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Editorialistas do Estadão destacam função social da comunicação

No Consea da Fiesp, Antonio Carlos Pereira, diretor de opinião do jornal nos últimos anos, e seu sucessor, Marcos Guterman, avaliam cenário atual e o impacto das novas mídias

Solange Sólon Borges, Agência Indusnet Fiesp 

A comunicação é área estratégica para a sociedade. Este foi o tema da reunião de encerramento dos trabalhos deste ano do Conselho Superior de Estudos Avançados (Consea) da Fiesp, realizada nesta sexta-feira (19/11).

O objetivo do presidente do Conselho, Ruy Martins Altenfelder Silva, foi destacar a comunicação no presente, passado e futuro, nas áreas pública e privada, e enfatizou a necessária defesa do Estado democrático de direito, em um momento no qual mais de 30 partidos políticos estão registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e outros aguardam na fila, um dos temas que permanecerá em pauta em encontros do Consea.

O expositor Antonio Carlos Pereira, jornalista, que foi diretor de opinião do jornal O Estado de S. Paulo (OESP), onde prestou serviços por mais de 58 anos e integrante do Consea, participou do debate ao lado do seu sucessor Marcos Guterman, jornalista, historiador e escritor.

Pereira fez um relato histórico do nascimento do jornal conhecido como Estadão, em 1875, surgido para defender a libertação dos escravos e a implantação da República, tendo à frente um grupo de jovens na defesa de seus ideais. O jornal irá completar 145 anos em janeiro de 2022 e, em sua história, houve um período de ‘confisco’ quando da ditadura de Getúlio Vargas. O OESP inicialmente apoiou a revolução de 1930, mas rompeu com Vargas ao não cumprir o prometido, e tornar-se ditador, o que levou ao confisco do jornal, fato que se repetiu em 1964, relembrou Pereira.

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Fotos: Karim Kahn/Fiesp

O jornalista avaliou o atual cenário e atribui a crise à política estabelecida, inclusive com o deslocamento da oposição, que não se encontra mais no Congresso Nacional, mas, sim, na mídia, retratou, ao fazer referência a uma análise anterior feita pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. “A mídia trata dos temas e é acusada de oposição”, reforçou, lembrando que a ‘verdade’, a opinião, durava horas e hoje se sustenta por segundos em função das novas mídias, o que possibilita a criação de versões para um mesmo fato e a construção de diversas narrativas.

Um editorial se constitui de três partes, afirmou Antonio Carlos Pereira: o ‘gancho’, o arrazoado de motivos a favor e contra, e a conclusão do jornal, posicionando-se sobre o assunto em foco. “Não é convencer, mas fazer com que uma pessoa passe a pensar sobre o tema”, ensinou o especialista.

Marcos Guterman comentou sobre a responsabilidade de suceder o ‘Tonico’, “pois não há como substitui-lo, uma pessoa que tem horror à desinteligência e nós vivemos na era da desinteligência. O jornalismo serve para jogar luz sobre os fatos e a verdade dos fatos nunca esteve tão questionada. Para ele, não há como pensar em progresso sem base racional. “Eu posso ter uma opinião, mas não reivindicar um fato”, avaliou, ao dizer que os jornais precisam se reinventar diante da existência de grupos organizados voltados à destruição da democracia, do território comum da vida civilizada, e que ainda por cima reivindicam ‘legitimidade’. E ensina: é legítimo pensar diferente, mas quando isso inviabiliza a organização social, impacta a todos. “Isso não é entropia [desordem de um sistema] , é deliberado”, e citou a invasão do Capitólio, nos Estados Unidos, no fim do governo de Donald Trump.

De acordo com Guterman, “o jornal não está ali para convencer alguém sobre esse ou aquele ponto de vista, não é fabricante de papel, mas de informação, independente do formato” e acrescentou que seria um grande equívoco adotar a linguagem das redes sociais. Em sua avaliação, o Estadão se encontrou em seu novo formato, migrando do standard para o modelo germânico, ou seja, um ponto de equilíbrio entre o tamanho do tablóide e do standard, já adotado por impressos em outros países, como o britânico The Guardian, por exemplo, sendo mais cômodo para ler e também mais dinâmico, pois uma página conta com uma matéria bem trabalhada que enfatiza o trabalho jornalístico, “pois tudo ali é alto de página e não rodapé”, como resultado de um trabalho de pauta e apuração bem realizado.

Em sua conclusão, Guterman frisou a importância dos editoriais: “a gente não escreve para o leitor, mas, sim, para a história. Não sou obrigado a dar um editorial sobre o principal assunto do dia. Ele tem um tempo diferente do jornalismo do diário e está a anos-luz das redes sociais”, afirmou o atual diretor de opinião do jornal O Estado de S. Paulo.

O presidente da Fiesp e do Instituto Roberto Simonsen (IRS), Paulo Skaf, participou do encontro, virtualmente, a fim de agradecer o empenho dos membros do Consea, o trabalho voluntário desenvolvido ao longo desses 17 anos em que ele está à frente da Federação das Indústrias. Por sua vez, Ruy Martins Altenfelder Silva agradeceu o apoio dado pelo presidente Skaf e pelo trabalho desenvolvido à frente da maior entidade da indústria.