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Conselho da Fiesp debate propostas de mudanças em campanhas eleitorais

Com a presença do professor Renato Janine Ribeiro, foram apresentadas ideias para melhorar o sistema; reforma política é tema das próximas reuniões, antecipa Ruy Altenfelder

Ariett Gouveia, Agência Indusnet Fiesp

Com a certeza de que muita coisa precisa melhorar no sistema da campanha eleitoral no Brasil, o Conselho Superior de Estudos Avançados (Consea) discutiu as possíveis soluções para essa questão na reunião desta segunda-feira (20/10). Para falar sobre o tema, o conselho convidou um de seus integrantes, o professor titular de ética e filosofia da Universidade de São Paulo (USP), Renato Janine Ribeiro.

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Renato Janine Ribeiro (terceiro da mesa, da esquerda para a direita): campanha não está mais nas ruas e se restringe ao horário eleitoral, aos debates nas emissoras e às redes sociais. Na mesa, Almino Affonso, Ruy Altenfelder e Celso Monteiro de Carvalho. Foto: Tâmna Waqued/Fiesp


Destacando o ineditismo dessa eleição, tanto pela imprevisibilidade do resultado quanto pela hostilidade entre candidatos e eleitores, Ribeiro propôs um debate com um ponto unânime: a necessidade de mudar o formato das campanhas.

“Vejo um descontentamento geral com o que está acontecendo. A comparação que a gente pode fazer com o que temos visto na campanha ou é luta livre ou jogo de futebol. Só que em jogo de futebol ninguém pretende convencer a outra torcida a aderir ao seu time”, disse.

“Quanto mais a gente se aproxima do clima de conflito, mais a gente vai fortalecer as supostas lealdades já existentes.”

Segundo o professor, a campanha não está mais nas ruas, já que são poucos os comícios e passeatas, e se restringe ao horário eleitoral, aos debates nas emissoras e às redes sociais. “Tenho visto que esses três caminhos têm sido bastante ineficientes para gerar uma boa campanha.”

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Janine Ribeiro: campanhas poderiam ser feitas exclusivamente na internet. Foto: Tâmna Waqued/Fiesp

Janine Ribeiro disse defender uma reavaliação do tempo para cada partido no horário eleitoral gratuito, de modo a reduzir a diferença entre eles, o que obrigaria os candidatos a serem concisos. Sobre o conteúdo das campanhas, ele afirmou ser impossível, para os candidatos proporcionais (deputados e vereadores), apresentar suas propostas no atual formato.

“Temos legendas minúsculas que lançam 100 candidatos para determinado cargo. O ideal seria criar regras para restringir esse número, por exemplo, de acordo com o número de candidatos eleitos em campanhas anteriores”, sugeriu o professor.

Sobre os debates, ele diz ser importante a presença de jornalistas, mas desde que sejam pessoas comprometidas em questionar e cobrar os candidatos. “Minha proposta é dar mais peso aos debates, torná-los mais frequentes e que tivessem jornalistas isentos, responsáveis por colocar questões igualmente duras a todos os candidatos.”

Outra sugestão de Janine Ribeiro é que as campanhas sejam feitas exclusivamente na internet. “No Brasil, temos cerca de 130 a 140 milhões de eleitores e, pelos últimos dados, são 110 milhões de internautas. Provavelmente, é um número que vai aumentar até a próxima eleição. Por isso, uma campanha com base na internet é uma medida radical possível, que pode vir junto com a convicção que a internet é um direito básico da cidadania.”

Ainda sobre a internet, o professor comentou o papel das redes sociais na campanha. “Hoje, elas não são um espaço público de discussão. São um lugar de reiteração, onde lealdades se firmam, as pessoas deletam ou bloqueiam quem tem posição diferente delas, perdem a paciência. É uma pena que isso aconteça. Mas temos que tentar melhorar, porque é o meio de comunicação mais democrático.”

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Ruy Altenfelder: reforma política é o tema sobre o qual o Consea vai centrar seus estudos. Foto: Tâmna Waqued/Fiesp

A questão da coincidência de mandato foi mais um tópico abordado por Ribeiro. “Nesta eleição, tivemos muita dificuldade para definir candidatos, inclusive para governador, que tiveram campanhas tímidas, se comparadas com a presidencial, que acabou tomando todo o espaço”, comentou ele, que sugeriu até que as eleições majoritárias sejam realizadas separadamente, mesmo que seja com alguns meses de diferença.

O presidente do Consea, Ruy Altenfelder, adiantou que as próximas reuniões vão continuar com o tema política. “A avaliação suprapartidária das campanhas eleitorais do professor Renato Janine Ribeiro foi o tiro de partida dos temas que vamos tratar nas próximas reuniões. Vamos nos dedicar ao estudo aprofundado da reforma política que o Brasil precisa.”