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Fast fashion tem que ser produzido no Brasil, diz na Fiesp presidente das Lojas Renner

José Galló participa de reunião plenária do Comtêxtil

Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

“Estamos entrando em 2017 com o pé direito”, disse Elias Miguel Haddad, coordenador do Comitê da Cadeia Produtiva da Indústria Têxtil, Confecção e Vestuário da Fiesp (Comtextil), ao apresentar José Galló, diretor-presidente das Lojas Renner, convidado para fazer palestra nesta quinta-feira (26/1) durante a primeira reunião plenária de 2017 do Comtextil.

Com lojas em todos os Estados brasileiros, a Renner é líder na venda de roupas no Brasil, disse Galló, ressaltando que a empresa tem atualmente valor de mercado de US$ 5 bilhões. Ele abriu uma exceção em sua política de não fazer palestras para participar da reunião do Comtextil.

Em relação ao fornecimento, Galló disse que a Renner quer ter no máximo 30% de produtos importados – e parte disso, de roupa de inverno e outros itens que a indústria local não fornece. “Precisamos da cadeia nacional.”

Em relação ao nível atual de câmbio, disse que não importa o valor do dólar – o fast fashion tem que ser feito no Brasil, pela necessidade de velocidade. Galló revelou também que a Renner vai começar a atuar em outros países, começando pelo Uruguai.

Além de criticar a carga brutal de impostos no Brasil, Galló chamou de desastre a guerra fiscal entre os Estados, com as barreiras nas divisas afetando a produtividade e a logística. “São os advogados e os contadores que definem onde serão instalados nossos centros de distribuição.”

No encerramento, Haddad disse que a agenda positiva do Comtêxtil deve passar a ter como prioridade a aproximação com o varejo. “Temos que procurar as oportunidades”, afirmou. E a grande oportunidade, destacou, é o fast fashion. Pediu a Galló o apoio do varejo ao RTCC (Regime Tributário Competitivo para a Confecção).

O presidente da Renner falou em sua apresentação sobre o relacionamento com a indústria. Revelou, por exemplo, que a empresa criou uma equipe de dez engenheiros responsável por melhorar processos nos fornecedores. Também disse que é uma grande preocupação da Renner a sucessão nas empresas familiares do setor têxtil e de confecção.

O executivo também deu um recado. O varejo, disse, Galló, vai se concentrar, e a indústria precisa aprender a lidar com isso.

Reunião do Comtextil da Fiesp com a participação de José Galló, presidente das Lojas Renner

Reunião do Comtextil da Fiesp com a participação de José Galló, presidente das Lojas Renner. Foto: Everton Amaro/Fiesp


A cultura da Renner

“Quanto mais eu vivo, mais eu valorizo a cultura de uma empresa”, afirmou Galló. O grande desafio de quem cria essa cultura –normalmente o iniciador do negócio- é fazer que todos os seus colaboradores a incorporem, para assegurar a perenidade da empresa.

Destaca entre os valores das Lojas Renner a tentativa de encantar seus clientes. Ela criou uma escala batizada de encantômetro, que mostra 66% de clientes encantados e 30% de satisfeitos, a partir de 18 milhões de opiniões colhidas por ano.

Para conseguir esse resultado, a Renner investe no pessoal. “Gente, para a empresa, é tudo”, disse Galló. Ela busca fazer os colaboradores se sentirem donos do negócio. O propósito que a empresa tenta incutir em seus colaboradores é se dedicar a uma causa maior que a si próprio. O grau de engajamento chega a 87%, contra 60% do varejo brasileiro em geral. “Nosso grande desafio é manter isso.”

Um dos princípios da empresa é o empoderamento dos colaboradores. Eles podem, por exemplo, pegar dinheiro do caixa da loja para resolver um problema criado para qualquer cliente. Em média, cada colaborador passa por 120 horas de treinamento por ano.

Uma das iniciativas para valorizar os funcionários foi a criação de uma seção de histórias de encantamento, para descrever episódios em que clientes são beneficiados. São 778 mil histórias escritas desde 1996, o que Galló chamou de patrimônio líquido da empresa.

A Renner, explicou, se esforça para ser marca com significado. Procura ter posicionamento consistente, com definição clara sobre quem é o cliente – que está nas faixas A-, B e C+. E as mulheres são maioria. A proposta de valor da empresa é ser a marca cúmplice da mulher moderna, facilitando ao máximo sua passagem por uma loja da Renner.

A empresa, afirmou o presidente, procura manter a disciplina constante, que se traduz em não cair na tentação de querer fazer o que não sabe fazer, para um público que não conhece. Em sua opinião, não se pode deixar de ser inovador, mas essa inovação tem que ser dirigida para o que gera valor.

A estrutura da empresa é enxuta, e há uma busca pela simplicidade. Galló fez uma análise de si mesmo e buscou se simplificar. É preciso saber dizer não, afirmou.

Depois disso, a Renner fez uma convenção e criou leis da simplicidade, que incluem confiar mais, questionar mais antes de fazer, eliminar os melindres inimigos da simplicidade, remover tudo o que o cliente não quer pagar.

Ao analisar os resultados dessa política, a Renner concluiu que precisava estimular os colaboradores a errar mais, a não ter medo de tentar, para ganhar velocidade.

A Renner, disse Galló, faz melhorias constantes, mesmo em momentos mais favoráveis de mercado. A mensagem, disse, é que é preciso evoluir sempre, em estratégia e em produtos financeiros.

O inconformismo faz parte das características da empresa, que sempre acha que dá para melhorar. “Não sabendo que é impossível, nós vamos lá e fazemos.” Exemplo é ter aberto 28 lojas em um ano e meio, depois de ter demorado 40 anos para criar as 21 primeiras.

Galló destacou que muitas vezes não se consegue ou não se quer ver a realidade, e isso impede de resolver problemas.