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Fiesp e UFRJ divergem sobre papel da China na economia mundial

Debate sobre alternativas estratégicas entre Brasil e China, na Fiesp, registra opiniões diferentes

Solange Sólon Borges, Agência Indusnet Fiesp

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O presidente do Cosec/Fiesp, Delfim Netto (esq.), e o professor da UFRJ, Antônio Barros de Castros, na Fiesp

O Brasil gira na órbita asiática, incluindo a sua indústria, pois o modelo chinês impôs grave ruptura na economia mundial. A avaliação foi feita por Antônio Barros de Castro, professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e presidente do Conselho do Instituto Brasil-China (Ibrac). Castro integrou, nesta segunda-feira (9), a reunião do Conselho Superior de Economia (Cosec) a fim de debater alternativas estratégicas na relação entre os dois países.

Para o professor, a atual estrutura da indústria na maioria dos países se condicionou, em alguma medida, à China. Enquanto muitos já tomaram consciência desse processo e reagem, “o Brasil se mantém um pouco à margem, pois a China esteve presente primeiro em outros mercados e chegou depois aqui, mas de forma abrupta”, avaliou. E prosseguiu: “Nesse momento no qual o País retoma seu crescimento, após 25 anos de estagnação, o problema será ‘como’ fazer isso, ao redirecionar os rumos da indústria e se adaptar a esse mundo sinocêntrico”.

O presidente do Cosec, Delfim Netto, levantou um ponto de vista divergente: “O que o Brasil quer ser [no futuro] não pode se subordinar ao que a China está decidindo ser agora. O mundo não condicionará o seu crescimento em função da China, mas esta é que terá de se adaptar à economia mundial”.

Para o ex-ministro, um dos pontos estratégicos é o País ter a capacidade de pensar sobre si mesmo a fim de aproveitar suas reais oportunidades. Delfim Netto citou o setor automobilístico brasileiro, que foi capaz de desenvolver carros 100% nacionais, tecnologia própria, além de outras vantagens competitivas, como o Pró-Álcool.

Antônio Barros de Castro retratou a área automobilística chinesa: 85% da produção resultam de empresas que mantêm acordos com todas as multinacionais, somando quase 18 milhões de unidades/ano, número similar à produção brasileira. O professor citou como exemplo a Chery, que fabrica o veículo QQ, comercializado na China a US$ 8 mil e, no Brasil, a R$ 22 mil, ou seja, preços populares “arrebentando mercados”, em sua avaliação.

Uma nota só

A China fez a opção de produção segmentada e pratica novidades organizacionais com a criação de polos produtores de um só bem, constituindo clusters gigantescos ligados a municipalidades, segundo explicou o presidente do Ibrac. Ele lembrou que aproximadamente 90% do sistema produtivo se dão de forma privada e as multinacionais, quando ali desembarcam, são obrigadas a se associar a um investidor local.

Castro exemplificou que uma única cidade chinesa é capaz de responder por 70% dos isqueiros fabricados mundialmente, o que leva à obtenção de custos e preços jamais alcançados. Há outros movimentos registrados no campo das telecomunicações e de equipamentos médicos, que não se traduzem em tecnologias alternativas e inovadoras, mas sim na miniaturização e redução drástica dos valores dos aparelhos em uso.

Em função desses novos processos organizacionais, de logística, distribuição e estratégias de inserção que a China se diferencia, somando mais de duzentos acordos de cooperação internacional, conforme enfatizou o professor da UFRJ.