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Especialista compara atual cenário político, econômico e de segurança pública mundial

Luiz Alberto Machado, do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, debateu quatro macrotendências que interferem no cenário global e no Brasil, em reunião do Consep

Milena Nogueira, Agência Indusnet Fiesp

Para apresentar um levantamento sobre política, economia e segurança pública no mundo contemporâneo, o Conselho Superior de Estudos da Política (Consep) da Fiesp convidou Luiz Alberto Machado, diretor adjunto do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial. A reunião on-line, realizada nesta quarta-feira (24/3), foi comandada pelo presidente do Conselho, Carlos Trombini.

“Para qualquer análise sobre a conjuntura econômica e política atual é preciso prestar atenção às macrotendências, ou seja, o que está acontecendo no mundo, e que tem influência sobre qualquer economia, inclusive a brasileira”, avisa Machado. Ele avalia as macrotendências divididas em quatro aspectos: o peso cada vez maior das economias asiáticas; o aumento da desigualdade; o crescimento da violência e do terrorismo; e a islamização da agenda.

A influência da China levou a uma trajetória de crescimento econômico mundial, que começou pelo Japão, na pós-recuperação da Segunda Guerra Mundial. Depois, com o crescimento dos tigres asiáticos. Logo após veio a China com crescimento de 10% ao ano, no final dos anos 1980, que escondeu por um tempo o crescimento da economia da Índia, e hoje passa por uma evolução, na análise do especialista.

O segundo fator é a desigualdade, que passa a ser foco de atenção também nos países desenvolvidos, pois existe um problema da apropriação da parcela crescente da renda nacional por uma ínfima parcela da população. “A preocupação com a desigualdade está cada vez mais acentuada no mundo, englobando países como Estados Unidos, França, Alemanha, entre outros”, pontua.

A terceira macrotendência é o recrudescimento da violência e do terrorismo, que traz também fatores potencializados pela globalização, como a pirataria, a lavagem de dinheiro e o tráfico. Contudo, para o Centro Contra o Terrorismo dos Estados Unidos, nem o Brasil nem a América do Sul são identificados como regiões de foco terrorista. A Islamização da agenda é a quarta macrotendência pontuada por Machado, e que carrega a militarização da diplomacia e o impacto nas relações internacionais.

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Luiz Alberto Machado apresenta quatro macrotendências que interferem na economia mundial

Política

Diante de avanços e retrocessos, tem-se também a multiplicação dos partidos que, para Machado, é um problema gravíssimo, porque é um dos fatores que explica a corrupção sistêmica, que favorece quatro alterações institucionais: fim da cláusula de barreira, financiamento empresarial de partidos, foro privilegiado, suspensão da prisão após a segunda instância.

“A estabilidade das instituições é fator fundamental para a tomada de decisão de um investidor, seja ele nacional ou estrangeiro, que vai avaliar com bastante cautela antes de investir no Brasil, onde as regras mudam, ora tem cláusula de barreira, ora pode financiar a empresa, ora não pode”, instiga Machado.

Aspecto Brasil

No auge da primeira onda da pandemia, as previsões para o Brasil indicavam um crescimento econômico negativo de 8 a 10% e, no entanto, foi de -4,1%. Se comparado a outros países, como Japão, Alemanha, Rússia, Colômbia, Bolívia, Argentina e México, o Brasil teve bom desempenho, conforme avalia Machado.

“O patamar que estamos hoje é inferior ao de 2010, mesmo sem a pandemia e com o crescimento subsequente que o Brasil teve ainda não foi suficiente para repor o que foi perdido em 2015 e 2016, considerando os efeitos da pandemia que influencia o crescimento deste ano, é um dos grandes desafios que temos pela frente”, afirma.

Esses grandes desafios incluem a redução da desigualdade, a retomada do nível de atividade em meio às indefinições provocadas pela pandemia, a retomada da agenda de reformas (administrativas e tributárias) e o programa de privatização, além de preparar o momento pós-pandemia, considerando o nível de desemprego e o impacto fiscal devido ao auxílio emergencial.

A insegurança tem sido uma falha, o que contribui negativamente para o desempenho de diversos segmentos, como o turismo, com impacto na economia, segundo afirma o expositor, pois o modelo de segurança pública envolve mais de 80 polícias, incluindo a nova Polícia Penal, para operar no país, com pouca convergência e regras próprias, o que torna quase impossível avaliar resultados.

Ao comparar presente e futuro, Machado conclui a análise destacando o elevado grau de polarização, uma guerra de narrativas, com notícias de diferentes fontes e bruscas alterações nas pesquisas, concluiu o convidado do Consep.