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Seminário na Fiesp debate avanços em sustentabilidade no Brasil e União Europeia

Organizações empresariais enfrentam mudança de cultura que requer ações proativas, assegurando competitividade

Solange Sólon Borges, Patricia Ribeiro e Graciliano Toni, Agência Indusnet Fiesp

O desenvolvimento sustentável deve ser entendido como oportunidade, e não custo, pois há um círculo virtuoso impulsionado pelas políticas públicas e com a cooperação das empresas europeias, líderes em tecnologia sustentável. A observação de João Gomes Cravinho, embaixador da União Europeia (UE), foi feita na abertura do seminário Responsabilidade Social e Sustentabilidade: experiências Brasil e União Europeia nesta quinta-feira, 3, na Fiesp. Cravinho reforçou que os objetivos abraçados pela sociedade exigem mudanças na forma de pensar em novos modelos de produção e consumo. Para ele, o tema ultrapassa fronteiras e afeta a todos. Por isso, deve unir sociedade, governo e empresas, em seus princípios básicos de boa convivência, para não se trilhar o caminho do conflito.

“No Tratado da União Europeia, o desenvolvimento sustentável e o respeito aos direitos humanos são princípios norteadores e consagrados a serviço do ser humano”, disse o embaixador. Nesse contexto, desde 2014 a União Europeia e 16 outros membros da Organização Mundial do Comércio (OMC) negociam acordo de bens ambientais cruciais para a proteção e mitigação das alterações climáticas, “o que é interessante para o Brasil. Intensifica-se o crescimento verde e há ganhos em escala com resultados benéficos globais”, pontuou.

Ainda no âmbito internacional, Cravinho lembrou que a UE adotou conjunto de diretrizes sobre a conduta empresarial, e um dos focos é a divulgação dos princípios da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) acordadas internacionalmente. “Um acordo de livre comércio entre União Europeia e Mercosul, que ainda está sendo negociado, contará com um capítulo de desenvolvimento sustentável”, revelou  Cravinho.

A importância da realização desse seminário neste momento, em função da recente adoção dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) ocorrida na cúpula das Nações Unidas, em setembro, foi lembrada por João Ometto, vice-presidente da Fiesp. Outro ponto coincidente é a realização até 11 de dezembro da 21ª Conferência das Partes (COP21) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), em Paris, na França.

Ao citar parte do esforço brasileiro quanto ao clima – a adoção do Código Florestal e a redução do desmatamento –, Ometto tratou da expectativa de um acordo possivelmente vinculante com metas para redução de emissões de GEE, além de esforços e recursos destinados à mitigação, adaptação e transferência de tecnologia no futuro acordo de Paris. Ometto lembrou que é fundamental tornar as cidades mais inclusivas, em função da mudança climática, e também citou o engajamento da Fiesp em grandes debates, como a Rio+20 e o projeto Humanidade 2012.

Para o empresariado, o futuro vem acompanhado de ações proativas e ligadas à sustentabilidade, garantindo, inclusive, sua competitividade, pontuou Nelson Pereira dos Reis, diretor titular do Departamento de Meio Ambiente (DMA) da Fiesp. “A Fiesp participa das principais iniciativas governamentais e auxiliou o Governo Federal na construção dos compromissos em relação às mudanças do clima”, disse. A Fiesp conta com uma representação na COP21.

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A importância do papel das organizações empresarias no desenvolvimento sustentável, com o incentivo às boas práticas e à minimização das desigualdades, foi a principal mensagem de Gracia Fragalá, diretora titular do Comitê de Responsabilidade Social (Cores) da Fiesp.

No mesmo sentido, “muitas empresas brasileiras já possuem alto índice de sustentabilidade, com indicadores como o ISO 18000, mas há a expectativa de cooperação, principalmente por parte das inúmeras empresas estrangeiras que atuam no Brasil, para que adotem aqui os mesmos critérios utilizados em seus países” de origem, segundo enfatizou a embaixadora Débora Salege, chefe do escritório de representação do Ministério de Relações Exteriores (MRE) em São Paulo.

Thomaz Zanotto, diretor de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Fiesp (Derex), reforçou que o mundo evolui rapidamente para novos padrões de governança global, e o consumidor exige sustentabilidade dos produtos.

No painel “Práticas de Responsabilidade Socioambiental envolvendo stakeholders, um dos cases foi da Companhia Piratininga de Força e Luz (CPFL) Renováveis, empresa de distribuição de energia que revitalizou 101 hospitais filantrópicos, em 83 municípios paulistas, reduzindo a inadimplência do setor de 12% para 3% em três anos. Marcio Severi, diretor de Relações Institucionais, frisou que há cobrança por projetos robustos e de números expressivos, mas a prática é diferente, pois é preciso fazer chegar a missão, valores e visão da empresa aos pequenos lugares. Esse é o desafio.

Na EDP Energias do Brasil, controlada por uma das maiores operadoras europeias no setor energético, que comercializa e distribui energia elétrica, a lição de casa é acompanhar as mudanças ocorridas nos últimos dez anos, afirmou Pedro Sirgado, diretor executivo do Instituto EDP. Ele pontuou que é preciso alinhar o que já se fazia e entender como medir a eficácia de um projeto social.

Adaptação também foi a tônica da avaliação feita por Luciane Rodrigues Pinheiro, diretora de Responsabilidade Social Corporativa da Tractebel. “Há um grande número de comunidades para serem atendidas com necessidades diferentes”, disse, inclusive explicando aos parceiros incentivos fiscais disponíveis que muitos desconhecem.

Já o desafio da Unipar Carbocloro foi abrir a indústria química com o projeto Programa Fábrica Aberta, com o qual se obteve o engajamento dos funcionários que acompanhavam os visitantes. “Houve quebra de paradigma e um salto enorme na cultura da empresa”, disse Airton Antônio de Andrade, gerente industrial, que revelou que hoje há jardins e criadouro conservacionista na planta.

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Mesa de abertura do seminário Responsabilidade Social Corporativa e Sustentabilidade, na Fiesp. Foto: Helcio Nagamine/Fiesp


Agenda 2030

O painel 2 do seminário teve como tema Integrando os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável – Agenda 2030 – nas práticas empresariais. A mediação ficou a cargo de Barbara Dunin, assessora da Secretaria da rede brasileira do Pacto Global da ONU. Ela lembrou que mais de 700 entidades integram o Pacto Global, que tem como grande missão engajar as empresas nesses grandes objetivos.

Citou frase de João Gomes Cravinho, embaixador da União Europeia, na abertura do seminário: “Aquilo que nos afeta nos une”, o que justifica a existência da Agência.

Afonso Champi, diretor de Assuntos Institucionais para o Brasil e Cone Sul da Ferrero, disse que desde o início dos anos 60 a empresa já se preocupava com questões da responsabilidade social corporativa. Isso está em toda a agenda da Ferrero, que tem 10 grandes metas, como consumo de água e sua redução, o uso de energias renováveis, a busca de parceiros com os mesmos valores para os mesmos temas.

A agenda busca destacar os critérios mais significativos para cada matéria-prima e cada cadeia de valor.  Procuram sempre o desenvolvimento de fornecedores locais. O primeiro dos quatro pilares da estratégia está no produto, da matéria-prima à comunicação responsável e prática comercial responsável. O segundo é a Fundação Ferrero, mais ativa em Alba (Itália), com atividades culturais, educativas e serviços para os funcionários aposentados. Terceiro pilar é social, com a escolha de bolsões de pobreza do mundo, em que ação transformadora faça a diferença. Exemplo é Camarões, na África, com fábrica com os mesmos critérios das outras da Ferrero, trabalhando para ter impacto sobre a comunidade. O quarto pilar é o Projeto Kinder+Sport, que estimula a vida saudável de jovens e adolescentes, que têm influência muito forte sobre suas famílias e comunidade. Tira do sedentarismo as pessoas.

Perguntado sobre medidas de proteção contra desmatamento adotadas pela Ferrero, explicou que a empresa participa de parcerias com outros stakeholders, por exemplo em óleo de palma e cacau. Além de desmatamento, há questões ligadas à mão-de-obra nas regiões de plantio de cacau. Na Amazônia, tendência é plantar cacau em áreas antes usadas por outras culturas. Tenta também identificar as expectativas das comunidades. Ao reunir especialistas, implanta melhores experiências de outras regiões com experiências semelhantes. Há o objetivo de até 2020 ter 60% de seu fornecimento cumprindo as metas. Em óleo de palma, conseguiu desde o ano passado que todo o fornecimento seja certificado.

Antonio Calcagnotto, do setor de Assuntos Corporativos e Sustentabilidade da Unilever, disse que a empresa prega que todos os setores evoluam no trabalho em prol da sustentabilidade. Citou Paul Polman, CEO da Unilever, que afirma que recursos vão acabar se a preocupação com eles não for de todos.

Explicou que cada uma de suas 20 marcas precisa ter no dia a dia compromisso com pelo menos um dos 17 global goals, promovendo-os em sua missão, desde o início da cadeia.

Como parte de sua apresentação, exibiu dois vídeos sobre as 17 metas. O primeiro tenta atingir consumidores, explicou Calcagnotto, e o segundo mostra o compromisso da Unilever com a preservação das florestas. O mote é que as árvores estão mais seguras na cidade que na mata.

De acordo com Calcagnotto, a Unilever planta uma árvore e a protege a cada pessoa que se engaja com os global goals.

Lembrou que boa parte das doenças de 2 bilhões de pessoas vem de problemas de higiene, justificando projeto que ensina a lavar as mãos.

Desafio posto pelo CEO foi dobrar produção e cortar pela metade impacto ambiental da empresa. Nas fábricas há 100% de reutilização de água, e todos os efluentes são tratados. Inaugurada em agosto, fábrica de Aguaí, a 15ª da Unilever, capta da chuva 100% da água utilizada. Nos produtos, tentam influenciar indústria como um todo a adotar tecnologias que permitam menor consumo de água. Disse que é absurdo ainda se usar tecnologia da década de 90 na fabricação de sabão. “Temos que forçar a mudança via legislação” defendeu, porque via educação é demorado. Citou o exemplo do cinto de segurança de três pontos, adotado por lei nos carros brasileiros. Enquanto o uso do cinto não passou a ser obrigatório e fiscalizado, não houve redução do número de mortes em acidentes de trânsito.

Unilever, por convicção do CEO, cede gratuitamente tecnologia para produção de produtos concentrados para lavagem.

Vai também transferir tecnologia para redução do uso de água na produção ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), que poderá ser repassado por ele inclusive para concorrentes da Unilever.

Dunin parabenizou Unilever pela qualidade das peças publicitárias, lembrando que a comunicação é parte essencial das metas.

Rafael Gioelli, gerente geral do Instituto Votorantim, explicou que a entidade funciona como centro de excelência sobre temáticas sociais para as sete empresas de atuação global do grupo. Alinhamento é a vantagem, além da sinergia e da economia de escala. Reflexão feita em 2010 mostrou que associação com os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODMs), por ser global, permitiria dirigir esforços. Passou a medir o impacto dos negócios do grupo nas áreas em que atua sobre os ODMs ao longo do tempo. Isso possibilita planejar melhor o que fazer, explicou.

Agenda pós-2015, com mudança de ODM para ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável), deu oportunidades para atuação do setor privado se ampliaram fortemente. Não se fala mais apenas de coisas críticas, como acabar com a miséria, mas também melhorar a qualidade da nutrição, disse, e a agenda passa a ser muito mais ampla e mais rica.

Disse que é preciso saber lidar com o poder que a empresa tem sobre algumas das localidades em que opera. Às vezes a Votorantim é único empregador e a maior fonte de tributos. A economia gira em torno da operação, que também concentra pessoas com melhor formação, o que exige cuidado, mas essa assimetria de poder pode ser usada para tentar desenvolver capitais – humano e social, por exemplo.

Segundo Gioelli, o instituto não compete, e sim, fortalece políticas públicas. Citou município do Pará de 40 mil habitantes com R$ 32 milhões de orçamento para Educação. Para a mesma comunidade, Votorantim poderia dispor de R$ 300 mil, o que é pouco para competir, mas ajuda nas políticas públicas. Em 26 municípios há programa de auxílio à gestão, com fornecimento de ferramentas e ajuda no planejamento, por meio da criação de planos municipais. Inclusive leva aos municípios o conceito dos ODS.

Sonia Chapman, gerente de Desenvolvimento Sustentável da Braskem, disse que desafio dado pela posição de maior produtora de polímeros da América Latina é se posicionar como, desde sua fundação, incapaz de fazer as coisas sozinhas. Citou o 17º global goal (Fortalecer os mecanismos de implementação e revitalizar a parceria global).

“Gosto do 17º ODS por mostrar que não se fez o bastante nos ODMs”, declarou. Em sua opinião, haver vertente econômica é fundamental. Comentou parceria lançada na semana anterior pela Rede, relativa à perda de água na distribuição, que normalmente as pessoas desconhecem – da água tratada, em média 40% não chegam ao consumidor. Dezenas de empresas não se conformam com essa situação, e o movimento pede que as pessoas peçam aos futuros prefeitos tratem disso em seus planos de Governo. “Gosto de pensar nos ODS como forma de pensarmos num propósito”, afirmou. Para ela, a humanidade está caminhando como um todo na direção de se perguntar o que está fazendo, o que vai deixar para as próximas gerações.

A Braskem, disse, conhecia previamente as metas por estar entre as que se destacavam entre as líderes das 10 metas do Pacto Global. Empresa sempre teve o cuidado de considerar a realidade do Hemisfério Sul. “Nas discussões sempre havia muita pegada europeia e norte-americana”, explicou. O desafio era mudar isso no inconsciente coletivo, e os objetivos agora aproximam todos. A Braskem fez correlação entre seus 10 macroobjetivos e os 17 global goals, e encontrou enorme coincidência.

O papel das PMEs

“O desafio das micro e pequenas empresas é muito grande quando se trata de sustentabilidade. Ficamos entre o caixa e as ações que têm que ser feitas”, disse o gestor de relacionamento e inovação da Ambiental MS, Sérgio Cintra, durante o terceiro painel do seminário, intitulado A contribuição das PMEs para o Desenvolvimento Sustentável.

“Temos muito problemas com as legislações brasileiras, mas cada empresa precisa ter sua licença ambiental. Existe muita falta de informação, sem contar que o Governo delega ao município. O pequeno sofre demais. O mais importante é agir com sustentabilidade e buscar as certificações”, explicou.

Para Raquel Cruz, diretora da indústria de cosméticos Feitiços Aromáticos, o diferencial competitivo é promover ações sustentáveis, começando pela comunidade. “Temos 20 colaboradores que moram na mesma região onde fica a empresa. Nossa postura é embutir uma cultura de cuidados ambientais, causando um impacto positivo, por meio do conhecimento”, defendeu.

Segundo o diretor da Micro-Química, Cláudio Hanoaka, não adianta brigar com a tendência. É preciso, disse, colocar-se do outro lado, referindo-se à geração Y, que faz várias coisas ao mesmo tempo. “Tendo isso como exemplo, as empresas precisam se reinventar a todo momento, principalmente quando se trata de sustentabilidade.”

Sustentabilidade na multinacional

“Apesar de sermos suecos, estamos aqui para dividir nossas experiências”, enfatizou a diretora regional da Sandvik, Lovisa Curman.

Ela explicou que a empresa tem sede na Suécia, mas possui fornecedores químicos de todos os segmentos e processos. “Para nós é muito importante o pilar da sustentabilidade, pois defendemos o meio ambiente.”

Lovisa contou que a responsabilidade social, a econômica e a ambiental são os pilares da Sandvik e fez um alerta: “se a gente compra um mineral de área de conflito, estamos contribuindo também para este caminho inverso. Temos um código de conduta e sempre fazemos auditorias para encontrar não conformidades. A ideia é de parceria para ajudar a melhorar o ambiente e a gestão da empresa. Não temos a intenção de punir, pois nossa equipe de especialistas dá todo suporte para adequação”, concluiu.

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