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Impactos nas relações internacionais serão desafio para próximo governo brasileiro

Impactos nas relações internacionais serão desafio para próximo governo brasileiro

Isabel Cleary, Agência Indusnet Fiesp

Os constantes desafios que se interiorizam no âmbito da ordem internacional vêm modulando a forma como governos, empresas e sociedade civil estão se relacionando. A transformação das cadeias econômicas, a crescente complexidade das rivalidades geopolíticas e as constantes mudanças tecnológicas também estão moldando os debates das relações internacionais, que hoje é tema imprescindível para traçar as estratégicas comerciais de um país.

O Conselho Superior de Estudos Nacionais e Política (Cosenp) da Fiesp convidou o presidente do Instituto de Relações Internacionais & Comércio Exterior (Irice), Rubens Barbosa, que também foi embaixador do Brasil em Londres (1994-1999) e em Washington (1999-2004), para discutir com o presidente do Consep, Michel Temer, e conselheiros, sua visão sobre o tema no cenário atual. O encontro híbrido ocorreu nesta segunda-feira (18/7).

Barbosa iniciou sua fala com um alerta. De acordo com o especialista, as relações internacionais são tratadas de maneira secundária no Brasil, considerando a sua importância para um país. “Por uma série de fatores, as relações internacionais interferem em todos os países. Por conta da globalização e dos princípios geopolíticos, há uma interindependência entre os países, ou seja, o que acontece lá fora tem impacto no Brasil, principalmente por ser um país ainda muito dependente”, apontou Rubens.

Para o ex-embaixador, hoje, a importância das relações internacionais para todos os países decorre de uma interdependência gerada nos últimos 20, 30 anos, pela globalização, que começou na área financeira e depois se estendeu para outras áreas, e que hoje coloca os acontecimentos, em qualquer setor, imediatamente em contato com a realidade de cada um dos países. “Ultimamente, as questões geopolíticas afloraram. E agora, com a guerra da Ucrânia, ficou ainda mais importante”, ressaltou.

Em reunião do Cosenp, Conselho Superior presidido por Michel Temer, impacto das relações internacionais no cenário brasileiro foi tema central. Fotos: Ayrton Vignola/Fiesp

Em reunião do Cosenp, Conselho Superior presidido por Michel Temer, impacto das relações internacionais no cenário brasileiro foi tema central. Fotos: Ayrton Vignola/Fiesp


Impactos nas Relações Internacionais

Os fatores externos têm um impacto sobre todos os países e em todos os aspectos: na formulação da política econômica e financeira, no comércio exterior e na política externa. Rubens explica que o mundo mudou desde a pandemia da Covid-19 e a guerra entre Ucrânia e Rússia. Por isso, não se pode mais analisar o Brasil dentro de um contexto pré-2020. “As condições externas se alteraram completamente. Tiveram grandes transformações
tecnológicas, a Inteligência Artificial e o 5G. Essa tecnologia vai transformar a indústria, e vem de fora. Quem não for atrás dessa do 5G, vai ficar pra trás”, disse. Ainda segundo o especialista, na questão geopolítica, o ataque da Rússia à Ucrânia é o fato mais relevante desde a queda do muro de Berlim, em 1989, pois se cria uma divisão entre
os países. Além disso, a globalização sofre ajustes com movimentos importantes a partir da pandemia e da guerra na Europa. O primeiro é uma volta ao protecionismo; o segundo, o unilateralismo, em que os países, por uma questão de sobrevivência e com o intuito de resguardar o interesse da população, deixaram de lado a teoria liberal.

“O que vemos na Europa e nos Estados Unidos, por exemplo, é um movimento para evitar a dependência externa da produção de produtos em áreas consideradas estratégias. Ou seja, os países estão querendo se proteger, por meio de tarifas, medidas de restrição ou medidas com proibição de exportação de produtos agrícolas como a soja, o milho e o trigo, para evitar a falta de produtos essenciais da alimentação”, observou Rubens.

Outro fator que deve ser afetado com as atuais mudanças no mundo é o sistema monetário internacional. De acordo com o ex-embaixador, os Estados Unidos congelaram as reservas russas em dólar, e isso nunca foi feito nessa escala, e essa é uma medida unilateral, o que gera uma incerteza no sistema monetário internacional. Mais um impacto, que já é sentido, se deu nos organismos internacionais, como a organização Mundial do Comércio (OMC), o Grupo dos 20 (G20), o Grupos dos Sete (G7) e a Organização das Nações Unidas (ONU), nos quais a situação ficou sensível devido à participação da Rússia como membro do Conselho de Segurança. “Nenhuma resolução é aprovada na ONU.
As organizações multilaterais perderam a força que tinham desde a sua constituição”, observou Barbosa.

A América do Sul e o Brasil

Segundo o ex-embaixador, a América do Sul foi muita afetada pela crise sanitária mundial e pelas consequências da atual guerra e, no Brasil, o próximo governo deverá lidar com estes problemas. “Quanto mais durar essa guerra, pior vão ser as consequências das sanções. Além disso, todo esse cenário atual tem um impacto sobre a economia. O próximo governo do Brasil vai assumir o país com uma economia impactada pelo cenário global, de recessão e
inflação maior, além de uma vulnerabilidade e dependência do país com as importações de produtos essenciais como os fertilizantes e o trigo, por exemplo. Essa é uma questão muito séria e que hoje está passando à margem” alertou.

Michel Temer reforçou a importância das relações multilaterais na América do Sul, hoje marginalizada no cenário global. De acordo com o presidente do Cosenp, a Constituição brasileira diz que toda política pública deve levar em conta uma aliança latinoamericana de nações. “Na América Latina, há uma ideia de divergência ideológica afastadora dos países, quando, na verdade, essa divergência não tem que ser levada em conta, ela pode ser
objeto de críticas. As relações internacionais são pautadas não somente por uma força institucional, mas também por uma força comercial. São interesses que guiam as relações entre os países. Então, você pode ter discordância ideológica com vários países, mas não pode ter dissidência de natureza comercial, porque isso diminui o nosso país. Quem for eleito, tem que levar em conta ensinamentos dessa natureza”, avaliou Temer.

Além dos desafios que virão, Barbosa destacou as oportunidades para o Brasil a partir do período pós-pandemia e pós-guerra na Ucrânia. Para o ex-embaixador, no comércio exterior há uma concentração de mercados e produtos de exportação, e há oportunidade de diversificar esse mercado, além das fontes supridoras do Brasil, ou seja, desenvolver essas fontes internamente.

Outros exemplos são as terras raras – o Brasil é o segundo maior produtor do mundo -, além dos minerais. “Temos que escolher alguns setores estratégicos e fortalecer a indústria para produzir esses produtos que são essenciais para o Brasil. Temos que nos atentar a essas oportunidades que levam à reindustrialização”, finalizou o ex-embaixador Rubens Barbosa.