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Falta no Brasil uma estratégia bem definida de política industrial, diz diretor da Fiesp

José Ricardo Roriz Coelho participou do segundo dia de debates do 11º Fórum de Economia da FGV-SP

Alice Assunção, Agência Indusnet Fiesp

O insucesso das recentes políticas industriais implementadas pelo governo praticamente se deve ao ambiente não competitivo enfrentado pela indústria, em meio a pesadas cargas tributárias, insegurança jurídica e elevados custos de produção, afirmou na tarde desta terça-feira (16/09) o diretor do Departamento de Competitividade e Tecnologia (Decomtec) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), José Ricardo Roriz Coelho.

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José Ricardo Roriz Coelho no 11º Fórum de Economia da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP). Foto: Everton Amaro/Fiesp

No entanto, ele ponderou que, não fosse a adoção de medidas como a desoneração tributária para alguns setores, o desempenho da indústria poderia ser “muito pior”. Mas lembrou que para produzir no Brasil os empresários sofrem uma desvantagem de 34,7% nos custos na comparação com os de outros países.

Roriz alertou ainda que o país fracassa em estabelecer uma política industrial mais abrangente. “O que falta para o Brasil é uma estratégia bem definida e clara de política industrial. E ela tem de estar inserida numa estratégia de crescimento do país”, afirmou o diretor ao participar do segundo e último dia de discussões e análises do 11º Fórum de Economia da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP).

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“Fatos e dados demonstram que investir hoje numa atividade industrial, além de ter risco muito alto, tem retorno muito menor do que o dinheiro aplicado no mercado financeiro”. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Em sua exposição, ele afirmou ainda que “períodos difíceis de ajustes que devem ser feitos” a partir dessa nova política serão necessários, mas não devem mitigar as intenções de investimento do setor produtivo do país. “Caminhando na direção correta, sem dúvida, você iria atrair investimento.”

O diretor também reforçou os obstáculos impostos pela insegurança jurídica ao setor manufatureiro. “Para tirar uma licença que pode atrasar dois, três anos, você mata o investimento e empresa perde sua capacidade de investir”, exemplificou.

Na véspera, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou em São Paulo o estabelecimento de uma agenda, em articulação com a Confederação Nacional das Indústrias (CNI), com o objetivo de reduzir a insegurança jurídica em torno de questões tributárias e trabalhistas.

Rentabilidade dos investimentos

Ainda sobre o investimento, Roriz apresentou números da recente pesquisa da Fiesp sobre a rentabilidade do investimento feito na indústria.

Segundo o levantamento “Implicações do Desempenho da Rentabilidade e da Margem de Lucro nos Investimentos da Indústria de Transformação”, elaborado pelo Decomtec/Fiesp, empresários que investiram na indústria de transformação entre 2008 e 2012 tiveram um rendimento de 47%, enquanto as aplicações financeiras renderam, durante o mesmo período, embolsos de 62% do valor total investido.

Em valores reais, de R$ 1 bilhão investido na indústria entre 2008 e 2012, houve retorno de R$ 469 milhões em rendimentos líquidos, já descontado o imposto de renda. Enquanto isso, o mesmo montante aplicado em uma aplicação financeira sem risco, como Renda Fixa, rendeu R$ 624,3 milhões no mesmo período.

“O empresário pode ser tudo menos bobo. Ele olha as projeções. E os fatos e dados demonstram que investir hoje numa atividade industrial, além de ter risco muito alto, tem retorno muito menor do que o dinheiro aplicado no mercado financeiro”, comentou.

Menor participação do PIB em 70 anos

Segundo Roriz, a participação da indústria no Produto Interno Bruto (PIB), que chegou em 13,1 em 2012%, o menor patamar dos últimos 66 anos.

“Já chegamos a 27% de participação e nesse primeiro semestre devemos ficar perto de 12%, a participação mais baixa nos últimos 70 anos”, complementou.

Mesmo com uma participação tímida no PIB, a indústria contribuiu em 2012 com 30,4% da carga tributária do Brasil, acrescentou o diretor.

Sem política de comércio externo

Vera Thortensen, professora e pesquisadora da FGV, também participou dos debates desta tarde no fórum da fundação. Ela defendeu o debate por uma política de comércio exterior e sugeriu a criação de um pacto da indústria com o governo que assumir a administração do país em 2015 para uma abertura comercial brasileira.

“Sem política de comércio externo não existe política industrial. A visão de se ter um Brasil isolado do mundo simplesmente não existe”, afirmou a professora, que também é membro do Conselho Superior de Comércio Exterior (Coscex) da Fiesp.

Quanto ao acordo, Vera afirmou que no pacto o governo vai fazer sua parte, mas a empresa vai permitir esse tipo de competitividade. “Por que não fazer uma política de abertura de novo?”, questionou.

Segundo Vera Thortensen, negociações comerciais do Brasil com outros países envolvendo tarifas, regras de origem conteúdo local “são instrumentos de política do mundo que o Brasil não está percebendo que acabou”.

“O mundo que percebo lá fora é de regulação, onde o consumidor manda, o produtor não manda mais nada”, disse. “Não adianta subir tarifa”, completou.