre 2010 e 2019, foi responsável por mais de US$ 92 bilhões em importações. Em 2019, o saldo negativo foi de US$ 8,3 bilhões. Até março de 2020 já se acumulava déficit de quase US$ 2,2 bilhões.

Amato Neto afirmou que da indústria de ventiladores mecânicos, que o país chegou a ter nos anos 1980, e ensaiou reconstruir nos anos 2000, restam apenas 4 empresas que não conseguem atender às necessidades nacionais. E apontou iniciativas louváveis. Entre elas, a metalúrgica Gerdau (Charqueadas, Rio Grande do Sul), com produção de álcool 70%; a Ford (Camaçari, Bahia), com produção de máscaras de proteção facial; a Mercedes Benz, em parceria com o Instituto Mauá de Tecnologia e profissionais da área médica, com testes de um novo modelo de respirador pulmonar, utilizando como matéria-prima peças da indústria automotiva; e a WEG (Jaraguá do Sul, Santa Catarina), com respiradores pulmonares.

Para encerrar sua participação, o professor João Amato Neto apresentou programa voltado à capacitação, com foco na indústria 4.0, em parceria com a Universidade Nacional de Rafaela (UnRaf), na Argentina.

Para fazer o download da apresentação do prof. João Amato Neto, da Poli-USP, clique aqui.

Luiz Carlos Di Serio, professor titular do Centro de Inovação da Fundação Getúlio Vargas (FGV), destacou a pandemia de Covid-19 e a taxa de sobrevivência das MPEs (1 a 5 anos), sendo que 41% afirmaram que a pandemia foi fator determinante para o fechamento; 22% citaram a falta de capital de giro; e 20% reclamaram do baixo volume de vendas [Dados do Sebrae]. Em sua análise, não adianta investir em máquinas e equipamentos se persiste a falta de visão sistêmica na organização, se ela olha de forma departamentalizada para o negócio, para o processo, como um todo.

Veja a apresentação do professor Luiz Carlos Di Serio, da FGV.

Para encerrar as apresentações, Maycon David Stahelin, subsecretário da Secretaria Especial de Produtividade, Emprego e Competitividade do Ministério da Economia, tratou e detalhou o programa Brasil Mais, iniciativa do Ministério da Economia, em parceria com o Senai, Sebrae e ABDI.

Um fator de destaque é a produtividade média do trabalhador brasileiro que decaiu nos últimos 18 anos. Em 2000, segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o brasileiro produzia 27% do trabalhador dos Estados Unidos, 49% do sul-coreano, 73% do chileno, porém, quase 4 vezes mais do que o trabalhador chinês. “Após duas décadas, ficamos praticamente paralisados enquanto os outros países avançaram”, frisou o expositor, e fomos ultrapassados pela China, estando atrás da Argentina, Coreia e Estados Unidos.

Esse problema é mais intenso quando se olha para as pequenas e médias empresas, das micro em comparação com as grandes, em função da baixa intensidade tecnológica, da cultura da inovação, dos processos de melhoria contínua, da tecnologia e maturidade digital, da baixa qualificação média do trabalhador, apontou Stahelin. Ele reforçou a correlação existente, e inevitável, entre as melhores práticas de gestão e produtividade nas empresas.

Conforme apresentou, o Brasil Mais é o maior programa da América Latina para aumento da produtividade e competitividade das MPES, voltado à indústria, comércio e serviços, com capacitação, apoio técnico e consultorias especializadas. Como pontos positivos, baixo custo, resultados rápidos e mensuráveis e o fato de mais de 50 mil MPMEs já terem sido apoiadas ou em estarem em fase de atendimento [dados de ago/2021].

Para conhecer a apresentação Maycon David Stahelin, subsecretário da Secretaria Especial de Produtividade, Emprego e Competitividade do Ministério da Economia, clique aqui.