imagem google

Alterações do clima podem ter inaugurado nova era geológica, segundo especialista

Às vésperas da COP-15, Carlos Nobre, diretor do INPI, falou sobre mudanças climáticas em reunião do Contec/Fiesp

Agência Indusnet Fiesp

A interferência do homem na natureza antecipa uma nova era geológica, o antropoceno, iniciada há 200 anos. Essa discussão, por enquanto restrita aos cientistas, pode ser sentida no dia a dia: seca na Amazônia, furacões muito fortes, como o Katrina, chuvas intensas e queda de granizo em Buenos Aires (Argentina).

Imagem relacionada a matéria - Id: 1582862917

Carlos Nobre, do INPI

A afirmação é Carlos Nobre, diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e chefe do Centro de Ciência do Sistema Terrestre, que foi pioneiro no desenvolvimento de pesquisas sobre os impactos no clima causados pelo desmatamento da Amazônia.

As mudanças climáticas foram alvo de debate em reunião nesta sexta-feira (13) no Conselho Superior de Tecnologia e Competitividade (Contec) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo.

O cientista tocou em um aspecto ético em relação às mudanças climáticas. “Quem menos emite é quem mais sofrerá com as mudanças: o continente africano e alguns países latino-americanos. Cinquenta e cinco por cento das emissões são dos países em desenvolvimento e os outros 45% dos desenvolvidos”.

Neste acerto de contas injusto, Nobre aponta que a destruição exponencial dos recursos naturais levará a um colapso do sistema. Da Revolução Industrial até os dias de hoje, já foram despejados 500 bilhões de toneladas de carbono na atmosfera.

A aceleração desse processo se deu especialmente após a II Guerra Mundial, com o aumento populacional e o uso recorrente da energia que cresceu vinte vezes per capita de 1920 até a atualidade. Com o volume já acumulado de carbono na atmosfera, a temperatura se elevará automaticamente nos próximos anos, garantindo um aquecimento futuro.

Nobre deu a dimensão dessas alterações: “O mar subiu quase 20 centímetros no século 20. Se a temperatura subir 5°C em 200 anos, será algo sem precedentes na história do planeta”, alertou.

O especilista comenta ainda que nos últimos duzentos anos, a temperatura já subiu 0,8°C: “Mas lembremos que no pico da última glaciação a temperatura oscilou de 5 a 6°C numa média global. Com as taxas atuais, aceleramos um ciclo natural de transformação, que leva 12 mil anos, por 50”.

A elevação de 2°C da temperatura global é o limite para se ter uma alteração climática ainda suportável ou adaptável. Ele aponta o que é irreversível mesmo que se tomem medidas imediatas: extinção de espécies, derretimento de geleiras no Ártico e degelo superficial na Groenlândia, por exemplo.

Desmatamento diminui, mas chuvas provocam catástrofes urbanas

No Brasil, os biomas podem sofrer com a temperatura elevada, transformando florestas em savanas e partes do Nordeste em regiões desérticas. Já se registra o aumento do número de noites mais quentes, déficit hídrico no Nordeste e maior intensidade das chuvas no Sudeste da América do Sul. Sem o apoio de saídas tecnológicas, a agricultura brasileira pode perder importantes áreas agrícolas por volta de 2070.

O descontrole do clima se reflete em chuvas torrenciais. Um exemplo próximo é o Rio de Janeiro com enchentes registradas nesta semana. “No Rio, há um milhão de pessoas na região metropolitana em áreas de risco. São moradores de locais que estão meio metro abaixo do nível do mar e um metro e meio acima, como Jacarepaguá e Baixada Fluminense, onde o nível pode se elevar de 50 centímetros a um metro com as mudanças climáticas”, apontou Nobre.

O especialista enfatizou que é preciso tomar atitudes imediatas e citou algumas conquistas positivas. O INPE divulgou nesta quinta-feira (11) que, entre agosto de 2008 e julho de 2009, a Amazônia perdeu 7 mil km² de floresta. É a menor taxa anual de desmatamento já registrada pelo Instituto desde o início do levantamento em 1988.

Mas, é preciso fazer mais. Nobre apontou saídas viáveis: “É preciso inventar um novo paradigma de desenvolvimento alicerçado na tecnologia e inovação com a contribuição das universidades e da comunidade científica. O Brasil tem a oportunidade de liderar uma trajetória de sustentabilidade”. E deu um exemplo: o País não deve pensar em exportar somente o etanol, mas também sua tecnologia verde.

Em relação ao encontro em Copenhague, Dinamarca, Nobre afirmou que a Europa está conceitualmente à frente dos Estados Unidos quando o assunto é mudança climática e a Alemanha, por exemplo, cumpriu seu compromisso em relação ao Protocolo de Kyoto. Mas, segundo ele, é difícil fazer previsões quanto ao resultado da COP-15, pois há uma questão complicada a ser equacionada. Como repartir esses custos entre os países?


A cada hora no mundo:

  • 9 mil pessoas nascem;
  • 4 milhões de toneladas de CO2 são jogadas na atmosfera;
  • 1.500 hectares de florestas são derrubadas;
  • 1,7 milhões kg de nitrogênio são despejados na atmosfera em função das atividades humanas;
  • 3 espécies são extintas (ou seja, um processo mil vezes mais veloz do que o natural).