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Apesar do resultado positivo em março, expectativa da Fiesp é de baixo dinamismo da atividade industrial para os próximos meses

A expectativa reflete o forte aperto monetário implementado pelo Banco Central e dos custos elevados de produção que ainda pressionam a indústria; guerra na Ucrânia e lockdowns na China também influenciam este cenário

Agência Indusnet Fiesp

A produção industrial aumentou 0,3% entre fevereiro e março, sem efeitos sazonais. Frente a março de 2021, houve recuo de 2,1%. O crescimento veio acima da expectativa do mercado (+0,1%). O resultado de março foi puxado pela indústria extrativa (+0,9%), dado que a indústria de transformação contribuiu negativamente (-0,6%). O nível da produção industrial está 2,1% abaixo do momento pré-pandemia (fevereiro de 2020).

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Fonte: elaboração FIESP a partir de dados do IBGE

A produção industrial cresceu no 1º trimestre de 2022 (+0,3%), na comparação com o último trimestre do ano passado, interrompendo uma sequência de quatro trimestres consecutivos de queda: 1º trimestre/21: -1,0%; 2º trimestre/21: -2,9%; 3º trimestre/21: -1,8%; 4º trimestre/21: -0,1%. Ainda com relação ao 4º trimestre de 2021, a indústria extrativa cresceu 1,0% e a transformação se manteve estável.  Na comparação com o 1º trimestre de 2021, a indústria acumula queda de 4,5% no primeiro trimestre de 2022.

O crescimento da atividade industrial em março de 2022 foi espraiado, sendo acompanhado por três das quatro grandes categorias econômicas e pela maior parte (14) dos 26 setores pesquisados.

Entre os setores, as influências positivas mais importantes no mês de março foram obtidas pelo segmento de veículos automotores, reboques e carrocerias (+6,9%), outros produtos químicos (+7,8%), bebidas (+6,4%) e máquinas e equipamentos (+4,9%), com as três primeiras intensificando o avanço observado no mês anterior: 4,3%, 0,6% e 6,1%, respectivamente; e a última voltando a crescer após três meses consecutivos de queda na produção. Por outro lado, 12 dos 26 setores apresentaram baixa na produção. Os destaques negativos ficaram por conta de produtos alimentícios (-1,7%), coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (-2,1%) e produtos farmoquímicos e farmacêuticos (-8,4%).

Entre as grandes categorias econômicas, na comparação com o mês anterior, o destaque positivo ficou a cargo do segmento de bens de capital (8,0%), acima do que foi observado em fevereiro (+2,5%). Esse crescimento foi assistido pelo setor de construção civil, que cresceu 16,8% em relação ao mês anterior. Em seguida, bens de consumo duráveis acelerou o crescimento em março (2,5%), se comparado a fevereiro (+1,4%). Bens intermediários reduziram o ritmo de expansão em março (+0,6%), se comparado a fevereiro (+1,8%). Por outro lado, a única contribuição negativa no mês foi observada no segmento de bens de consumo semi e não-duráveis (-3,3%). Frente a março de 2021, a redução mais relevante foi observada no grupo de bens de consumo duráveis (-12,8%), seguido por bens intermediários (-2,2%) e bens de consumo semi e não-duráveis (-1,2%). Em contrapartida, o segmento de bens de capital avançou 4,4% em março de 2022, o único resultado positivo entre as grandes categorias econômicas.

Para os próximos meses, a FIESP mantém a expectativa de baixo dinamismo da atividade industrial. Esse quadro será resultado do forte aperto monetário implementado pelo Banco Central e dos custos elevados de produção que ainda pressionam a indústria. A guerra na Ucrânia adicionou pressão adicional sobre os custos de produção, e adiou a normalização das cadeias globais de insumos. Além disso, com o retorno da Covid e dos lockdowns na China, eleva-se o risco de uma maior postergação na normalização das cadeias de suprimentos.

Ademais, como apresentado na publicação sobre o resultado da produção industrial em fevereiro, o efeito do aumento da taxa de juros sobre a indústria de transformação é mais expressivo do que para a economia como um todo, em particular, o setor de serviços. A partir de um modelo econométrico, a FIESP estima que um aumento de 1,0 p.p da taxa real de juros tem impacto sobre o PIB da indústria de transformação superior a 50% ao que ocorre no PIB total.

Por outro lado, o possível relaxamento fiscal dos estados e municípios em um ano de eleições, o aumento do ticket médio do Bolsa Família (agora Auxílio Brasil), de cerca de R$ 250 para um valor médio de R$ 400 por família, e os estímulos fiscais adotados pelo governo federal neste ano, como a antecipação do pagamento do 13º salário para aposentados e pensionistas e o saque do FGTS no valor de R$ 1.000, são elementos favoráveis no quadro prospectivo da indústria de transformação.

O indicador antecedente da indústria de transformação (IAT) da FIESP corrobora, no entanto, a avaliação de um cenário de fraqueza da indústria à frente. O IAT foi construído com o objetivo de antecipar os ciclos de expansão e desaceleração da produção da indústria de transformação brasileira. Historicamente, o IAT antecipou a trajetória futura da produção da indústria de transformação com ao menos 6 meses de antecedência, em média. Considerando as informações até março, o IAT aponta para um cenário mais negativo ao longo do 2º semestre de 2022[1]. Esse quadro é condizente com os efeitos esperados do ciclo de aperto monetário adotado pelo Banco Central[2].

Isto posto, a projeção da FIESP para a produção industrial em 2022 é de uma queda de 1,2%, que, se confirmada, será a sexta redução da indústria em um período de dez anos.

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[1] Inspirado no Composite Leading Indicator da OCDE, o IAT é construído a partir de cinco séries: (i) Demanda futura: indicador de expectativa de demanda para os próximos 6 meses da Sondagem Industrial da CNI; (ii) Risco país: EMBI (Emerging Market Bond Index); (iii) Ibovespa; (iv) Juros real: ex ante – Swap Pré x DI 360 dias descontado pela expectativa do IPCA para os próximos 12 meses; (v) Exportações: índice de quantum de exportações da Funcex.

[2] Considerando a taxa de juro real neutra estimada pelo Banco Central (3,6%), a política monetária entrou no terreno contracionista no 4º trimestre de 2021. Dadas as defasagens do aumento da taxa de juros sobre a atividade econômica, estimada entre seis e nove meses, a expectativa é que a economia comece a sentir fortemente os efeitos do atual ciclo de aperto monetário no 2º semestre de 2022.