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Entrevista: O professor Ricardo Chaves R. Martins fala sobre o desafio da indústria na contratação de profissionais qualificados


O consultor legislativo, mestre em Educação e doutor em Ciência Política, comenta as dificuldades da indústria na contratação de trabalhadores capacitados em novos processos e tecnologias

por Karen Pegorari Silveira

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Professor Ricardo Martins é mestre em Educação e doutor em Ciência Política




O nível educacional da população, especialmente dos trabalhadores, é um dos principais fatores que podem estimular ou atravancar a competitividade das empresas nacionais. Segundo estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), 52% dos empresários entrevistados apontam como maior obstáculo para a qualificação dos trabalhadores as deficiências originárias da educação escolar básica.

De acordo com uma pesquisa realizada pela CNI em 2011, a falta de trabalhador qualificado afeta dois terços da indústria, atingindo todas as áreas e categorias profissionais, com maior intensidade a área de produção, sobretudo operadores e técnicos.

Em entrevista, o professor Ricardo Martins, diz ainda que é preciso impulsionar a qualidade da formação básica para que a qualificação técnica alcance os patamares desejados e necessários “a formação de professores, valorização das carreiras de magistério, infraestrutura e equipamento das escolas são algumas providências urgentes”.

Leia a seguir a entrevista na íntegra:

Apesar do aumento no nível de escolaridade no mercado de trabalho, vemos ainda que o Brasil não ocupa uma posição de destaque no campo da competitividade global, ocupando a 48º posição, enquanto países, como o Chile, ocupa a 33º posição. Em sua opinião, como o nível educacional da população está afetando o mercado de trabalho?

Ricardo Martins – O Brasil logrou, nos últimos vinte anos, promover uma extraordinária inclusão escolar de segmentos que durante longo tempo foram excluídos do processo de escolarização. A qualidade da educação formal oferecida, contudo, permanece como grande desafio. A aprendizagem dos estudantes, em conteúdos fundamentais, como Língua Portuguesa e Matemática, está longe do desejável. Nesse sentido, o domínio de competências e habilidades básicas, por parte dos jovens egressos dos sistemas de ensino, é insatisfatório. Isto certamente constitui obstáculo para seu desempenho no trabalho, dado que as ocupações requerem cada vez mais profissionais aptos a apreender novos processos e novas tecnologias. Um dos principais resultados desse quadro é a limitação da produtividade e da competitividade da economia brasileira.

Dados de uma pesquisa realizada em 2012 pela ManPower Group sobre Escassez de Talentos indica como razão mais citada para a carência de talentos é a ausência de competência técnica, isto é, a falta de qualificação específica. Dado esse contexto, o senhor acredita que as escolas estão preparadas para atender a demanda de qualificação técnica das empresas?

Ricardo Martins – Como mencionado na resposta anterior, é insatisfatório o domínio de competências básicas pelos egressos do sistema escolar. O sucesso de aquisição de competências técnicas específicas, nas economias modernas e tecnologicamente avançadas, depende do adequado domínio das primeiras. Há, portanto, um importante obstáculo a ser vencido. É preciso impulsionar a qualidade da formação básica para que a qualificação técnica alcance os patamares desejados e necessários.

O que pode ser feito, no campo das políticas públicas no Brasil, para se fomentar e melhorar a qualidade da formação de mão de obra?

Ricardo Martins – Ações de longo prazo para melhorias do sistema de ensino e da qualidade da educação básica: formação de professores, valorização das carreiras de magistério, infraestrutura e equipamento das escolas, gestão eficiente das unidades escolares, participação das famílias e currículos adequados são providências indispensáveis no âmbito das políticas públicas educacionais. Há, contudo, um grande contingente de jovens que, já tendo passado pelos sistemas de ensino, não terá condições de se beneficiar dessas mudanças de longo prazo. Para esses, é necessário desenvolver ações de curto prazo, que aproximem seu perfil das necessidades do mercado de trabalho; que despertem o interesse para a elevação do nível de escolarização e, especialmente, o domínio da língua portuguesa e da matemática, ferramentas indispensáveis para o bom desempenho profissional. Outro conjunto de ações importantes deve estar voltado para a elevação do nível de escolaridade daqueles que, já empregados, ainda não concluíram o ensino médio.

Muitos empresários comentam que os profissionais com ensino superior chegam às empresas sem uma adequada capacitação para exercerem as atividades no dia a dia de trabalho. Como o senhor vê essa situação e qual solução seria mais aplicável para esses empresários?

Ricardo Martins – Esse fenômeno é, sem dúvida, reflexo das deficiências observadas na educação básica. Por outro lado, é fundamental que as instituições formadoras de educação superior e as empresas, dos diversos setores produtivos, se encontrem em fóruns específicos para discutir as necessidades e possibilidades de adequação das formações profissionais. A qualificação em serviço é também uma solução, mas esta será tão mais eficaz quanto se conseguir resolver os impasses hoje observados na formação inicial. O Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) revelou que o analfabetismo funcional atinge 38% dos estudantes universitários e esse indicador expressa as deficiências de aprendizagem. É um impacto altamente negativo e que compromete os níveis de produtividade e de competitividade. É preciso resolver de vez a questão da qualidade do ensino em conteúdos fundamentais na educação básica e desenvolver estratégias compensatórias para aqueles que já completaram ou estão por completar suas trajetórias escolares.

Na década de 60, o Brasil era comparado à Coreia do Sul em termos de desenvolvimento. Hoje há uma grande diferença entre os dois países. Por que a distância se tornou tão grande?

Ricardo Martins – Uma das principais causas foi o decisivo e contínuo esforço que a Coreia do Sul realizou na educação escolar, desde os primeiros anos até a educação superior. Essa certamente é uma diferença crucial. O analfabetismo foi erradicado, a inclusão escolar é praticamente total, a qualidade da formação é assegurada por monitoramento permanente e há investimento nos talentos e na formação de alto nível.

O índice de evasão de jovens na escola é alto, e com isso, muitos também não conseguem entrar no mercado de trabalho. Em sua opinião, há algo que possa ser feito para tornar a escola atrativa para o jovem, de modo a melhorar sua inclusão no mercado de trabalho?

Ricardo Martins – Uma grande mudança deve ser feita no currículo escolar do ensino médio, oferecendo oportunidades diversificadas de formação geral e tornando mais acessível à educação profissional. A adoção pedagógica de novas tecnologias é imprescindível. Isto requer preparo inovador dos profissionais do magistério. A inserção social da escola, com a participação das famílias e do mundo empresarial, é também importante. A integração escola-mundo do trabalho é indispensável.