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Desafios do comércio internacional durante a retomada da economia pautam videoconferência do Conselho Superior de Comércio Exterior

Impactos na globalização, mudanças nas negociações comerciais e modernização das cadeias produtivas foram alguns dos pontos de atenção levantados durante a reunião

Mayara Moraes, Agência Indusnet Fiesp

A pauta escolhida para nortear a primeira videoconferência realizada pelo Conselho Superior de Comércio Exterior (Coscex) desde a eclosão da crise gerada pela pandemia do coronavírus não poderia ser mais oportuna. Durante reunião organizada na manhã desta terça-feira (19/05), o embaixador Rubens Barbosa propôs uma reflexão sobre os desafios do comércio internacional no esforço de recuperação da economia depois da Covid-19. 

O diplomata e presidente do Coscex deu o tom do encontro, mas antes de entrar nas minúcias de sua apresentação fez um alerta:questões antigas da agenda brasileira, como falta de investimentos em pesquisa e tecnologia, insegurança jurídica e custo Brasil, vão dificultar a retomada do país. Segundo Barbosa, além lidar com os desafios externos, teremos que superar nossos próprios entraves para sair dessa crise.  

“Velhos problemas vão impactar a retomada do comércio exterior, como as reformas de Estado, a abertura da economia, a agenda da competitividade e os investimentos em logística e tecnologia”, disse o embaixador. “Apenas 1,8% do nosso orçamento é dedicado à pesquisa e inovação, quando nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Alemanha, falamos de 4%, 11% e até 12%, respectivamente”, acrescentou. 

Durante sua apresentação virtual, que foi acompanhada por mais quarenta conselheiros, o embaixador focou em pontos de atenção universais como as principais tendências, mudanças estruturais e dificuldades causadas pela crise do coronavírus. Veja algumas das principais discussões que entraram na pauta. 

Desaceleração da economia global

“O comércio exterior brasileiro vai ter que conviver com a desaceleração da economia e do comércio internacional”. Foi assim que Rubens Barbosa abriu sua fala. Ele chamou de otimistas as estimativas feitas pela imprensa e pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) de que a recessão mundial ficará ao redor do 4 pontos, e acentuou as previsões compartilhadas pela Organização Mundial do Comércio (OMC).

“A OMC divulgou uma redução drástica do comércio internacional, variando entre 12% e 32%”, disse o diplomata. “O cenário internacional vai ser muito negativo para vários países, inclusive para o Brasil”, afirmou. 

Mudanças nos fluxos do comércio internacional

Mudanças nos fluxos de comércio, como medidas não tarifárias, apreensão de mercadorias e descumprimento de acordos, provocam um abalo na confiança dos contratos firmados na área internacional e já estão ocorrendo por causa da Covid-19.

“Estamos vendo subsídios e medidas restritivas tomadas por países que querem proteger a saúde e a alimentação de sua população”, disse Barbosa. ” De acordo com dados da revista The Economist, 4/5 de oito bilhões de pessoas são alimentadas por importações, para você ver a importância do setor de alimentos e agronegócio. A pergunta que temos que fazer é como vamos reagir ao impacto de medidas restritivas concretas aos produtos de nossa exportação”. 

De acordo com o embaixador, além dos subsídios e das medidas protecionistas impostas por diferentes governos no mundo todo, o Brasil também precisará se atentar à aplicação de uma nova onda de padrões sanitários às exportações. “A questão da rastreabilidade vai estar na ordem do dia, e aqui no Brasil vamos ter que nos modernizar e nos ajustar a essas mudanças estruturais que vão acontecer no comércio internacional”. 

Modernização das cadeias produtivas

No cenário internacional, já há um consenso de que não é mais aceitável que os países dependam de um única fonte exportadora de produtos essenciais. Haverá ajustes nessas cadeias produtivas e, segundo Barbosa, o Brasil “vai ter que levar isso em consideração”.  

“Vimos o Japão investir bilhões de dólares em suas empresas locais para que elas saiam da China, e os Estados Unidos estão fazendo o mesmo movimento”, observou o embaixador. “No caso do Brasil, vamos ter que pensar em como ajudar a empresa brasileira a voltar a produzir produtos essenciais no Brasil, e para isso será necessário que as nossas empresas se modernizem e que a indústria aumente seu grau tecnológico”, acrescentou.

 A tendência da regionalização 

O fenômeno da globalização não poderia sair ileso de um momento tão desafiador para a economia global. Para Barbosa, no que diz respeito ao grande fluxo de comércio e serviços, a globalização deverá se manter qualificada, afinal de contas as empresas operam dentro da sua lógica e não podem mudar suas estratégias de uma hora para a outra, mas no que diz respeito às negociações, ela deverá sofrer alguns ajustes e dar lugar à regionalização, que já vendo adotada na Ásia, na Europa, e na América do Sul, com o Mercosul se aproximando dos países andinos. 

“As vulnerabilidades dos países vão ficar muito à mostra e através dessas vulnerabilidades vai haver uma movimentação da localização regional em prol da soberania”, argumentou Babosa. “Também veremos uma tendência à nacionalização de produtos essenciais nos países desenvolvidos, e vamos sofrer esse processo também – já tivemos exemplos de máscaras, respiradores e testes que estamos produzindo a um custo altíssimo e vamos ter que racionalizar de alguma maneira”, exemplificou. 

Acordos comerciais em stand by e a China como ameaça

O momento é delicado para a negociação de acordo internacionais. O mundo assiste sob tensão aos desdobramentos do acordo entre Estados Unidos e China. Antes mesmo de ter entrado em vigor, o tratado já se vê ameaçado por ambos os países.  

As negociações do Brasil com o Canadá, a Coreia do Sul e a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA) foram adiadas. O acordo entre o Mercosul e a União Europeia aguarda a ratificação e a internalização por cada um dos Estados integrantes dos dois blocos econômicos. Na melhor das hipóteses, a campanha pela ratificação começaria ainda este ano, mas a saída da Argentina das negociações coloca a execução do tratado em risco.  

Nesse cenário, a China se destaca, principalmente por exercer uma influência cada vez mais significativa sobre a América Latina. Segundo Barbosa, esse comportamento deve ser observado de perto pelo Brasil. 

“Quando sairmos dessa crise, a crescente presença da China na América Latina vai ser um desafio para que o Brasil mantenha seus fluxos de comércio na região”, advertiu o embaixador. “A China compete com os Estados Unidos nas manufaturas e na área industrial, então vai interessar ao Brasil avançar nas cadeias produtivas nacionais”, acrescentou. 

Além de ameaçar os Estados Unidos com sua potente indústria manufatureira, a China desafia o dólar americano como moeda de transações comerciais pela primeira vez na história. ”A China está criando uma uma criptomoeda intergovernamental que vai substituir o dólar nas operações financeiras e comerciais, como nós no ocidente vamos reagir a isso?”, indagou o diplomata. 

Os impactos da crise no Brasil 

Pesquisas citadas pelo diplomata apontam que a participação do Brasil no comércio internacional sempre ficou ao redor de 1%. O país entra nessa crise com uma participação de 1,06%. A situação poderia ser ainda pior se estivéssemos mais integrados nas cadeias de valor, de acordo com o embaixador. Entretanto, isso não significa que o desafio de encarar as consequências de uma recessão global será menor. 

“A OMC indicou que o crescimento do comércio internacional será menor do que o crescimento das economias globais e o impacto vai ser muito duro”, afirmou Barbosa. “A queda nos crescimentos da China, dos EUA, da Argentina e da Europa, que são os nossos quatro maiores parceiros, vai afetar a importação e a exportação do Brasil”, alertou o especialista. 

Ainda segundo ele, a primarização das exportações brasileiras e a concentração dessas operações em poucos países de destino. Segundo Barbosa, 67% das exportações brasileiras de janeiro a abril deste ano foram commodities. China, União Europeia e Estados Unidos concentraram a maior parte dessas operações.  

“Vamos ter um desafio nessa crise que vai ser de diversificar produtoe e diversificar mercados”, disse Barbosa. “Acho difícil que a recessão seja de curto prazo e que o Brasil possa voltar rapidamente”, lamentou.  

Para Barbosa, estamos “no início de uma nova ordem de coisas” e caberá ao setor privado agir em parceria com o governo para que medidas políticas e econômicas adequadas e assertivas sejam tomadas. “É urgente que o setor retome a agenda da competitividade para que o Brasil possa passar por um processo de reindustrialização e assim participar ativamente do comércio internacional”, sublinhou. 

“Além disso, é importante diversificarmos nossas pautas e nossos mercados, nos aproximarmos dos países da região, discutirmos infraestrutura, aperfeiçoarmos nossos mecanismos sanitários e incluir a questão ambiental e a bioeconomia na retórica governamental”, concluiu o embaixador.

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Embaixador e presidente do Coscex, Rubens Barbosa destaca as principais dificuldades que o Brasil enfrentará no âmbito do comércio exterior após a retomada da economia