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Carros voadores, internet das coisas e energia limpa: estamos preparados para o futuro?

Em evento realizado na Fiesp, especialistas compartilham as últimas tendências do setor de infraestrutura no Brasil e no mundo e avaliam os desafios que ainda precisam ser vencidos: o que falta para entrarmos, efetivamente, no século 21?

Mayara Moraes, Agência Indusnet Fiesp

O setor de infraestrutura passará por profunda transformação nas próximas décadas, com base na descentralização dos recursos, digitalização dos processos e eletrificação das coisas. Tudo isso revolucionará a forma como pessoas se deslocam, como os indivíduos e todas as coisas se comunicam e como a energia é gerada. Para refletir sobre os paradigmas e os novos desenhos de mercado originados pelas novas tecnologias, a Fiesp reuniu nesta segunda-feira (21/10), alguns dos principais especialistas do Brasil em telecomunicações, energia e mobilidade urbana durante o workshop “Encontro com o Futuro”.

Carlos Cavalcanti, vice-presidente da Fiesp e diretor titular do Departamento de Infraestrutura (Deinfra) da entidade, abriu os debates com um alerta: “Estar preparado para este novo momento da infraestrutura significa estar aberto à inovação”, disse o especialista. “O objetivo deste seminário é conhecermos o que está sendo desenvolvido e implantado de mais moderno no mundo e, de que forma, o Brasil pode se adaptar a essas novas tecnologias”, acrescentou.

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Para Carlos Cavalcanti, as inovações tecnológicas são a oportunidade que o Brasil tem para se recriar como país e entrar definitivamente no século 21. Foto: Ayrton Vignola/Fiesp

Ele lembrou que o tráfego de dados, no Brasil, deverá aumentar três vezes até 2021 e advertiu para a imprescindibilidade de o país incorporar os dispositivos de internet das coisas à nova infraestrutura de comunicação, especialmente por meio da implementação da tecnologia 5G.

“As primeiras implantações de 5G já começaram em países da Europa, na Coreia do Sul, Japão e Estados Unidos, e a China já está pensando no 6G para 2030”, destacou Cavalcanti. “No Brasil, a Anatel e o MCTIC trabalham para que o leilão do 5G aconteça em 2020 e, assim, o país entre nessa nova realidade, mas para isso, é imperativo que o leilão não seja oneroso, apenas com objetivo arrecadatório”, observou. Segundo o diretor, o país tem muito mais a ganhar se o critério praticado no leilão for a velocidade de instalação das redes 5G.

Roberto Falsarella, gerente de Novos Negócios da Nokia, imprimiu a visão da indústria ao debate e enalteceu a relevância da tecnologia para o setor. “A [tecnologia] 5g pode ser muito útil, especialmente para a indústria 4.0, graças aos recursos de automação de sistemas, rastreamento de esteiras e simulação do mundo físico no mundo virtual”, apontou o especialista. “A Nokia aplica o conceito de indústria 4.0, e desde que começou a usar essas tecnologias nas próprias fábricas, constatou um aumento da produtividade de cerca de 30%”, revelou.

Rodrigo Linhares, líder de IOT da Cisco do Brasil, destacou alguns dos inúmeros problemas enfrentados pela indústria de infraestrutura que podem ser solucionados com a aplicação da tecnologia 5G.

“Ter essa tecnologia nos túneis usados pelas mineradoras pode ajudar a traquear dispositivos, diminuir o tempo de resposta na execução de um projeto e diminuir os custos de implementação”, explicou Linhares. “Nos casos de funcionários que trabalham nos setores de gás e óleo, com uma cobertura wireless em cima da refinaria e um detector de vazamento de gás na roupa do trabalhador, você pode tomar uma ação reativa e evitar muitas mortes”, ilustrou.

Para Claudio Pinheiro, senior Data Scientist da IBM, além de garantir a segurança dos funcionários que atuam na indústria, o emprego da tecnologia também pode aumentar a produtividade desse setor, tão fundamental para a economia.

“Precisamos de quatro trabalhadores brasileiros para fazer o trabalho de um americano, e a melhor maneira de resolver isso é usando a inteligência artificial”, apontou Pinheiro. “Esse uso poderia dobrar o nosso PIB nos próximos 15 anos”, ponderou.

Embora apresente inúmeras possibilidades, facilidades e vantagens, o futuro da conectividade também demanda cautela. Para Cristine Hoepers, gerente geral do CERT.br/NIC.br, esse mundo proporciona incontáveis maravilhas, mas também é vulnerável a ações criminosas.

“Recebemos muitas notificações de incidentes que acontecem no país, como ataques programados de malwares”, revelou Hoepers. “Grupos criminosos se aproveitam dessas tecnologias, e o Brasil sempre vai figurar como um dos lugares que mais tem ataques porque tem uma das maiores redes do mundo”, alertou a especialista em segurança digital.

Para Hoepers, é essencial que o brasileiro aprenda com os erros do passado e cobre medidas mínimas de segurança das grandes corporações, como protocolos criptografados e atualizações de segurança em larga escala.

“Vocês têm o poder de compra e precisam exigir segurança dos fornecedores”, disse à plateia. “Atualizações precisam fazer parte do ciclo de vida dos aparelhos e são necessárias para que possamos lidar com problemas”, sublinhou.

Energia limpa e barata

A busca por fonte energética de baixo carbono levou vários países a se comprometerem com metas de inserção de renováveis e redução no consumo de combustíveis fósseis, aplicadas tanto ao transporte, quanto à geração de energia. Com o passar dos anos, essas metas originaram políticas públicas, com incentivos fiscais e tarifários que, de fato, estimularam o crescimento das fontes renováveis.

“No mundo, a capacidade instalada de geração eólica, por exemplo, passou de 50 GW, em 2005, para quase 600 GW, em 2018 (1.200%, em 13 anos)”, observou Carlos Cavalcanti. “O crescimento da fonte solar fotovoltaica foi ainda mais expressivo, saindo de 15 GW instalados, em 2007, para mais de 500 GW, em 2018, dobrando sua capacidade apenas nos últimos 3 anos”, acrescentou.

Ainda segundo o diretor, essa expansão, aliada ao rápido desenvolvimento tecnológico de módulos fotovoltaicos e aerogeradores, fez o preço das fontes despencarem.

“No caso da eólica, os preços praticados em leilões caíram de 80 dólares por MWh, em 2010, para 20 dólares, em 2018”, disse o diretor de infraestrutura da Fiesp. “Já no caso da solar fotovoltaica, os preços despencaram de mais de 350 dólares por MWh, em 2010, para menos de 20 dólares, em 2018”, lembrou Cavalcanti.

Em outras palavras, se antes o uso das fontes de energia renováveis era motivado exclusivamente pelas preocupações com o meio ambiente, nos últimos anos, ele se tornou interessante por ser também economicamente atrativo. De acordo com especialistas, o Brasil tem se posicionado de forma agressiva nessa nova realidade, mas aspectos relacionados à regulamentação ainda precisam ser aprimorados.

“O mundo está transicionando de uma economia muito emissora de carbono para baixo carbono e o Brasil está surfando nesse processo de transição energética”, afirmou Luiz Barroso, CEO da PSR Consultoria. “Junto com as renováveis, estão surgindo novos modelos de negócios e novas ofertas de portfólios, mas a regulação brasileira vai precisar evoluir para não engessar toda essa transformação”, advertiu.

Barroso citou os Estados Unidos e a Inglaterra como exemplos de países onde os órgãos de fiscalização reduziram sua participação nas decisões individuais e flexibilizaram marcos regulatórios e institucionais.

“Nesses dois países, os clientes têm opções de escolha e podem exercer seu direito de ser livre”, explicou. “Nos EUA, os consumidores possuem três diferentes tipos de tarifa disponíveis, de acordo com o grau de confiabilidade e o nível de energia limpa, enquanto na Inglaterra o consumidor pode encontrar a melhor proposta para suprimentos de energia elétrica e fazer a migração do fornecedor do serviço pela internet”, complementou.

A distribuidora CPFL Energia tem observado o movimento de descentralização do mercado e feito transformações para se adaptar às mudanças do setor. “Enxergamos que o empoderamento do consumidor e as novas tecnologias renováveis são uma tendência mundial”, reconheceu Rafael Calaes, gerente de Inovação da CPFL. “Nascemos como distribuidora, mas temos diversificado o portfólio, porque entendemos que precisamos desenvolver novos modelos de negócios para continuar sendo relevantes no setor”, afirmou.

Para Cavalcanti, é surpreendente notar que, diante de um cenário de liberdade em voga em todo o mundo, ainda há instituições que defendam que a Eletrobras mantenha 30% da capacidade de geração do país e 50% da transmissão. “O país tem hoje uma oportunidade enorme nas mãos, que é de fatiar, em muitos pedacinhos, sua maior estatal do setor elétrico”, provocou o diretor. “Isso sim tornará o setor mais moderno, mais dinâmico e mais livre”, defendeu.

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O workshop Encontro com o Futuro reuniu alguns dos principais especialistas do Brasil em telecomunicações, energia e mobilidade urbana. Foto: Karim Kahn/Fiesp

Trens movidos a combustíveis limpos, carros voadores e micromobilidade: as transformações no espaço urbano

Veículos sustentáveis, autônomos e conectados a pessoas e à internet das coisas já são uma realidade. Foi nesse cenário que Alexandre Massaki, commercial director da Alstom, apresentou o Coradia Ilint, primeiro trem movido a hidrogênio do mundo, a uma plateia entusiasmada. Construído para acomodar até 300 passageiros e atingir até 140 km/h, a menina dos olhos da Alstom já rodou mais de 150 mil km desde que o teste piloto foi iniciado em agosto de 2018, na Alemanha.

“Nossa ideia era ter um sistema completo de fornecimento de hidrogênio, um recurso abundante, eficiente e limpo”, contou Massaki. “O que o nosso trem deixa de emitir em um ano equivale a emissão anual emitida por 40 automóveis”, destacou.

Enquanto a Alstom vislumbra um futuro de expansão, com a entrega de uma frota completa de Coradia Ilint à região da Baixa Saxônia prevista para 2020, a Embraer e a Uber projetam um produto ambicioso: o primeiro carro voador nacional.

Sandro Giovanni Valeri, head de Inovação da Embraer revelou que o novo veículo, uma intersecção entre helicóptero, avião e drone, que vem sendo chamada de Electric Vertical Take Off and Landing (eVTOL), pode começar a voar nas grandes cidades a partir da próxima década.

“O sistema de operação do eVTOL será similar ao de um metrô aéreo, com todos os pontos fixos para decolagem e desembarque, a uma distância similar à de São Paulo à Campinas”, antecipou Valeri.

A implementação do novo veículo deve vir acompanhada de uma série de mudanças no ambiente urbano. “Estamos criando um ecossistema que vai demandar nova infraestrutura”, admitiu o head de Inovação da Embraer. “Vamos ter que construir prédios e estações específicas para isso, assim como novos processos de certificação para esse tipo de aeronave, e um novo software de tráfego aéreo para termos o controle sobre a movimentação desses veículos”, revelou.

No aguardo por trens elétricos e carros voadores, os brasileiros se rendem ao fenômeno da micromobilidade, novo conceito de mobilidade urbana que prevê o compartilhamento de meios de transporte como bicicletas e patinetes. Os protagonistas dessa nova tendência prometem revolucionar a maneira como as pessoas se relacionam com as grandes cidades e, desde já, se posicionam como um ator importante no processo de evolução do deslocamento das pessoas nos grandes centros.

“Não somos a solução para a mobilidade urbana, mas parte dela”, argumentou Milton Achel, government and institutional relation da Grow Mobility. “Nossos equipamentos não vão substituir linhas estruturais de ônibus, nem linhas ferroviárias, mas vão resolver o problema da primeira e da última milha, reduzir o trânsito e as emissões de poluentes, além de incentivar as pessoas a se reconectarem com a cidade e se apropriarem dela de maneira diferente”, ressaltou.

Segundo Achel, pesquisas mostram que o número de viagens compartilhadas cresceu quase 100% desde 2018, quando o patinete elétrico foi introduzido nos grandes centros urbanos. Entretanto, as cidades brasileiras ainda precisam se adequar aos novos modelos propostos pela micromobilidade.

“A perspectiva para os próximos anos é de mais crescimento, mas para isso seria importante redesenhar nossas ruas”, alertou o especialista da Grow. “Redesenhar a rua não vai ser bom para a Grow ou para o moderninho que usa patinete, mas para todas as pessoas que usam as cidades”, argumentou.

Hoje, mais de 50% da população mundial vive em áreas urbanas. Até o final deste século, esse percentual deve chegar a 80%. Há um consenso de que desenvolver governança e garantir transparência na gestão dos setores de telecomunicações, energia e mobilidade urbana será fundamental para garantir a qualidade de vida dos cidadãos.

“Teremos que equilibrar tecnologia, modelos de produção e mudanças de comportamento”, advertiu o scientist & innovation designer Fabio Gandour. “O Brasil precisa investir em infraestrutura, em linha com o modelo político e econômico atual, e sem perder a população mais idosa de vista”, sugeriu o cientista.

Para Cavalcanti, o setor de infraestrutura no Brasil caminha entre a expectativa e a realidade. Há grandes desafios a serem superados, mas não há tempo a perder: “As inovações tecnológicas e o futuro da infraestrutura são a oportunidade que o Brasil tem para se recriar como país e entrar definitivamente no século 21”.