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Falta de competitividade do Brasil afeta a indústria, diz Paulo Skaf na Globo News

Presidente da Fiesp concede entrevista ao programa Conta Corrente

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Skaf na Globo News: 'Quando os juros caem não significa que melhora a situação no mês seguinte'

Agência Indusnet Fiesp

Em sua participação no programa Conta Corrente, do canal de TV paga Globo News, na noite desta terça-feira (10/07), no Rio, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, disse que a indústria de transformação passa por momentos de dificuldade por conta da falta de competitividade do Brasil.

Na entrevista concedida a Guto Abranches, Denise Barbosa e George Vidor, Skaf comentou o mais recente resultado da Pesquisa Industrial Mensal de Emprego e Salário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e enumerou fatores que reduzem a competitividade brasileira: custo elevado de energia, defasagem cambial, juros e spreads bancários elevados e investimentos insuficientes em infraestrutura, entre outros.

O presidente da Fiesp disse ainda que as medidas adotadas pelo governo federal levam tempo para refletir nos indicadores. Como proposta para aquecer a economia brasileira, Skaf propôs o alongamento do prazo para recolhimento de impostos.

Veja os principais trechos da entrevista de Paulo Skaf ao Conta Corrente:

Crescimento da atividade industrial em 2012

Paulo Skaf – Vai ser difícil melhorar neste ano porque o que está acontecendo com a indústria de transformação, nós [da Fiesp] temos falado há algum tempo: no ano passado não teve crescimento nenhum – foi crescimento zero, o que foi uma das causas do crescimento [do Produto Interno Brasileiro] de 2,7%], muito abaixo do crescimento mundial, muito abaixo do crescimento dos países da América Latina. E este ano a coisa está se repetindo. O crescimento mundial deve ficar em torno de 2,4% e o da América Latina, em 3,5%. E o Brasil está com uma expectativa de 1,8% e a indústria de transformação em 0,8% negativos. A indústria como um todo deve ter até crescimento por causa [dos setores] da construção civil e da mineração. Mas o que mais interessa ao Brasil são as indústrias de transformação, onde se emprega intensivamente e onde estão os melhores salários. E [esta] passa dificuldades por falta de competitividade do Brasil.

Causas das dificuldades

Paulo Skaf – O problema não está da porta para dentro das fabricas. Está no custo elevado da energia, do gás, na logística cara, nos juros elevados – a taxa Selic está baixando, mas os spreads ainda são altos, aquilo que a indústria toma [emprestado] ainda é alto. O câmbio melhorou, mas estamos vivendo um câmbio 10% maior do que era em 2000 e de lá para cá tivemos 120% de inflação. A somatória de tudo isso prejudica muito a competitividade do Brasil e a indústria da transformação. Por ser a indústria que transforma matérias-primas, produtos, ela tem fluxo mais demorado. Esses custos do Brasil pesam sobre ela muito mais do que em outros setores.

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'O que precisamos é que o Estado cumpra o seu papel e ajude na recuperação da competitividade do Brasil', disse presidente da Fiesp ao Conta Corrente.

Pontos a melhorar

Paulo Skaf – Os contratos de concessão vencem em 2015, é necessário chamar novos leilões, isso leva um tempo. Estão falando em baixar o preço, mas não há uma consistência, por enquanto. O mesmo em relação ao gás. Em relação aos investimentos de infraestrutura, a velocidade não é aquela que o Brasil precisa para baratear a logística, custos que nós temos e os outros não têm. Os juros, a taxa básica, estão baixando? Estão. Mas o spread ainda não. Ainda custa caro – e muito caro – para a empresa tomar dinheiro emprestado.

Reação às medidas do governo

Paulo Skaf – Tivemos algumas melhoras. Essas coisas não respondem no mês seguinte. Quando os juros caem não significa que melhora a situação no mês seguinte. Leva seis meses para melhorar.

Juros

Paulo Skaf – Em setembro do ano passado, a taxa Selic estava em 12,5%. E a previsão da inflação para 2012 era de 5,5%. Hoje a Selic está com 8,5%, com possibilidade de cair e a projeção de inflação é de 4,5%. Espero que o Copom, com responsabilidade, reduza um ponto, para 7,5%, que isso é bom para o Brasil. Quando o Banco Central começou a baixar [a taxa Selic], havia comentários que [o governo] iria abandonar a meta da inflação, ficava aquele terrorismo todo. Nós que defendíamos que os juros deveriam baixar. Os juros saíram de 12,5% para 8,5% e a inflação de 5,5% para 4,5%. Baixou a inflação. São quatro pontos a menos na dívida pública, que é de dois trilhões de reais, o que significa 80 bilhões de reais a menos. É o orçamento da saúde que o governo vai deixar de pagar no campo da especulação.

Competitividade brasileira

Paulo Skaf – Se pegar a empresa mais moderna do mundo, a mais competitiva do mundo, colocar no Brasil e impor a ela os juros que nós pagamos, a defasagem cambial que nós tivemos, se colocar o custo logístico, o custo da energia, o custo do gás, enfim, se colocar todos esses fatores, mais a falta de competitividade por falta de qualidade da educação que nós temos, [ela terá reduzida sua competitividade]. Isso tudo não é um problema pontual da indústria – é um problema do país. Eu diria que não seria justo falar que o problema ou solução está dentro da empresa. Há empresas que são referências mundiais instaladas no Brasil e que têm problema de competitividade.

Mais prazo para recolher impostos

Paulo Skaf – O Brasil tem um modelo de iniciativa privada. O que nós pedimos ao Estado é aquilo que depende do Estado. Por exemplo: não cabe a nós tratar dos leilões que vão vencer em 2015. Dependemos da União para baixar o preço da energia. Não cabe a nós alongar os prazos de recolhimento dos impostos. Quando tínhamos inflação alta, de 80% em 1988, os prazos diminuíram. Estamos agora com 4,5% como meta [de inflação] para 2012. E, no entanto, cadê os prazos dos impostos? Além de a indústria pagar impostos altos, ainda paga 50 dias antecipado. Ela tem que tomar dinheiro emprestado, a juros altos, para pagar os impostos antecipadamente. O que precisamos é que o Estado cumpra o seu papel e ajude na recuperação da competitividade do Brasil.

Inovação

Paulo Skaf – Quando se tem um câmbio que inviabiliza o negócio, não adianta investir em inovação. A conta não fecha e a empresa vai trabalhar no prejuízo. Não adianta você aumentar o investimento em inovação que não vai ter sobrevivência. O setor elétrico intensivo não acha mais possível produzir alumínio no Brasil pelo preço da energia. Isso não tem nada a ver com a falta de investimentos em inovação ou com alguma coisa que possa ser feita pela empresa. Nós temos um problema muito sério e é bom que não se perca esse foco porque, para solucionar, precisa saber qual é o problema. Hoje é mais caro produzir no Brasil que nos EUA e na Itália. Isso não é normal. Está errado. Lógico que investimentos em inovação existem, poderiam ser maiores, tanto públicos quanto privados. Há um trabalho muito forte nesse sentido nosso.  Tenho a honra de presidir o Senai de São Paulo e temos orçadas unidades de nanotecnologia que só tem na Alemanha. Temos investido, sim, em inovação. É lógico que se pode fazer melhor, mas o problema da competitividade brasileira neste momento é um fator que vem antes deste. E sem ser resolvido não há fôlego para se investir em inovação.

Humanidade 2012

Paulo Skaf – O Humanidade 2012 [evento da Fiesp e de parceiros em paralelo à Rio+20] passou a ser a Rio+20. E lá se debateram coisas do interesse do país e do planeta. Os prefeitos [do grupo C-40] concluíram coisas positivas lá, tivemos uma reunião dos ministros de agricultura de 40 países e foi um espaço democrático, aberto a todos, que recebeu 250 mil pessoas. Ao contrário da conferência oficial, um espaço fechado, o nosso era aberto, democrático. A única coisa que me incomodou foram as filas, mas por uma questão de segurança, de qualidade da visitação, não tinha como acelerar [o andamento das filas]. Esperávamos uma visitação boa, mas chegou a ter dia com 48 mil pessoas. Aproveito para agradecer a todos que visitaram o Humanidade 2012. Fiquei muito feliz e eufórico e os resultados foram excelentes. Aproveitamos e conseguimos passar a imagem desse país maravilhoso que é o Brasil e as pessoas conhecerem coisas boas ligadas à sustentabilidade, ao equilíbrio das questões ambientais, sociais e econômicas.