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Cidades saudáveis e a qualidade de vida nas grandes metrópoles

Como transformar as metrópoles em cidades saudáveis? Essas reflexões foram feitas pelo médico patologista, Paulo Saldiva, durante o Congresso de Bem-Estar e Felicidade, realizado na Fiesp, em 4/7

Solange Sólon Borges, Agência Indusnet Fiesp

Ao traçar um panorama evolutivo da história do homem, o médico patologista Paulo Saldiva, diretor do Instituto de Estudos Avançados da USP e um dos maiores especialistas sobre qualidade do ar, frisou mudanças impactantes: antes, os homens obtinham rapidamente sua comida e o restante do tempo aplicava-se ao convívio. O homo sapiens evoluiu e alterou seu sistema neuronal, que se tornou mais robusto, facilitando o aprendizado e a construção da linguagem, entre outros avanços. “Hoje a aproximação se dá por causas com pessoas que nem conheço”, avaliou, ao pontuar as mudanças ocorridas nos relacionamentos humanos, e “as cidades possuíam estruturas hierárquicas, religiosas, militares, de poder e isto mudou. A indústria se estabeleceu nas cidades, levando a um êxodo rural”.

Em sua avaliação, São Paulo tem 465 anos, mas é ‘obesa’, cresceu mais do que a sua estrutura comporta, com trombos metálicos de quatro rodas, insuficiência renal porque a água não é filtrada pelo subsolo, mas ela estava desidratada até ontem, e o Alzheimer afeta os neurônios dos que fazem políticas de curto prazo.

De acordo com o especialista, a cidade segrega as pessoas por nível, pois, nas periferias longínquas, a expectativa de vida se encontra na faixa dos 56-57, enquanto nos bairros nobres alcança os 78 anos. Ou seja, a cada estação de metrô que se anda rumo aos extremos, os habitantes perdem um ano de expectativa de vida, em função da criminalidade, das dificuldades para cuidar de sua própria saúde e do desgaste de se acordar cada vez mais cedo e chegar cada vez mais tarde em casa, entre os deslocamentos para trabalho, estudo e demais compromissos. Saldiva comparou os prejuízos que podem ser causados à saúde pública e não percebidos: respirar em São Paulo é como fumar quatro cigarros, agravando o quadro de distúrbios respiratórios de boa parte da população. Outro grave exemplo dado pelo médico diz respeito à poluição intradomiciliar. Uma pessoa que não tem acesso ao gás, e depende do fogão a lenha para cozinhar por horas seguidas, fuma passivamente três maços de cigarro por dia.

Um dos graves problemas nas grandes cidades é a taxa de obesidade, em parte creditada à comida processada e, por outro lado, ao sedentarismo, que afeta inclusive crianças, além dos hormônios presente na poluição, e “os carros com seis rodas, uma delas na cintura”, em contraponto à vantagem de se ter melhor acesso à saúde, em relação às áreas rurais. Outro ponto que requer reflexão é que, enquanto a violência mundial diminuiu em comparação à Antiguidade, cresceu o número de doenças mentais. Dorme-se menos, alterando o ciclo circadiano, o que interfere no hormônio melatonina, cuja produção é iniciada após uma hora de sono. “Como o cérebro vai descansar?”, questionou Saldiva, que somou este fato às relações sociais e afetivas diluídas nas grandes cidade a gerar um quadro de solidão excessiva, especialmente entre os idosos. “O melhor antídoto para se viver melhor é manter a rede de relações sociais”, aconselhou. E apesar de o ser humano estar vivendo mais, o número de casos de câncer aumentaram em função da elevação da insulina e do cortisol, fatores que interferem na imunidade. O estresse amplifica o dano imunológico, segundo expôs o médico.

Para a construção de uma cidade sustentável, é possível apontar algumas mudanças culturais desejáveis. Por exemplo, com tanta informação a respeito dos malefícios do tabaco, os antigos fumantes morreram e o consumo de cigarros pela nova geração caiu expressivamente. Os jovens também não se preocupam tanto em ter um carro próprio, mas apostam no compartilhamento. Os apartamentos espaçosos deram lugar aos pequenos e funcionais localizados nas proximidades de parques e sistemas de transporte, como a rede metroviária, para que se obtenha mais qualidade de vida com menos tempo gasto entre os deslocamentos em uma metrópole como é São Paulo.

Por fim, Saldiva lembrou que, no passado, a sobrevivência não se alicerçava nos fisicamente mais aptos, mas sim naqueles que viam e davam  sentido à sua vida e ao seu trabalho para que a sua existência fosse a mais produtiva e  agradável possível. Em sua conclusão, o médico Paulo Saldiva lembrou que a saúde é precificável, quando se trata de um ano perdido de vida, mas que é importantíssimo o setor privado debater tema tão importante como a qualidade do morar e viver nas grandes cidades.

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Paulo Saldiva, médico patologista, debateu a degradação da qualidade de vida nas metrópoles e a possibilidade de se viver em cidades sustentáveis. Foto: Everton Amaro/Fiesp

Saúde colaborativa e a tecnologia

Na sequência do Congresso de Bem-estar e felicidade, apresentou-se case de start up Cuidas, reflexo da tecnologia e inovação na reinvenção no sistema de saúde. Para o CEO Matheus Silva, saúde é algo estratégico para a empresa, pois trata-se do segundo maior custo após a folha de pagamento. O objetivo da plataforma é gerar valor e promover vantagens possibilitando que se paguem mensalidades mais em conta em relação ao mercado, além de se promover consultoria no próprio ambiente corporativo e a criação de comitês de saúde, considerando-se que o tema é amplo para estar atrelado ao Recursos Humanos (RH).

“Os benefícios são vistos de forma desintegrada, assim como a saúde dos colaboradores da organização. Qual o estado mental de alguém que enfrenta três horas em uma condução para chegar ao trabalho?”, questionou Silva. E inquiriu aos presentes o que significa ter saúde, o equilíbrio do corpo e não apenas a ausência de doença, mas a presença de bem-estar físico, emocional, mental, social, espiritual.

A população está acima do peso, sedentária, e Silva citou o case da Google e Adidas que alinharam sua cultura organizacional, com ênfase também à área da saúde, mudando paradigmas a fim de reter talentos. Assim, o Google reduziu em três vezes o absenteísmo com a realização de workshops, a prática de ioga, mindfulness e a presença de personal trainer no ambiente empresarial.

De acordo com o palestrante, o setor de saúde registrou inflação de 180%, entre 2000 e 2018, e o Brasil tem hoje mais de 47 milhões de beneficiários. Nos últimos três anos, mais de três milhões de pessoas deixaram de ter planos de saúde (IPEA, 2019). Apesar desse cenário, o Brasil é o 8º maior mercado no mundo, mas ocupa o 9º lugar em gastos com saúde.

Encarando os desafios para o bem-estar mental

No painel sobre os desafios para se alcançar o bem-estar, Camila Magalhães Silveira, médica psiquiatra e psicoterapeuta, tratou de diversos transtornos mentais e, especialmente o ‘beber pesado’ que interfere na qualidade de vida e têm impactos na saúde, como a pancreatite, dores crônicas, risco de acidentes, interferindo, inclusive, em uma vida produtiva, com a falta ao trabalho. Hoje, há dois bilhões de pessoas que consomem bebidas alcoólicas, no mundo.

O ‘beber pesado’ pode levar a 160 tipos de doenças ou lesões. A ansiedade é uma delas e afeta 20% da população, o transtorno de humor, 11% população. No panorama das cidades, o sofrimento afeta mais a mulher que vive sozinha, mas também o homem que busca o seu lugar. Nesse ponto, as mulheres são mais organizadas em suas redes de apoio do que o sexo masculino. Se os homens se tornam mais impulsivos e violentos, voltados ao uso de substâncias, as mulheres contabilizam aumento expressivo de uso de álcool, apesar de sua biologia ser mais vulnerável à bebida. Uma pesquisa realizada com universitárias constatou que as jovens estão consumindo álcool no mesmo patamar que os homens e já se verifica dependência na casa dos 36 anos.

Na avaliação da médica Silveira, metade da população não consome bebida alcoólica, mas os que ingerem álcool se encontram no padrão ‘problema’. “O Brasil tem potencial de empreendedorismo sensacional, por isso é preciso esse debate em torno da saúde mental”, concluiu.

Na sequência, Ana Bacellar, diretora do Comitê da Cadeia Produtiva do Esporte (Code) da FIESP, tratou de definir felicidade e bem-estar. “A felicidade é um traço, não existe bem-estar o tempo todo, existe estar”, afirmou, referindo-se a um estado de espírito. A felicidade é a sua percepção dos acontecimentos da sua vida menos as suas expectativas de como sua vida deveria ser, formulou.

Ao contar ao público sobre a sua trajetória pessoal, o que incluiu o enfrentamento de uma grave doença, Bacellar afirmou que viu “a cara da morte e ela estava viva” e resolveu fazer um pacto com a felicidade. Em sua concepção, 50% da nossa felicidade é herdada de nosso pais, ou seja, genética; 10% atrelam-se às circunstâncias; e 40% estão em “nossas mãos e eu decido ser feliz, eu decido como enfrentar essas circunstâncias”, explicou. “E qual o método para viver em gratidão? Parar, olhar e avançar”, finalizou, ou seja, escolher viver.