imagem google

Congresso Ecogerma destaca estratégia da indústria para minimizar impactos da crise hídrica

Medidas têm como benefícios adicionais a redução no consumo de energia e de produção de efluentes e a melhora na gestão ambiental

Patrícia Ribeiro, Agência Indusnet Fiesp

“A indústria está fazendo sua parte para enfrentar a crise hídrica”, afirmou Anicia Pio, gerente do Departamento de Meio Ambiente (DAM) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), nesta quarta-feira (30/9), durante o primeiro dia do Congresso Ecogerma, realizado pela Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha, com o apoio da entidade.

Segundo Anicia, quando se questiona sobre as mudanças do clima e o que está acontecendo com o planeta, é fundamental enxergar mais que o efeito estufa. “Temos que ter um olhar diferenciado para o problema de seca, principalmente no Estado de São Paulo, que registrou a maior média histórica”, enfatizou.

Para ela, o momento é de focar nos efeitos que as temperaturas elevadas têm provocado no dia a dia da indústria e nas adaptações que devem ser seguidas à risca. “É preciso ter em mente que precisamos estar preparados para o futuro. Afinal, a realidade é que ainda estamos operando no volume morto, mesmo começando uma primavera chuvosa”, lembrou.

Anicia apresentou as restrições legais aplicadas às indústrias na região de Campinas e bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí. “Fizemos acordos com as indústrias para que todas trabalhassem sem ter que parar, mas tomando todas as providências para redução do consumo de água. Estamos aprendendo com a crise de forma a minimizar o impacto”.

Vale lembrar que o atual parque industrial das duas regiões, compreende mais de 56 mil estabelecimentos, gera 1,9 milhões de empregos diretos e representa cerca de 50% do PIB industrial.

Estratégias de atuação

“A indústria precisa fazer a lição de casa”, reforçou. Mesmo trabalhando com redução de consumo de água, o setor tem um grande desafio pela frente, tendo em vista o cenário ambiental do momento e previsões futuras.

Anicia disse que é muito importante continuar sensibilizando os colaboradores para atingir o objetivo. Sem um plano estratégico, alertou a gerente de Meio Ambiente, há os seguintes pontos negativos: aumento de custos operacionais; impactos na cadeia produtiva; redução na produção e/ou turnos; impactos econômicos e sociais.

Com a lição de casa bem feita é possível sentir os resultados positivos. “Com a economia de água, também tivemos redução no consumo de energia, reduzimos os efluentes, melhoramos a gestão ambiental. Além disso, as indústrias de Piracicaba (interior de São Paulo) tiveram uma redução de 50% do consumo”.

Com o objetivo de ajudar o setor nesta empreitada, foi distribuído um total de 1,5 milhão de cartelas, cada uma com quatro redutores de vazão desenvolvidos por alunos do Senai para toda a indústria. “Também estamos oferecendo cartilhas sobre como gerenciar a escassez de água”, concluiu.

Água e energia

O Congresso, que termina nesta quinta-feira (1º de outubro), tem como foco os temas de água e a energia. Em relação ao primeiro tema, estão sendo debatidos a atual crise hídrica e seus desdobramentos, a gestão de perdas e as redes inteligentes, além da estratégia da indústria no enfrentamento da crise hídrica e o impacto do clima nos recursos hídricos. Além disso, também ocorrerá a entrega do Prêmio von Martius de Sustentabilidade.

Na área de energia, destaque para eficiência energética, bem como o futuro do setor a fim de garantir um mercado seguro e estável ao investidor e a consumidor. Outros temas centrais são o potencial da energia de biomassa e do biogás no Brasil.

Recurso estratégico

A Alemanha é o país que mais investe em pesquisa e tecnologia voltada ao meio ambiente, enfatizou o vice-presidente executivo do grupo Bosch América Latina e presidente da Câmara Brasil-Alemanha, Wolfram Anders, na abertura do Congresso Ecogerma. Ele frisou que seu país possui vários acordos no campo da sustentabilidade, inclusive com o Brasil, nação com a qual se estabeleceu forte cooperação nos últimos 20 anos. A chanceler Ângela Merkel, em encontro recente com a presidente Dilma Roussef, celebrou acordos relativos a energias renováveis e proteção da Amazônia. Ainda na abertura do evento, o cônsul-geral da República Federal da Alemanha em São Paulo, Axel Seidler, lembrou que a atua crise hídrica guarda relação com a mudança climática e lembrou que a água é estratégica para o futuro, inclusive para a manutenção da paz.

Ao tratar da crise hídrica, o diretor de meio ambiente da Fiesp, Ricardo Esper, lembrou que a falta de água afeta a população de modo geral, mas quem mais sofre são os de baixa renda que contam com poucos recursos.

Imagem relacionada a matéria - Id: 1582863112

Congresso Ecogerma, realizado pela Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha, com apoio da Fiesp. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp


No painel sobre crise hídrica – realidade e seus reflexos, Carlos Alberto Azzoni, professor da FEA-USP, tratou da transposição entre bacias e reforçou que o Brasil é exportador virtual de água em diversos produtos, especialmente soja. “Deve-se levar em conta esta água transportada”, disse, e exemplificou com o encadeamento da borracha e do petróleo no setor automobilístico. Em estudos com base nos números do IBGE e da FIPE, São Paulo exportaria indiretamente 4,4 trilhões de litros de água e importaria quase 8 trilhões de outros estados do País. Por isso, ele reforçou a necessidade de levar em conta a criação de cenários de demanda futura com impacto nas economias regionais. “Há uma transposição de água”, alertou, avaliando que, no futuro, haverá, sim, adaptação em função da mudança do clima, pois se hoje há dificuldades localizadas no sistema Jundiaí, Piracicaba e Atibainha, o quadro só tende a piorar.

Alerta ignorado

Desde 1999 já se sabia sobre os problemas relativos à crise hídrica, a luz amarela acendeu entre setembro e outubro de 2013, mas a forma de o governo disponibilizar informações foi deficiente, criticou Samuel Roiphe Barreto, coordenador do Movimento Água para São Paulo do The Nature Conservancy (TNC). A redução de pressão é um rodízio de água não decretado oficialmente e atinge os municípios de maneira desigual, avaliou o painelista. “A quantidade de água nos reservatórios é bem menor do que há um ano e bem menor do que há três. Demorou para o governo tomar medidas. Se o sistema entrar em colapso será questão de segurança nacional”, criticou, lembrando também que é mais barato cuidar dos mananciais do que dar tratamento à água poluída.

O Congresso Ecogerma, que se realiza desde 2009, contemplou este ano temas como a essencialidade da água, a crise hídrica e o uso adequado dos recursos hídricos, além de eficiência energética.

Durante o evento também foram conhecidos os agraciados com o Prêmio von Martius de Sustentabilidade, reconhecendo e premiando cases na área de natureza, tecnologia e humanidade.