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Economista Otaviano Canuto afirma que investimento em infraestrutura pode oferecer apoio bipartidário à gestão Biden

Expositor participou de reunião virtual na Fiesp e avaliou o cenário macroeconômico

Alex de Souza, Agência Indusnet Fiesp

O impacto do Plano Biden na mudança de paradigma macroeconômico global e repercussões sobre os países emergentes foi o tema de reunião conjunta de dois Conselhos Superiores da Fiesp: o de Economia (Cosec) e o de Comércio Exterior (Coscex). O convidado para expor essas questões foi o economista Otaviano Canuto, que participou remotamente do encontro, mediado pelo presidente do Coscex, Rubens Barbosa, e pelo vice-presidente do Cosec, Dan Ioschpe.

40 anos depois da era Reagan, Joe Biden surge de modo semelhante, ao derrotar um candidato à reeleição. Entretanto, de acordo com o expositor Otaviano Canuto, Biden vem na direção oposta, com propostas de aumento dos gastos públicos, agenda verde e com viés claramente mais social, o que não representa ameaça à manutenção da inflação e controle da dívida pública. “O contexto econômico na década de 1980 era muito diverso do que existe atualmente, e ainda que todo esse contexto exerça pressão, isso não levará a um quadro de descontrole”, afirmou.

Ao falar sobre a inflação nos EUA, Canuto destacou a importância do Federal Reserve (FED), que tem papel análogo ao Banco Central (BC) no Brasil, e seu papel para manter a inflação, porque assim como ocorre no Brasil, o FED pode utilizar instrumentos de política monetária caso seja necessário coibir a inflação. “Pode-se dizer que 2% é o centro da meta norte-americana, e qualquer intervenção do FED só deverá ocorrer se o índice se mantiver de modo persistente acima desse percentual, pois esse quadro é temporário e logo deve passar”, afirmou o economista, que já foi vice-presidente e diretor executivo no Banco Mundial, além de diretor executivo no FMI e vice-presidente no BID.

Obviamente, a alta popularidade de Biden não o isentará de desafios, pois os planos de investimento deverão encontrar resistência em duas frentes: “no escopo e nos meios de financiamento. Contudo, há convergência de opiniões quando se fala do gasto de infraestrutura, que pode oferecer apoio bipartidário”, avalia Canuto, que também observou os gastos públicos em benefício das famílias nos Estados Unidos e disse ser muito pouco trabalhar com apenas 1% do PIB. “Na França, no Reino Unido e Alemanha, por exemplo, esse investimento social é superior aos 3%”, segundo pontuou.

Os mercados emergentes podem se beneficiar do novo ambiente nos EUA, via comércio exterior, e também com o novo super ciclo do preço de commodities, mas alerta para as fragilidades às quais o Brasil está exposto. “Precisamos ser realistas e entender que não há espaço fiscal no Brasil para copiar o que foi feito por lá, pois pode gerar dificuldades de financiamento ou elevação brutal de juros da dívida pública”, disse Canuto.

Sua avaliação final é de que os graves problemas a serem enfrentados pela humanidade, no futuro próximo, dependem de ação multilateral, não podendo ser resolvidos pelos países individualmente. “Haverá um clamor muito forte por fortalecimento das redes de proteção social em outros países. A agenda climática, segurança cibernética e movimentos migratórios, por exemplo, são temas que inevitavelmente os países deverão trabalhar de modo conjunto”, finalizou Canuto, que enxerga os EUA em direção menos nacionalista e mais plurilateral.

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Para economista Canuto, inflação nos EUA deve ser temporária. Foto: Karim Kahn/Fiesp