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‘Cacilda era uma mulher de teatro e foi uma líder desde pequena’, diz pesquisadora no InteligênciaPontoCom

Maria Thereza Vargas é especialista na obra de Cacilda Becker e foi a convidada desta terça-feira (17/09) no evento do Sesi-SP

Isabela Barros, Agência Indusnet Fiesp

“Cacilda Becker era muito ligada ao sofrimento humano, ela perdoava. As personagens eram como irmãs dela”. A afirmação é da pesquisadora do teatro Maria Thereza Vargas, a convidada do  InteligênciaPontoCom, bate-papo mensal com personalidades do mundo das artes e da cultura realizado pelo Serviço Social da Indústria de São Paulo (Sesi-SP). A edição deste mês do evento ocorreu na noite desta terça-feira (17/09), no Centro Cultural Fiesp – Ruth Cardoso, na sede da entidade e da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na Avenida Paulista.

Na ocasião, Maria Thereza Vargas, foi entrevistada pelo jornalista da Folha de S. Paulo, Nelson de Sá. E falou sobre a vida e a obra da maior diva do teatro brasileiro, a atriz Cacilda Becker (1921-1969). Maria Thereza é uma pesquisadora pioneira da história das artes cênicas no Brasil. A teórica é uma das indicadas ao Prêmio APCA 2013, da Associação Paulista de Críticos de Arte, pela carreira de pesquisadora teatral e pela autoria do livro “Cacilda Becker: Uma Mulher de Muita Importância”.

Segundo Maria Thereza, Cacilda era uma total apaixonada pelo teatro, a ponto de cansar os amigos por “só falar no assunto”. “Cacilda viveu num tempo em que não havia o teatro de imagens como hoje”, disse. “Uma boa interpretação deveria estabelecer uma comunhão de emoções entre intérprete e público”.

Maria Thereza Vargas: histórias de trabalho e amores de Cacilda Becker. Foto: Julia Moraes/Fiesp

Maria Thereza Vargas: histórias de trabalho e amores da musa Cacilda Becker. Foto: Julia Moraes/Fiesp


O que transformou Cacilda uma musa? O fato de ela ter “feito parte do mistério que envolve a profissão de atriz” com tanta entrega. “Cacilda era uma mulher de teatro e foi uma líder desde pequena, na família”, contou. “Ela causava fascínio em cena. Sempre ouvi falar dela, uma moça que veio de Santos e causou surpresa pela beleza e pelo talento”.

Muito identificada com as personagens “sofridas e dramáticas”, a atriz ganhou aplausos redobrados ao interpretar um menino na peça “Pega Fogo”, de Jules Renard. “Eu me lembro muito bem desse espetáculo, foi um destaque na carreira dela”.

Conselhos terríveis

Entre as curiosidades reveladas por Maria Thereza no Centro Cultural Fiesp – Ruth Cardoso estiveram bastidores como o fato de que Cacilda apresentava programas de rádio. “Muito viva e muito inteligente, ela não só apresentava os cantores, mas fazia a redação de programas e dava conselhos para pessoas que escreviam cartas”, contou. “Os conselhos dela eram terríveis”. Como exemplo dessas orientações sentimentais, a pesquisadora citou a carta de uma moça zangada com os pais, que não a deixavam sair. “A recomendação dada por Cacilda foi: fuja de casa”.

Razão e sensibilidade

Os amores da diva, claro, não ficaram de fora. Como o casamento com o modernista Flávio de Carvalho, precursor da performance no país. “Cacilda guardou dele uma imagem muito bonita”, explicou. “Dizia que ele foi o homem que a apresentou a Debussy”.

O romance com o também ator Walmor Chagas, seu último marido, foi descrito pela pesquisadora como uma história de respeito e harmonia diante das diferenças. “Os grandes elencos são movidos por amor”, afirmou. “Cacilda e Walmor viviam uma relação de admiração mútua que com o tempo foi se solidificando”, disse.

Um encontro que trouxe bons momentos para o teatro brasileiro. “Em cena eles se conheciam. Como num jogo de tênis, como dizia ele, tentavam ficar em harmonia: havia respeito, mas eles jogavam”, contou. Segundo Maria Thereza, Walmor era um homem “muito racional”, enquanto Cacilda era “muito emotiva”, a ponto de “molhar o chão do palco com lágrimas”. “O amor deles acalmou aquela emoção dela e, ao mesmo tempo ela o compreendeu”, afirmou. “Foi uma parceria excelente não porque fossem iguais, mas porque havia ali duas espécies de pessoas”.

Cacilda Becker fez aproximadamente 70 peças em seus 28 anos de carreira. Entre os maiores sucessos, de acordo com Maria Thereza, estiveram espetáculos como “Quem tem medo de Virgínia Woolf?” e “Esperando Godot”.