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Encontro virtual na Fiesp debate crédito para o agronegócio

Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, analisa a situação do setor em meio à crise do Covid-19

Solange Sólon Borges, Agência Indusnet Fiesp

O cenário de acesso ao crédito para o agronegócio vem mudando sob o impacto das novas tecnologias e da pandemia. Este foi o principal tema da reunião conjunta dos Conselhos Superiores do Agronegócio (Cosag) e da Economia (Cosec) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) realizado na quinta-feira (20/8), que contou com a presença do Presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.

O evento foi aberto pelo presidente da Fiesp, Paulo Skaf, que ressaltou a importância desta discussão. “Este é um debate fundamental para o desenvolvimento do Brasil”, afirmou. Campos Neto iniciou sua exposição falando do cenário macroeconômico mundial diante da pandemia. Embora a retomada da confiança ainda não seja completa, os sinais positivos começam a aparecer. “Parece que agora teremos uma melhora. A China sofreu intensamente, mas sua recuperação também tem sido rápida. O Brasil vem melhorando sua previsão em relação ao PIB e, no espectro dos países emergentes, não sofreu tanto como os demais”, avaliou. “Agora tem recuperação mais rápida com a retomada parcial das atividades.”

Ao analisar a situação do Agronegócio, o presidente do Banco Central destacou que, apesar da crise global, as exportações brasileiras continuam crescendo: “Foi um setor que não parou”. Para Campos Neto, no enfrentamento da crise, é necessário separar o que é política de liquidez de solvência. “Se não administrar adequadamente, problemas de liquidez podem se tornar problemas de solvência”, disse. Campos Neto elucidou o papel do Banco Central neste momento: “Há grande confusão sobre o que é problema de liquidez e problema de política fiscal. As políticas do Banco Central são política de liquidez para que o mercado siga funcionando, sem ruptura no mercado de capitais, para que o crédito flua naturalmente, enquanto na parte fiscal há algumas premissas estruturais a serem consideradas”, afirmou, e listou as medidas tomadas pelo Banco Central.

Crédito do agronegócio na crise do Covid-19

O BC vem atuando em diversas frentes para a modernização de crédito e apoio ao setor, especialmente em função da Resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN) n. 4.801, de 9/4/2020, com a prorrogação do reembolso das operações de crédito rural de custeio e de investimento; a contratação de Financiamento para Garantia de Preços ao Produtor (FGPP) ao amparo de Recursos Obrigatórios; e a criação de linhas especiais para pequenos e médios agricultores ao amparo do Pronaf e do Pronamp.
Segundo ele, apesar das dificuldades impostas pela pandemia, houve intensificação da contratação de crédito rural a partir de março, o que levou a um aumento das concessões em relação ao ano agrícola anterior. Ele citou como pontos relevantes o fato de o Plano Safra ter sido recorde e o forte aporte na concessão de crédito rural em 2019/2020. “O agro é o motor que está movendo o Brasil nesta crise”, destacou.

Outros pontos relevantes levantados pelo presidente do BC foram a necessidade de tornar o mercado menos público e mais privado, o que contribuirá para o equilíbrio fiscal, com mais confiança dos investidores no longo prazo; e o grande desafio que é a precificação dos ativos ambientais, pois o crédito de carbono irá mudar a forma de plantar e também o mercado. “O Brasil precisa de um conjunto de regras relativas ao crédito de carbono e sua taxonomia”, finalizou o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.

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Reunião conjunta de Cosag e Cosec se deu de modo virtual com a participação do presidente do Banco Central e dirigentes do Bradesco e do Centro Cooperativo Sicoob.  Foto: Karim Kahn/Fiesp

Mudanças estruturais na Bolsa de Valores e no mercado de capitais

Marcelo Millen, head of equity capital markets do Citi Brasil, apresentou e detalhou condições de mercado e as oportunidades de as companhias acessaram esse capital. “Nunca vimos as condições de mercado tão alinhadas como agora. Em quatro anos, a Bolsa de Valores dobrou de valor. O investidor compra ações e também um seguro de risco”, explicou Millen, ao frisar que o momento vivido pelo mercado é pujante com ofertas variáveis. Houve migração da renda fixa (formação de poupança pública) de 2018 para cá, com resgate de mais de R$ 200 bilhões, que seguiu para a renda variável, segundo informou, cuja tendência se manterá nos próximos anos. A participação da demanda local é de 70% e a internacional, 30%.

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Na análise dele, esses R$ 200 bilhões aumentaram a ‘profundidade da piscina’ de capital disponível e o número de gestores institucionais, em sua maioria, independentes, ampliando a base. Millen ainda frisou a forte e crescente presença de pessoas físicas na Bolsa e o fato de existir menos de 400 companhias listadas aqui, enquanto nos Estados Unidos elas são milhares: “isso sinaliza o tamanho da oportunidade. O agronegócio representa 25% do PIB brasileiro, mas as companhias de agro presentes na Bolsa são apenas 6, especialmente voltadas ao etanol e à proteína animal. São empresas que criam valor num setor que o Brasil tem excelência e competitividade internacional, uma vantagem competitiva”, afirmou.

Em sua conclusão, enfatizou a mudança estrutural do mercado de capitais e da Bolsa “que veio para ficar. Outra importante informação diz respeito ao fluxo de fundos para ações brasileiras que se encontra em sua máxima histórica, de acordo com o expositor.

Jacyr da Silva Costa Filho, presidente do Cosag da Fiesp, enfatizou a necessidade de o empresário se financiar sem se endividar, o que é importante para o agronegócio brasileiro, especialmente neste momento de retomada.

Em sua apresentação, José Ramos Rocha Neto, diretor-executivo do Bradesco, destacou a evolução da carteira de títulos e a estrutura de atendimento ao agronegócio com 14 plataformas, contando com especialistas e engenheiros agrônomos (70 colaboradores) e 200 agências Agro nas regiões com vocação ao agronegócio e toda equipe da agência com treinamento específico (1.684 colaboradores), em todo o Brasil.

Cooperativas de crédito para o agronegócio

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Marco Aurelio Borges de Almada Abreu, diretor-presidente do Centro Cooperativo Sicoob, explicou, inicialmente, como o cooperativismo pode impulsionar o agronegócio, permitindo que o crédito alcance o produtor, diante do saldo atual disponível de R$ 18,7 bilhões. Entre as principais culturas financiadas pelo Sicoob, encontram-se gado de corte, cana de açúcar, café, soja e milho.

Durante muito tempo o agro foi financiado basicamente pelos bancos, em parte pelos privados, em parte pelos públicos federais. “Quando olhamos para o cooperativismo, ele tem uma participação de 5% no mercado como um todo, mas, com recorte para as MPEs, ultrapassamos 10% do market share, afirmou, e acrescentou que a performance do cooperativismo tem uma evolução importante: 50% da nossa carteira de crédito rural são de recursos livres (com menos burocracia), apesar de sermos operadores, e assim avançamos na oferta de crédito, influenciado em parte pela Selic e sua queda”. O cooperativismo é a quarta força no crédito bancário para o agronegócio e, na safra 2019/2020, as cooperativas de crédito representaram 18,7% do total de recursos aplicados. “A pandemia alterou o panorama de renda fixa e estamos nos preparando para entrar no mercado de capitais”, concluiu.

O presidente do Cosag, Jacyr da Silva Costa Filho, comentou que o cooperativismo tem papel importante no crédito e também na tecnologia, é um driver de sucesso para o pequeno e médio produtor, promovendo o equilíbrio nessa relação agricultura familiar e a empresarial.