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Como empresas canadenses e brasileiras trabalham inclusão e diversidade. Tema de evento na Fiesp

Além do impacto nos negócios, representantes das organizações compartilharam os principais objetivos e as ações implementadas

Isabel Cleary, Agência Indusnet Fiesp

O Canadá é um dos países que é referência no tema de inclusão de gênero. Das 100 maiores empresas de capital aberto no Canadá, 96% contam com ao menos uma mulher entre os diretores, e as regras para igualdade de gênero aumentam a cada ano. É isso o que aponta o relatório da KPMG de 2020. No Brasil, este tema ainda deve ser trabalhado nas empresas.

Para debater a diversidade, a equidade e a inclusão na indústria, pautas que melhoram a competitividade e a reputação das empresas nos negócios e acordos comerciais, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e o Consulado do Canadá se reuniram em um encontro híbrido nesta segunda-feira (1º/8).  

A presidente do Conselho Superior Feminino (Confem) da Fiesp, Marta Lívia Suplicy, saudou este intercâmbio com o Canadá: “Estamos falando com um país que é o 5º melhor no mundo para as mulheres viverem. A igualdade de gênero no Canadá não é uma palavra midiática, é uma realidade. E esperamos que após esse encontro a pauta não fique só neste dia e se estenda para um compromisso, um fórum permanente de discussão. Não queremos mais que diversidade, inclusão, liderança inclusiva e igualdade de gênero sejam só palavras, queremos que elas sejam práticas, e o Canadá nos traz uma grande lição”.  

Em complemento, Grácia Fragalá, vice-presidente do Confem e do Conselho Superior de Responsabilidade Social (Consocial) da Fiesp, acredita que a grande aprendizagem é o que o Canadá tem feito para ampliar a diversidade. “É uma política de Estado, e isso se reflete nas empresas, porque tem investimento e política pública. É isso que queremos aprender e trazer para o nosso dia a dia. Por mais que as empresas tenham boas práticas, se não temos uma cultura inclusiva, essa cultura, muitas vezes, expulsa as mulheres”, comentou.  

No encontro, a cônsul-geral do Consulado do Canadá em São Paulo, Heather Cameron, disse que, para o Canadá, este é um momento importante para discutir estes assuntos. “Depois da pandemia, que aumentou as desigualdades, é essencial a participação econômica-social de todos na discussão desses temas que debateremos hoje”, completou.

Perspectivas inclusivas e femininas sobre novos negócios e a visão dos investidores  

No primeiro painel do evento, Tatiana Prazeres, diretora titular do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Derex) da Fiesp, trouxe sua visão do tema sob o prisma do comércio internacional. Para Prazeres, além do esforço multilateral no âmbito da organização mundial do comércio, o Canadá se destaca na negociação de cláusulas de gênero em acordos comerciais e, em alguns casos, em capítulos inteiros dedicados à questão. “Isso é realmente muito importante para que tenhamos mais clareza a respeito das diferentes maneiras pelas quais o comércio afeta as mulheres. Vários estudos foram realizados nos últimos anos destacando exatamente o fato de que é necessário pensar em política comercial com o olhar de gênero”, afirmou.  

Carlo Pereira,CEO da Rede Brasil do Pacto Global, da Organização das Nações Unidas (ONU), disse que para encorajar as empresas na adoção de políticas de responsabilidade social corporativa e sustentabilidade, 7 pilares para as ações da entidade foram lançados em março de 2022: clima, água e saneamento, direitos humanos, gênero, anticorrupção, saúde mental e salário digno. Para ele, é importante pensarmos na transversalidade desses assuntos, que impactam as mulheres de diferentes formas. “Estabelecemos metas para cada um desses temas e temos foco completo nos resultados que queremos atingir”, contou Pereira.  

A diretora regional sênior da Export Development Canada (EDC), Monica Busch,explicou que é preciso entender a inclusão como pauta que também é boa para os negócios.Maior diversidade implica em maior inovação e produtividade. Tem um impacto abrangente, que vai além do politicamente correto, é um bom negócio efetivamente. Os investidores pagam prêmios para empresas com boas práticas generalizadas, como a de inclusão, por exemplo. E isso se traduz em melhores negócios, além de sustentabilidade para todas as partes”, argumentou.  

Ao finalizar o primeiro painel, a convidada Elise Racicot,cônsul e chefe do setor comercial canadense no Brasil, afirmou que a questão de gênero é só o começo. “A gente quer também a inclusão de outros grupos subrepresentados, como indígenas e negros, por exemplo. O que a gente viu, com o crescimento do comércio e economia global, é que não houve a divisão igual entre todas as partes. Temos que devolver a cada uma de maneira mais justa esses benefícios, porque se não as pessoas acabam desacreditando no processo de ter mais comércio internacional”, alertou.  

Fotos: Ayrton Vignola/Fiesp

Fotos: Ayrton Vignola/Fiesp


Boas práticas de liderança feminina em indústrias brasileiras e canadenses  

O segundo painel tratou das boas práticas de diversidade e inclusão das empresas brasileiras e canadenses. Maria Salum, diretora de sustentabilidade no Brasil da Sigma Lithium, descreveu como a organização tem atuado. “Nós temos uma CEO mulher e um CEO homem. Além disso, temos mulheres em cargos de liderança em áreas que geralmente dominadas por homens. Na governança, temos práticas de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), em que todas as nossas ações são alinhadas a um ODS, e com uma estratégia de pensar globalmente e agir localmente. Por fim, temos uma transparência auditável que nos deu a honra de estar na Bolsa de Valores do Canadá”, contou Maria Salum.  

Ana Cunha, diretora de relações governamentais e responsabilidade social da Kinross Brasil Mineração, acredita que o fato de a empresa ser canadense tem feito toda a diferença quanto às políticas implantadas dentro e fora da organização. “No entanto, estamos localizados no Brasil e temos o impacto da cultura brasileira. Por isso, trabalhamos em um censo para entendermos nossa demografia de diversidade, estabelecendo metas e escolhendo recortes mais adequados. Além disso, investimos na formação de mulheres e grupos de discussão”, descreveu.  

Segundo Mariana Paiva, líder de aquisição de talentos na Nutrien para a América Latina, a empresa, que também é canadense, chegou ao Brasil com proposta de transformar o varejo agrícola e a forma como são feitos os negócios entre a empresa e agricultores e agricultoras. “O pilar de diversidade já veio como algo fundamental e entendemos que a diversidade é inerente ao processo de inovação. Além do trabalho social de trazer as minorias dentro da nossa empresa, percebemos que essa diversidade, também de pensamentos e informações, irá nos ajudar a alcançar esse patamar de inovação que queremos”, explicou.  

Para contar a experiência da Vale em uma profunda transformação cultural, Viviane Ajub, gerente de diversidade e inclusão da empresa, compartilhou o processo que envolveu todos os funcionários da organização. “Acordamos para esse tema (diversidade e inclusão) em 2019, quando começamos a discutir transformação cultural. A Vale entendeu que sem diversidade a gente não se reinventaria. Então, essa pauta é do comitê executivo, ela faz parte da estratégia da empresa, o que permite a comunicação com os demais profissionais”, disse.  

De acordo com ela, a estratégia de transformação cultural contou com três pilares: mudança de mentalidade, revisão de processos e energizar a companhia e campanhas permanentes que trabalham a inclusão na empresa. Depois de dois anos, A Vale pulou de 13% para 26% de mulheres, o dobro, no quadro de funcionários. Viviane contou também que a empresa continua com ações para a inclusão das mulheres, como exemplo, a formação técnica para áreas nas quais há escassez de mão de obra feminina.   

Assista ao evento completo aqui