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Fantasia e realidade amazônicas ganham foco na exposição ‘O Norte sem norte’: fotografias de Elza Lima

A mostra da fotógrafa paraense, sob curadoria de Eder Chiodetto, estreia no Centro Cultural Fiesp em 21 de janeiro, com imagens realizadas nos últimos 30 anos, parte delas, inéditas

Raisa Scandovieiri, Agência Indusnet Fiesp

O Norte sem norte propõe uma viagem ao mundo cifrado, poético e imensamente humanista de Elza Lima. Sem norte, pois a ordem é a desorientação dada pela justaposição inesperada de planos que se sucedem, de composições que aludem ao extracampo e criam a curiosa percepção de que fotografias não cabem em fotografias. Como se Elza nos levasse a seguir construindo um mundo onírico transpondo os limites de suas imagens-margens, imagens-fábulas”, explica o curador da exposição O Norte sem norte: fotografias de Elza Lima, Eder Chiodetto, que estreia na Galeria de Fotos do Centro Cultural Fiesp dia 21 de janeiro. A entrada é gratuita, mas é necessário realizar agendamento prévio de ingressos para o tour cultural no sistema Meu Sesi (www.sesisp.org.br/eventos).

A curadoria optou por mostrar várias facetas da produção da premiada fotógrafa paraense, que completará 70 anos em 2022, e segue em plena atividade. Imagens em preto e branco, dípticos e trípticos em cor, um vídeo e um oratório, formam o conjunto de obras expostas, realizadas entre 1987 e 2020.

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A ideia de juntar a produção mais antiga de Elza e a série Corpos d’água, realizada nos anos 2000 nos rios Arapiuns e Tapajós, no baixo Amazonas, surgiu em uma das visitas do curador ao ateliê da fotógrafa, em Belém do Pará, em que Chiodetto pode conhecer o caderno de artista de Elza. As imagens de Corpos d’água, organizadas em dípticos e trípticos, uma nova vertente expressiva da artista, exibem mulheres pescadoras de ascendência indígena que tecem redes e, ao mesmo tempo, a vida de suas famílias e comunidades.

Na exposição inédita que o Centro Cultural Fiesp apresenta agora, parte da série Corpos d’água surge mesclada com a produção em preto e branco que projetou o nome de Elza Lima no campo da fotografia contemporânea. São imagens que destacam o dia a dia das populações ribeirinhas, como as brincadeiras de crianças, a religiosidade e a relação íntima e fabular com as águas.

Criada entre adultos que estimulavam a sua imaginação com fábulas e mitos da literatura, Elza desde sempre percebeu a existência como uma mescla entre fantasia e realidade. Para uma fotógrafa, isso signifi­ca registrar parcelas não visíveis da percepção, e, no caso de Elza, sintetizam a riqueza da cultura amazônica e do Norte do Brasil.

Dentre os destaques, está uma das obras preferidas da própria Elza, realizada em 1998. A imagem é formada por uma sucessão de planos independentes: um garoto deitado na areia, uma borboleta pousando em uma mão, outra mão segurando um peixe, além de outras situações que se prolongam na finitude do fotograma. “Ela representa muito do meu trabalho”, diz a fotógrafa. “Era uma viagem em que  tinha toda a infraestrutura que  poderia desejar, mas acabei adoecendo no meio do percurso pelo rio Trombetas, em um lugar onde não havia médico. Do barco, onde apreciava a paisagem, o menino, colocando areia no corpo, chamou minha atenção no percurso, até que a cena se construiu. A viagem que prometia muito foi encerrada com a volta à cidade para tratamento médico. Fiquei achando essa imagem um presente das águas para consolar”.

“Ela organiza os planos como se as coisas que vemos acontecessem independentemente e nos leva a pensar que a realidade é sempre maior do que o que vemos, já que o tempo da fotografia não é o tempo do mundo”, comenta o curador, que ainda destaca o olhar de grande originalidade de Elza, formado em parte pelos cortes abruptos e inesperados na composição. Sobre isso, ela conta que, quando pequena, gostava de emoldurar as paisagens que passavam no enquadramento da janela da casa dos avós no interior do Pará, de frente para um rio. “O inesperado me dava prazer quando criança”, lembra. 

Imagem relacionada a matéria - Id: 1614464708Sobre Elza Lima

Uma das mais importantes fotógrafas paraenses em atividade, Elza nasceu em Belém do Pará, em 1952. Em sua infância, encontrou uma fonte de inspiração nas conversas com seus avós e no local onde cresceu. Nesta exposição, ela retrata o interior da região amazônica por meio de um mergulho fundo em suas vivências e memórias do dia a dia ribeirinho e invocando o imaginário enriquecido e ampliado por meio da literatura, da música e da mitologia locais. Seu trabalho, iniciado em 1984, é dedicado aos espaços amazônicos e sua produção se caracteriza pela utilização dos cenários abertos, captando situações oníricas de um tempo de aceleradas mudanças.

Em reconhecimento ao seu vasto e importante trabalho, recebeu o prêmio de fotógrafa do ano, em 1990, concedido pela Associação dos Artistas do Pará, e o Prêmio José Medeiros do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ). No ano seguinte ganhou o Prêmio Marc Ferrez da Funarte, entre outros. Além do Brasil, realizou exposições na Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Espanha, França e Portugal. Suas obras podem ser encontradas em coleções de museus pelo mundo todo. Atualmente desenvolve trabalho de pesquisa sobre as pescadoras do Porto do Milagre em Santarém, região do Baixo Amazonas, além de ministrar cursos e palestras no Brasil e exterior. Parte de sua obra em preto e branco foi editada no livro “Elza Lima”, integrante da Coleção Ipsis de Fotografia Brasileira, sob curadoria de Eder Chiodetto.

Sobre o curador

Mestre em Comunicação pela ECA-USP, Eder Chiodetto é jornalista, editor, professor e curador independente, tendo realizado mais de 120 exposições no Brasil e no exterior. Atuou por 13 anos na Folha de S.Paulo como repórter fotográfico, editor e crítico de fotografia. Atualmente é curador do Clube de Colecionadores de Fotografia do MAM-SP, publisher da Fotô Editorial, diretor do centro de estudos Ateliê Fotô e mentor do programa Arte na Fotografia, do canal televisivo Arte1. É autor e editor de diversos livros de fotografia.

Serviço:
O Norte sem norte: fotografias de Elza Lima
Período: de 21 de janeiro a 1º de agosto de 2021
Horário: quinta a domingo, das 13h às 19h
Local: Galeria de Fotos do Centro Cultural Fiesp
Endereço: Av. Paulista, 1313 – em frente ao Metrô Trianon-Masp
Classificação indicativa: livre
Grátis. Reserva de ingressos pelo tour cultural em www.sesisp.org.br/eventos