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Brasil precisa definir política industrial que fortaleça empresas de biotecnologia, diz coordenador de comitê da Fiesp

De acordo com Eduardo Giacomazzi, ao criar o Combio, Fiesp compreende que a biotecnologia é fundamental para uma indústria preocupada com a sustentabilidade

Juan Saavedra e Dulce Moraes, Agência Indusnet Fiesp

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Eduardo Giacomazzi: coordenador do Comitê da Cadeia Produtiva de Biotecnologia (Combio) da Fiesp. Everton Amaro/Fiesp

A definição de uma política industrial de biotecnologia é uma das reivindicações do setor, afirma Eduardo Giacomazzi, coordenador do Comitê da Cadeia Produtiva de Biotecnologia (Combio) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Criado em 2012, o Combio tem como missão disseminar uma agenda a favor da competitividade brasileira, segundo o coordenador – atual membro-observador e palestrante do Brasil no Grupo de Trabalho sobre Biotecnologia na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD).

Na visão de Giacomazzi,  faltam lideranças setoriais na condução de investimentos para o setor e políticas públicas que estimulem a base do desenvolvimento da biotecnologia em bioindústrias produtivas, da saúde à alimentação.

“A experiência europeia, americana e japonesa apontam no caminho das Parcerias Públicas Privadas”, sugere o coordenador, que já exerceu a direção-executiva da Associação Brasileira de Biotecnologia (BrBiotec).

Nessa entrevista, Giacomazzi fala sobre o papel do Comitê e os desafios do setor.

Em que contexto o Combio foi criado e qual é a compreensão conceitual que a Fiesp tem sobre a biotecnologia e bioindústria?
Eduardo Giacomazzi – O Combio é uma iniciativa que nasceu da parceria de empresas, entidades e profissionais da bioindústria envolvidos com os avanços da biotecnologia no Brasil. A liderança de São Paulo na bioeconomia brasileira e o expressivo número de empresas de biotecnologia da região faz do Estado um ator importante das discussões setoriais relacionados ao tema. A Fiesp, por meio do Combio, contribui para a disseminação de uma agenda a favor da competitividade brasileira e compreende que a biotecnologia, por ser um tema portador de futuro, é fundamental para uma indústria preocupada com a sustentabilidade. Desta forma, sua atuação é transversal aos setores por ela representados.

Qual é o mapa da biotecnologia no Brasil?
Eduardo Giacomazzi – O mapa da biotecnologia no Brasil, em estudo realizado pelo Centro Brasileiro de Análise Planejamento (Cebrap), apontou em 2011 o crescimento do número de novas empresas nos últimos 10 anos e apresentou a perspectiva regional da distribuição geográfica de empresas e produção científica. A elaboração de estudos setoriais em biotecnologia no Brasil é recente e carece de regularidade e rigor metodológico. Esse esforço é fundamental para que novas políticas públicas estejam cada vez mais em sintonia com a realidade empresarial e científica.

O que o Estado de São Paulo tem a contribuir para o desenvolvimento da biotecnologia no país?
Eduardo Giacomazzi – O Estado de São Paulo representa 40% das empresas de biotecnologia do país. Grupos empresariais como empresas dos setores farmacêutico, agrícola e sucroalcoleiro têm sede no Estado. Além disso, São Paulo conta com as principais instituições de ensino e pesquisa do país numa rede de cooperação científica que se estende nacional e internacionalmente.

Quais as contribuições mais relevantes do país para o avanço da biotecnologia no contexto global?
Eduardo Giacomazzi – Cito três: biocombustíveis, agricultura e vacinas. Na área energética, desde que lançou o programa Proálcool na década de 70, o Brasil se posicionou na chamada primeira geração de etanol a partir da cana-de-açúcar. Hoje, somos líderes mundiais no desenvolvimento de novas espécies e em produção. Na agricultura, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), criada em 1973, é referência mundial em pesquisa no setor. O mesmo vale no setor de vacinas, com instituições centenárias como Fiocruz e Instituto Butatan. Embora seja reconhecido internacionalmente no uso da biotecnologia na agricultura (Embrapa) e energia (etanol), além de sua tradição no desenvolvimento de vacinas (Fiocruz e Instituto Butantan), o Brasil não possui um posicionamento claro como país no cenário mundial.

Quais são as boas práticas no cenário internacional, em termos de política para o setor, que poderiam ser aplicadas no Brasil?
Eduardo Giacomazzi – No cenário internacional, podemos apontar a prática das políticas europeias: “FP7″ e “Horizon 2020″, além das Parcerias Público-Privada (PPPs) desenhadas como política pública para os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD).

Um dos diagnósticos para o baixo nível de crescimento do país em 2012 foi o pequeno volume de investimentos. Como atrair recursos para o setor de biotecnologia nos próximos anos?
Eduardo Giacomazzi – A definição de uma política industrial é uma das reivindicações antigas para o setor. Como parte da importante malha de investimentos públicos que deve ser direcionada às empresas e à pesquisa, ainda falta uma ação mais forte por parte do governo. A insegurança jurídica, como é o caso do acesso à biodiversidade, é um bom exemplo de como o Brasil vem afastando o investimento da indústria para o setor.

Em fevereiro deste ano, durante reunião do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, a presidente da República Dilma Rousseff pediu um maior empenho do governo na pesquisa em biotecnologia e na abertura de novos laboratórios. O que falta para haver um salto? Quais os são os desafios?
Eduardo Giacomazzi – Faltam lideranças setoriais na condução de investimentos para o setor e políticas públicas que estimulem a base do desenvolvimento da biotecnologia em bioindústrias produtivas, da saúde à alimentação. As experiências europeia, americana e japonesa apontam para o caminho das PPPs. Desta forma, o Brasil terá condições de dar um salto “bioeconômico”, favorecendo, com isso, a preservação de nossa biodiversidade e a educação para a ciência para as próximas gerações.

O governo federal anunciou que destinará recursos para estimular a área de biotecnologia. E sabemos que pesquisas em biotecnologia não são feitas apenas nos laboratórios de universidades. Como o senhor acha que as empresas podem ter acesso a esses recursos e como elas poderão se habilitar?
Eduardo Giacomazzi – A coordenação destes programas é resultado de um governo disposto a ouvir, mas há muito a ser realizado. Para ter acesso aos recursos, as empresas precisam estar aptas para mergulhar no complexo processo da pesquisa e desenvolvimento (P&D). Além disso, investimento em educação associado ao programa é uma inovação em termos de política, mas ainda falta entendermos seu funcionamento, suas regras e, sobretudo, ampliar o acesso das empresas a estes recursos. A operação do programa é tão mais importante quanto o programa em si. Vamos acompanhar e colaborar para que isso ocorra.

O Brasil está formando mão de obra suficiente para atender às demandas da indústria de biotecnologia?
Eduardo Giacomazzi – Não, a exemplo de outros setores, existe um apagão de profissionais no setor. O processo iniciado pelo programa Ciências sem Fronteiras, do governo federal, é um passo importante. Nossos estudantes precisam participar da pesquisa de ponta realizada em outros países. Por outro lado, a indústria carece de programas que estimulem o intercâmbio de mestres, doutores e PHD’s entre institutos e empresas. Precisamos de um “Ciência sem Fronteiras” de mão dupla, voltado à indústria. O processo de internacionalização das empresas não está associado somente à promoção e exportação; faltam programas que valorizem a transferência tecnológica e realização de patentes em parceria com institutos fora do Brasil.

O Brasil é valorizado pela biodiversidade. Espécies da Amazônia e Cerrado atraem o interesse de pesquisadores e indústrias do mundo todo, principalmente nas áreas de cosméticos e fármacos. Aqui em São Paulo temos exemplos de espécies cuja pesquisa apresentam esse potencial?
Eduardo Giacomazzi – A lei de acesso à biodiversidade e o protocolo de Nagoia serão temas de nossas discussões em 2013. Além disso, materiais como bambu são exemplos de como o uso sustentável de novas espécies podem gerar riqueza e desenvolvimento sustentável a partir de seu uso nas diversas cadeias produtivas. Elementos chave: multidisciplinariedade, ações transversais e a colaboração intersetorial. Se conseguirmos avançar nestes pontos, os benefícios socioeconômicos serão imensos. Para a bioeconomia, ou melhor, uma economia baseada em bio-based products, os produtos de base biológica estão intimamente relacionados à sua cadeia e uso sustentável dos resursos. Um bom exemplo é a cana-de-açúcar transformada em plástico verde – bioplástico e energia renovável.