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‘As coisas importantes que aprendemos não estão na sala de aula’, afirma Viviane Mosé

Fernanda Barreira, Agência Indusnet Fiesp

Educação e cultura foram os temas debatidos pelo InteligênciaPontoCom, bate-papo mensal do Serviço Social da Indústria de São Paulo (Sesi-SP). Os convidados da noite desta segunda-feira (27/10), no Teatro do Sesi-SP, foram Viviane Mosé, filósofa, psicóloga, psicanalista, escritora e professora, e Célio Turino, historiador, escritor e gestor público.

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Viviane Mosé e Célio Turino falam de educação e cultura no Teatro do Sesi-SP. Foto: Everton Amaro/Fiesp


No mês em que se comemora o Dia dos Professores, Viviane criticou o modelo atual das escolas brasileiras. Para ela, o que falta principalmente nas instituições de ensino é vida. “Temos que incentivar a convivência, o relacionamento, as salas abertas, sem muros. É preciso abrir a escola para a vida. Deixar a rua e a comunidade invadirem o colégio”, recomendou.

Segundo a filósofa, temos uma escola fundada em conteúdos abstratos e absolutamente inúteis. “As coisas mais importantes que aprendemos na vida não estão na sala de aula. O melhor da universidade está no corredor, na cantina e nas festas. Os lugares onde há troca verdadeira entre as pessoas.”

Viviane discorda das formas de avaliação utilizadas nos principais centros de ensino do país. “Nós avaliamos as pessoas pelo conteúdo, por aquilo que ela guarda na memória. O ideal é avaliá-las por suas competências e habilidades. Não importa o conteúdo, mas sim a capacidade de análise. Esse é o caminho da educação”, alertou.

Educação = Cultura

Tanto Viviane Mosé como Célio Turino ressaltam que educação e cultura precisam caminhar sempre juntas. “A educação é um meio de transmissão de cultura. Não é possível dissociar as duas coisas”, disse o historiador.

“Quando a gente aproxima a cultura da educação, a gente extrapola a estrutura da técnica e do aprendizado. A gente se desloca do próprio corpo, na inventividade. As pessoas vão criando novas teias de relações, vão experimentando novos comportamentos”, afirmou Turino.

Para Viviane, o ideal é que cultura e educação sejam uma única coisa. Inclusive, ela lembra que “a escola deveria ser a principal fonte de acesso ao que a cultura oferece de melhor”. No entanto, afirma que todo tipo de cultura quando se manifesta na educação tradicional não é bem vista, pois há um preconceito e uma burocratização dentro das escolas que não permitem a livre expressão da arte.

Programa Pontos de Cultura

Quando foi secretário da Cidadania Cultural do Ministério da Cultura, Célio Turino implantou o programa Cultura Viva, que viabilizou a criação de mais de 2 mil Pontos de Cultura em cerca de 1 mil municípios brasileiros, beneficiando 8 milhões de pessoas.

Hoje, o projeto se tornou referência para diversos países da América Latina e Europa. “O programa vem de um conceito matemático: me dê um ponto de apoio, uma alavanca, que eu moverei o mundo. É nisso que acreditamos”, disse Turino. “Cultura na veia: é assim que a gente faz a transformação.”

Apesar das críticas ao sistema atual de ensino e a falta de incentivo político e financeiro à cultura, os palestrantes demonstraram otimismo com o futuro das duas áreas.

“Hoje, o que nós professores oferecemos aos alunos é pouco, porque eles têm uma mente muito mais aberta. Mas, isso é bom. Agora nós precisamos ampliar nossos horizontes. Que isso sirva de incentivo”, observou Viviane.

“O Brasil está pulsando de baixo para cima, pela cultura, pela arte, pela vida”, completou.

Já Célio Turino disse acreditar na valorização da educação e da cultura, descritas por ele como “responsáveis por potencializar o valor da nossa gente”.

No término do bate-papo, a filósofa e educadora Viviane Mosé leu o poema de sua autoria “Revelação”, reproduzido abaixo:

Revelação

Eu queria dizer uma coisa que eu não posso sair dizendo por aí.
É um segredo que eu guardo, é uma revelação
Que eu não posso sair dizendo por aí.
É que eu tenho medo de que as pessoas se desequilibrem delas mesmas.
Que elas caiam quando eu disser.
É que eu descobri que a palavra não sabe o que diz.
A palavra delira. A palavra diz qualquer coisa.
A verdade é que a palavra, ela mesma, em si própria, não diz nada.
Quem diz é o acordo estabelecido entre quem fala e quem ouve.
Quando existe acordo existe comunicação,
Mas quando esse acordo se quebra ninguém diz mais nada, Mesmo usando as mesmas palavras.