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Agronegócio brasileiro vive bom momento, mesmo com a pandemia: manteve o abastecimento e aumentou exportações

Medidas sanitárias rigorosas no Brasil contribuíram para bom desempenho do setor, mas especialistas alertam sobre a importância da sanidade animal a fim de manter a capacidade e eficiência do agronegócio

Mayara Moraes, Agência Indusnet Fiesp

Sanidade animal foi a pauta da reunião de setembro do Conselho Superior do Agronegócio (Cosag) da Fiesp, realizada nesta terça-feira (8/9). Membros da entidade e convidados celebraram a boa fase vivida pelo agronegócio brasileiro que, mesmo em meio à eclosão da pandemia do novo coronavírus, manteve o abastecimento do mercado interno e registrou aumento nas exportações.

Dados apresentados por Francisco Turra, presidente-executivo da Associação Brasileira de Proteína Animal (Abpa), mostram que, entre 2019 e 2020, houve crescimento de 3% a 4% da produção de frango e de 3% a 5% na exportação da commodity. O desempenho da carne suína foi ainda melhor. Durante o mesmo período, o segmento viu aumento de cerca de 6,5% na produção e de 33% na exportação, e vislumbra crescimento superior para este ano.

“Apesar de estarmos atrás da China, União Europeia e dos Estados Unidos na produção de suínos, este ano vamos chegar a 4 milhões e duzentas mil toneladas, e as exportações, que bateram recorde no ano passado, com 150 mil, deverão passar muito bem de um milhão. Então, acho que vamos crescer nas exportações em torno de 40%, no mínimo”, projetou Turra.

Enquanto países de praticamente todos os continentes sofriam os impactos causados pela Influenza Aviária e pela Peste Suína Africana, o Brasil aproveitou para ocupar espaços maiores e se consolidar como grande exportador de alimentos, em especial, de proteína animal.

De acordo com números trazidos por Turra, a produção de carne suína chinesa sofreu queda de 56 milhões de toneladas em decorrência das crises sanitárias recentes. Cerca de 40% do rebanho foi perdido. Esse déficit tornou o gigante asiático o maior importador de carnes suína e bovina do Brasil.

“Houve crescimento de 143% das exportações de carne suína do Brasil para a China, entre janeiro e julho de 2019 e janeiro e julho de 2020”, observou o presidente-executivo da Abpa.

De acordo com Antônio Jorge Camardelli, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), se engana quem acha que o crescimento das exportações da carne brasileira se limitou apenas à China. “Hong Kong, Egito, União Europeia, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Rússia, Irã e Chile foram alguns dos principais destinos da carne bovina brasileira em 2019, o que mostra que não somos dependentes da China”, advertiu.

Embora o Brasil goze de uma série de vantagens competitivas, como ausência de registros de influenza aviária e diarreia suína epidêmica, controle rigoroso de peste suína africana (o último registro é de 1979) e suinocultura inserida em área livre de peste suína clássica, os especialistas alertam que alguns pontos precisam de atenção. Um deles diz respeito exatamente à zona livre de peste suína clássica, objeto de orgulho de autoridades e especialistas.

“Temos uma zona livre que não cobre o país todo e tivemos alguns problemas fora dessa área recentemente. Por isso, é importante que façamos um cinturão de estabilidade para proteger essa divisa”, destacou Turra, referindo-se à região composta por Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Acre, Bahia, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rondônia, São Paulo, Sergipe e Tocantins, além do Distrito Federal e parte do Amazonas.

A capacidade de fortalecer o rigor da defesa agropecuária nacional em ritmo consonante com o crescimento da produção foi uma preocupação externalizada por Andrea Moura, superintendente do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). “É importante reforçar que não basta só que a União tenha seus protocolos e a sua defesa agropecuária estruturada. É essencial que as agências e as secretarias de agricultura dos estados também estejam preparadas para que o Brasil possa manter seu protagonismo na produção de alimentos e no rigor sanitário”, destacou Moura. “A sanidade dos alimentos será uma grande preocupação no mundo pós-pandemia, então precisamos seguir com esse olhar e com esse rigor na defesa agropecuária para que a gente  continue cumprindo nossa missão de alimentar o mundo”, acrescentou a superintendente.

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Em reunião on-line, membros do Conselho Superior do Agronegócio (Cosag) da Fiesp debatem com especialistas bom desempenho do setor, mesmo diante da pandemia da Covid-19. Fotos: Karim Kahn/Fiesp

Segurança sanitária e impostos

Uma peça fundamental na garantia da segurança sanitária é a sustentação financeira do país, analisou José Guilherme Tollstadius Leal, secretário de Defesa Agropecuária do Mapa. “Temos discutido com a ministra Teresa Cristina alternativas para que consigamos, no meio da crise fiscal pela qual passamos, manter a qualidade da segurança sanitária para o mercado interno e para as exportações, em condições de acompanhar o crescimento do setor”, contou Leal. “É muito mais fácil e barato manter o sistema de prevenção funcionando de forma efetiva e o país livre de problemas sanitários que podem gerar custos muito grandes em termos de imagem e retomada de mercados”, argumentou.

Para o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, outra questão interna fundamental é o alinhamento de postura e discurso entre o Ministério da Agricultura e o Ministério das Relações Exteriores. Segundo ele, também é responsabilidade da pasta responsável pelo comércio exterior e pelas relações internacionais difundir o valor de nossas commodities e o emprego de nossas ações de combate a riscos sanitários.

“Ficou claro que o trabalho da ministra [Teresa Cristina] é extraordinário, mas é imprescindível que o trabalho do Itamaraty [Ministério das Relações Exteriores] seja objetivo no mesmo sentido para que a gente não tenha problemas no futuro”, apontou Rodrigues. “Isso tem a ver com comunicação adequada em relação à promoção da qualidade permanente dos nossos produtos e da defesa sanitária. Isso não pode ficar a cargo do ministro da Agricultura e das empresas, tem que ser tarefa também do Itamaraty”, afirmou.

Uma comunicação clara e ostensiva pode ser uma ferramenta importante também na negociação com os importadores. A difusão do alto nível dos produtos nacionais e da prática de preços condizentes com o mercado internacional é uma estratégia que deve ser empregada na resolução de impasses e na negociação com mercados estrangeiros.

Dados usados por Camardelli mostram que o Brasil vem cumprindo alta carga de impostos na exportação de insumos agropecuários. Pagamos em tributos o equivalente a 12% dos atuais R$ 2 bilhões de carne bovina desossada e congelada exportados à China, enquanto países como Camboja, Chile, Costa Rica, Hong Kong, Islândia, Macau, Nova Zelândia e Paquistão pagaram 0%.

Para Camardelli, o Brasil deve usar a seu favor a qualidade de seus produtos, assim como a perenidade de sua oferta e a competividade de seus preços. “Temos de atrelar a negociação à oferta da sanidade e da competitividade de nossos produtos”, advertiu.