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Agronegócio brasileiro é avaliado por especialistas e um dos focos é o seu papel como fornecedor mundial

Perspectivas econômicas no Brasil e no mundo trazem boas oportunidades para o setor agrícola

Milena Nogueira, Agência Indusnet Fiesp

Em reunião exclusiva, na Fiesp, para os membros do Conselho Superior do Agronegócio (Cosag) nesta segunda-feira, 1º/3, o economista-chefe do Itaú Unibanco, Mario Mesquita, apresentou as perspectivas econômicas no Brasil e no mundo.

O impacto econômico da segunda onda da Covid-19 foi menor do que a primeira onda até o momento, contudo a renovação do auxílio emergencial deverá usar créditos extraordinários (não sujeitos ao teto de gastos). O governo só pode criá-lo em razão urgente e imprevista. Na pandemia é urgente, mas não é prevista, na avaliação do especialista. 

Ao se olhar para o dólar, o crescimento global e as commodities ajudam a conter a moeda. Para Mesquita, a inflação sofre pressão temporária neste cenário. Por outro lado, o preço da alimentação subiu, devido à canalização de consumo de bens e alimentos. Segundo Mario, a inflação vai seguir pressionada o ano todo.

“O Banco Central vai começar a subir a taxa de juros (Selic) em março, já que a taxa Selic em 2% levaria a inflação acima da meta (3,5%) em 2022. É um ajuste importante para segurar as expectativas, ainda mais que devemos ter outra rodada de auxílio emergencial”, explica o economista.

Em relação ao agronegócio, na visão econômica e de longo prazo, segundo o economista-chefe, apesar de um ano de recessão, o setor deve crescer cerca de 2% este ano.

Como o Brasil vem se consolidando como fornecedor mundial?

As perspectivas para o agronegócio brasileiro, dentro do cenário mundial, são de oportunidades como fornecedor, principalmente para o biocombustível, segundo levantamento feito pelo professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (Fea-RP/USP) e da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV Eaesp), Marcos Fava Neves, o segundo expositor do Cosag. 

De acordo com Neves, existe uma visão mais estratégica para trabalhar o agronegócio diante da economia global, como acontece com os Estados Unidos, onde as importações de produtos agrícolas cresceram 6 bilhões de dólares. A estratégia que o Brasil tem de tomar para beneficiar não só empresas, mas pessoas, é incentivar as cadeias produtivas, como já tem feito neste período, vide o crescimento forte nos últimos anos.

Ainda de acordo com a expectativa do expositor, com a soja, por exemplo, o Brasil atinge 50% no mercado mundial, já no algodão, 23% no mercado mundial, em 2021, e talvez possamos chegar nos próximos anos a passar os EUA, quantitativamente. Lembrando que, qualitativamente, o País está no caminho para se posicionar como o algodão mais sustentável do mundo.

Outro caso é o milho brasileiro, que alcança 22% das exportações, do ano passado até o momento. Isso representa uma vantagem na importação, diluída em vários países, e contar  também com a retomada da força do etanol de milho com perspectiva de 8 bilhões de litros até 2030, uma expectativa de investimentos. O frango não teve um salto representativo desde 2020, mas o Brasil abriu distância para os Estados Unidos, o que representa uma perspectiva grande de crescimento. A carne bovina brasileira ocupa 25% do mercado mundial com boa distância do segundo país, os EUA.

Destaque para o histórico suco de laranja originário do Brasil, que representa quase 80% do mercado mundial. Foi o produto que mais avançou no mercado. O maior crescimento de market share, no ano passado, ficou com o açúcar, perto dos 50% do mercado global, segundo números apresentados por Neves.

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O professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV Eaesp), Marcos Fava Neves, foi um dos expositores do Cosag e apresentou as perspectivas econômicas no Brasil e no mundo. Fotos: Karin Kahn/Fiesp

Perspectiva para os próximos 20 anos

Para Neves, os próximos 20 anos representarão oportunidades, baseado em dados da Food Price Index FAO, que levanta um ponto de atenção sobre o aumento do consumo numa escala contínua, enquanto a produção segue como escada, devido a problemas climáticos e de preço. A FAO mostra que a América Latina e o Caribe devem reforçar sua posição de principal fornecedor mundial de commodities agrícolas, com crescimento médio nas exportações líquidas de 1,7% ao ano, enquanto a América do Norte deve expandir em ritmo mais lento, 1,3% ao ano.

A expectativa das “importações de soja, milho, suíno e frango até 2029 são todas favoráveis. E a bioenergia está voltando com força total, na retomada da economia e alta do petróleo. A China, por exemplo, precisa de área e investimento, o que abre espaço para grão e exportação de milho do Brasil”, avaliou.

A Índia, com seu problema gravíssimo de poluição, avança no biocombustível, substituindo parte da gasolina por etanol. Na Europa e no Canadá, 15% do combustível são renováveis, segundo informou o professor, que acredita que o novo governo norte-americano deve ser mais favorável ao biocombustível, devido à volta dos EUA nas reuniões de mudança climática, as  COPs.

O Brasil precisa cada vez mais agir e assumir o cargo de fornecedor sustentável no mundo para ter chances de crescer, na avaliação dele. Esse é o posicionamento proposto como fornecedor sustentável de alimentos, biocombustíveis e outros agro-produtos, que passa por custos, pela busca incessante de diferenciação e pelo cooperativismo, disse Neves, que salienta que falta cooperação no Brasil para avançar no mercado internacional como força única.

O acadêmico destaca também que a inteligência do agro está no food service, o prato pronto, que para o exterior é uma grande oportunidade. Entretanto, o processo de agregação de valor não está aberto só para o Brasil, é preciso monitorar a Rússia e a África, assim como tecnologias de impressão de bife em 3D.

Energia renovável como forte indicador para o Brasil

A agenda sustentável é definitiva no mundo. O Brasil, dentro desse modelo de fornecedor mundial sustentável, tem o forte indicador de energia renovável em sua matriz energética, sendo o segundo maior produtor do mundo, atrás apenas da Suécia.

Neves conclui que o Brasil precisa enfatizar esses indicadores em busca de recursos verdes. Outros índices dizem respeito ao uso de biocombustível na matriz, a emissão per capita baixa de Gases de Efeito Estufa (GEE), a cobertura do território com florestas ou vegetação original, mostras de reflorestamento e desmatamento ilegal, mais a força que tem o Código Florestal brasileiro, como também as inovações e o uso de tecnologias limpas, afirmou, em sua conclusão.