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Ideia de câmbio muito desvalorizado ser positivo à indústria é errada, afirma sócio da LCA Consultoria

Às vésperas do seminário Reindustrialização do Brasil, organizado pela Fiesp e marcado para esta segunda-feira (26/08), Bernard Appy fala sobre politica fiscal, câmbio e agenda de produtividade

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

Fator decisivo para a competitividade da indústria, o câmbio figura em primeiro lugar na lista de queixas dos empresários. Quando está muito valorizado torna o produto brasileiro menos competitivo em relação ao estrangeiro, o que é ruim para o setor manufatureiro do país. Por outro lado, se houver uma desvalorização acentuada, aumenta o custo dos insumos importados por essa mesma indústria e, consequentemente, eleva o preço do produto nacional, derrubando sua participação no mercado doméstico.

“É por isso que, na verdade, achar que quanto mais o câmbio estiver desvalorizado melhor é um erro”, avalia o sócio da LCA Consultoria e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Bernard Appy.

O consultor será um dos palestrantes do seminário Reindustrialização do Brasil, organizado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), nesta segunda-feira (26/08), na sede da federação, na Avenida Paulista. Ele participará do  painel “Entraves Estruturais e Macroeconômicos à competitividade da economia brasileira: impactos na indústria”. O evento será realizado das 9h às 17h.

Bernard Appy falará sobre entraves estruturais à competitividade da economia brasileira no seminário da Fiesp nesta segunda-feira. Foto: Patrícia Cruz/Luz

Bernard Appy falará sobre entraves estruturais à competitividade da economia brasileira no seminário da Fiesp nesta segunda-feira. Foto: Patrícia Cruz/Luz

Dessa forma, para ter um nível de câmbio que faça o Brasil se reindustrializar, sem afetar drasticamente a inflação, o país precisa ter uma taxa poupança “muito maior” que os níveis atuais. “Não adianta querer colocar o câmbio no lugar com o resto do desenho macroeconômico que você tem no Brasil. Aí, a política se torna inconsistente”, avalia.

Appy pondera, no entanto, que o país não quer ter uma poupança elevada. “O Brasil é um país que tem uma política de proteção social que desestimula uma poupança mais alta, mas é uma opção”, afirma.

O economista acredita que alguns setores industriais podem voltar a se tornar competitivos se o câmbio permanecer no nível da última quinzena, acima de R$ 2,30. Mas a ideia de querer fazer com que todos os segmentos sejam competitivos é pouco praticável. “Essa política de tentar salvar todo mundo acaba tendo um custo social mais elevado”, afirma.

A desvalorização cambial que está em curso se deve em parte pelo cenário externo, já que o dólar está subindo em outros países por conta de expectativas de recuperação da economia norte-americana e fim do ciclo de injeção de moeda no mercado por parte do Federal Reserve (o banco central dos EUA).  Outro fator que estimula a divisa norte-americana são as perspectivas negativas, principalmente por conta da gestão da política fiscal mais expansionista.

“Se quiser ter câmbio mais baixo vai ter de ter uma politica fiscal mais dura do que se tem hoje. Não tem mágica”, explica o sócio da LCA.

Reindustrialização

O seminário Reindustrialização do Brasil, organizado pela Fiesp e com a participação de Appy, reforça um antigo pedido da indústria brasileira por planejamento de médio e longo prazo, além de um projeto nacional para o desenvolvimento do setor produtivo do país.

Além dos entraves macroeconômicos, conforme o economista, o Brasil tem problemas de produtividade e o assunto merecia mais espaço dentro da agenda do governo. Se o país enfrentasse esse problema de baixa eficiência econômica, poderia crescer a taxas semelhantes a 5% ao ano.

Na opinião de Appy, duas medidas que poderiam ter um efeito positivo sobre a agenda de produtividade do país não foram plenas. A primeira seria continuação da reforma do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), a qual “o governo até tentou de um jeito, em princípio bem desenhado, mas aparentemente parou”. Outra ação seria a reforma do PIS e Cofins “que também teria um efeito muito positivo sobre a eficiência da economia brasileira”.

Ele acredita que, no âmbito macroeconômico, uma política fiscal menos expansionista seria mais favorável à competitividade da indústria brasileira, já que um modelo mais contracionista permitiria um câmbio mais desvalorizado e juros mais baixos simultaneamente.

Desestímulo ao crescimento

Segundo o economista, instrumentos como o regime de pagamento simplificado de impostos desestimula pequenas empresas de aumentarem seu negócio. “O que acontece no Brasil é que você tem as pequenas empresas com cargas tributárias mais baixas do mundo e, ao mesmo, a carga tributária mais alta do mundo para as grandes empresas, o que se provoca nesse caso é um desincentivo enorme para a empresa crescer”, explica.

Ele acredita, no entanto, que para o governo é mais fácil continuar com uma política fiscal expansionista até porque isso traz um redistributivo (divisão equitativa da renda) positivo, apesar de piorar o desenho macroeconômico.

Mesmo com um rearranjo macroeconômico, a economia brasileira poderia crescer 3,5% ao ano se a eficiência da atividade econômica não fosse priorizada, caso contrário o país poderia crescer até 5% ao ano, explica Appy. “O nível de crescimento potencial de um país depende de como você conduz sua política econômica”.