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Cenário econômico e pandemia impactam ambiente de negócios e alavancam profissões do futuro com o apoio da tecnologia

Para especialistas, pandemia da convid-19 acelerou mudanças no mercado de trabalho e tendências já podem ser constatadas atualmente

Isabel Cleary, Agência Indusnet Fiesp

“Com a crise econômica que já vinha de vários anos, e posteriormente a pandemia da Covid-19 que se instaurou em 2020, o ambiente de negócios se deteriorou. O fechamento de empresas e os altos índices de emprego fizeram com que as pessoas tivessem que se reinventar. Desta forma, houve um grande incentivo ao empreendedorismo e ao surgimento de novas profissões no presente, e outras se projetando para o futuro”. Foi com esta contextualização que Milton Bogus, vice-presidente da Fiesp e presidente do Conselho Superior da Micro, Pequena e Média Indústria (Compi), iniciou a reunião on-line realizada nesta quarta-feira (23/6), que debateu “O empreendedorismo e a visão das profissões do futuro no momento atual”.

O encontro reuniu especialistas em educação profissional e carreiras, que explicaram como as transformações tecnológicas se aceleraram, chamando a atenção para as profissões do futuro. A pandemia do novo coronavírus e as mudanças de hábitos que ela causou fizeram com que algumas tendências, antes restritas a alguns nichos de mercado, fossem amplamente adotadas.

Para Adauto Duarte, diretor de relações institucionais, trabalhistas e sindicais da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e integrante do Conselho Superior de Relações do Trabalho (Cort) da Fiesp, depois do advento da internet, o mundo digital se abre com inúmeras possibilidades. “A velocidade agora é outra. Nós já tínhamos a velocidade digital que imprimiu um processo de difícil adaptação para a sociedade e uma amplitude e profundidade muito grande depois do advento da internet. E tudo isso passou por um processo de aceleração com a pandemia”, ressaltou o diretor.

Ainda segundo Duarte, a fusão da tecnologia com outras áreas gera empregos muito criativos e cognitivos, o que tende a diminuir os trabalhos repetitivos e rotineiros, algo que já está em curso. “Estamos passando de uma sociedade que era mais física para uma mais relacionada ao coração e ao cérebro, ou seja, os trabalhos tendem a ser mais direcionados para a inteligência emocional”, destacou. O especialista também acrescentou que precisamos discutir sobre humanização das relações, uma vez que a introdução da tecnologia exige cautela para que toda essa velocidade não tire o que é mais essencial do ser humano, que é a educação e a capacidade de pensar, de interagir e de se relacionar.

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Reuniao do Compi, com mesa formada por Luciana Freire, Marco Antonio dos Reis, Milton Bogus e Osvaldo Lahoz. Foto: Ayrton Vignola/Fiesp

Quando falamos em macrotendências, é essencial entender onde estarão as principais demandas da sociedade e do mercado. Nesta linha, Oswaldo Lahoz, gerente de Inovação e Tecnologia do Senai-SP, apresentou as principais macrotendências pós-Covid-19. Segundo ele, teremos maior demanda por alimento, energia, novas tecnologias na área da saúde, expansão do trabalho remoto, a urbanização e megacidades 5G, a infraestrutura industrial reshoring ESG, aumento das tensões geopolíticas e o envelhecimento da população.

Uma das principais preocupações da sociedade, quando se fala de profissões do futuro, é a substituição do trabalho humano pelos robôs, acabando com o emprego de muitas pessoas. No entanto, o gerente explicou que essa possibilidade é um mito. “É óbvio que haverá disrupções no mercado de trabalho, mas não 100%. O que há é uma transição da volatilidade do posto de trabalho, que era concebido com tarefas mecânicas, na maioria dos casos, para tarefas de maior valor agregado, que incluem o uso das tecnologias da informação. Desta forma, terá grande demanda por habilidades socioemocionais, tecnológicas e cognitivas mais sofisticadas”, explicou Lahoz.

O especialista destacou, ainda, as 10 habilidades que serão valorizadas pelas empresas, que não são de natureza técnica. Na lista estão: resolução de problemas complexos, pensamento crítico, criatividade, gestão de pessoas, coordenação, inteligência emocional, bom-senso e tomadas de decisão, orientação para o serviço, negociação e flexibilidade cognitiva. Essas habilidades também são fundamentais para os empreendedores.

Por fim, o gerente do Senai-SP listou algumas das novas profissões: especialista em conectividade, especialista em flexibilidade e customização da produção, analista de dados, especialista em mobilidade (carros híbridos), especialista em cyber security, desenvolvedor de aplicativos em realidade aumentada, mantenedor de robôs industriais e colaborativos, e criador de games empresariais, entre outras atividades.

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Também no cenário das tendências, Tirso Meirelles, presidente do Sebrae SP, destacou que a autogestão baseada em resultados será essencial para os profissionais que desejam estar alinhados com o mercado de trabalho. “Essa habilidade está em linha com as novas dinâmicas, em que a liberdade é muito valorizada. Afinal, o que importa daqui para a frente não é o funcionário mostrando trabalho por horas, mas sim a entrega de resultados”, comentou. Outras habilidades destacadas foram o aprendizado ao longo da vida, automação e tecnologias diversas, anywhere office [escritório em qualquer lugar, em tradução livre] e economia gig [economia compartilhada, tendência mundial de empresas optarem pela contratação temporária de acordo com a demanda, em função do uso das plataformas digitais e mudanças tecnológicas].

Mais uma questão abordada por Meirelles foi a importância das lideranças em momentos como este que estamos passando. “Além de vivermos com as incertezas, temos também a ansiedade e outros problemas psicológicos, e saber lidar com todas estas questões, na sua equipe, é um grande desafio para os líderes”, alertou. O presidente do Sebrae também chamou a atenção para a reconstrução da economia dos pequenos negócios com uma visão de curto e médio prazo. “O futuro do nosso trabalho está intrinsicamente associado ao modelo de empreendedorismo, e a riqueza do futuro depende disso”, finalizou.

Tania Casado, professora titular da Universidade de São Paulo (USP) e diretora do Instituto de Carreiras desta instituição, discorreu sobre a atual definição de carreira. De acordo com a especialista, carreira não é mais a sequência de cargos e, sim, uma única sequência de experiências pessoais de trabalho ao longo do tempo. “Nesta definição de trabalho, não falamos especificamente do remunerado, porque o trabalho voluntário e para a comunidade também se incorpora à carreira. Sabemos por pesquisas que o trabalho voluntário agrega expertises e competências”, contou a professora.

Na sua fala, Casado ressaltou que a nossa sociedade saiu de um modelo de carreiras tradicionais, no qual o gerenciamento competia à organização e as estruturas fixadas para cima e para a frente, as promoções se davam por tempo de casa e os resultados eram organizacionais. “Isso mudou, e agora a carreira é gerenciada pelo indivíduo. Nós temos ciclos de desenvolvimento e nos movimentamos entre áreas, além das metas serem individuais, mas claro, alinhadas com as da empresa”, articulou. Segundo pesquisa realizada pela USP, e apresentada pela professora durante a reunião, as carreiras do futuro estão nas áreas de educação, energia, entretenimento, ética, infraestrutura, inovação, saúde, segurança, socioambiental transformação digital.

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